Conhecer a si mesmo é perceber-se como ente consciente dos seus atos e desejos, vontades e atributos, pela introspecção e a visão no interior, em uma busca da verdade na subjetividade, o que não necessariamente quer dizer que ela exista. Cuidar de si é abraçar a própria vida como fato acontecendo, muro nunca construído até o último tijolo, rio que não para as suas águas e correntes ao fazer de si lagoa, mares revoltosos cujas zonas abissais desconhecemos e iremos devassá-las.
Conhecer a si mesmo é entender que o ser de si é construído no em si pelo lá fora, que o que faz de nós quem somos é o que o mundo é, e que o mundo mesmo sendo como é sofre influência do que somos. Cuidar de si é não atribuir aos outros as próprias capacidades e aptidões, não permitir se esvair a nossa originalidade e pensamento criativo, exercido e trabalhado no intuito de fazer acontecer o que é fato que ocorra: o autoconhecimento e a expansão da consciência que prossegue debulhando os empecilhos.
Conhecer a si mesmo é compreender que essa atitude torna os homens mais humanos e que sendo mais humanos estes são mais conscientes, logo o homem consciente é o humano esclarecido, conhecedor das suas próprias faculdades e dificuldades, eficiências e deficiências, debilidades e habilidades, efeitos e defeitos. Cuidar de si é recusar à vida alheia as nossas especulações, concepções equivocadas concernentes ao sujeito além do nosso, preconceitos formulados a partir da idiotice e pela falta de noção: antagonismos digressores aos seus desmoronamentos quando implodem subterram as hipóteses mesquinhas.
Conhecer a si mesmo é a vivência de uma busca que não cessa, pois infinitas são as possibilidades que podemos ter com isso, de modo que a cada passo que nós damos no caminho a nossa estrada se prolonga e o seu fim se distancia. Cuidar de si é importante por nos permitir que as nossas lentes tenham focos diferentes na percepção da vida e que os óculos não quebrem, cegando os nossos olhos para que não enxerguemos o que a nós é necessário: o exercício da subjetividade constitui filosofia.
Conhecer a si mesmo é ser autofágico na perspectiva de que a fome de saber é saciada se a nós compreendermos ao buscar-nos, desobrigados e libertos da ânsia de resultados que esse desejo trás, mantendo como nosso objetivo o progresso do processo de sabermos o que somos. Cuidar de si é não ter preocupações com a conduta de ninguém, não exigindo das pessoas o que é próprio de si mesmo, sem projetar os seus desejos em quem pode desejar, é conseguir ao obter do próprio ser a permissão de ter sentido quando a vida o destruiu.
Conhecer a si mesmo é possuir a sensatez de refletir sobre o sujeito que se é e que se forma no que é como o sujeito que se faz: elucubração que nos permite extrair da existência o que ela tem de mais complexo, ou seja, o nosso entendimento e o seu reconhecimento. Cuidar de si é recusar-se e resistir à renúncia pessoal, buscando sempre sobre a multiplicidade respeitá-la e entender a sua singularidade, pois no meio de muitos não somos tão pouco ao tomar consciência de si como entes diversificados e vivos.
Conhecer a si mesmo é seguir a própria sombra até o ponto em que a luz fizer com que ela nos siga, de maneira a conhecermos esta sombra e permitirmos que a sombra nos conheça enquanto tal e como somos, pois esse lado em nós escuro não pode ser destruído e sim pensado claramente. Cuidar de si é afirmar o quanto somos indivíduos, enfatizando a importância do sujeito singular que se mantém na existência pluralista ao dizer sim ao ser de si no coletivo.
Conhecer a si mesmo é o exercício da filosofia prática, fática por si mesma no que diz respeito ao homem, debruçado sobre si vivenciando o próprio ser, intensamente e desprovido de outros meios que não seja o próprio fim a se chegar e atingir se conseguir. Cuidar de si é encontrar resoluções por conta própria, sem o recurso da calculadora científica usado para obter o valor de tais incógnitas, explorando o que nos é desconhecido, mas que faz de nós quem somos, assim sendo permitimos a nós mesmos não temer e desbravar tais territórios.
Em síntese, conhecer-se é cuidar-se quando olhamos para dentro e percebemos que nós somos o que temos de maneira que importa para nós saber de si sem precisar de mais ninguém classificando ou definindo o que nos é peculiar. Portanto, cuidar-se é conhecer-se quando não é mais preciso que alguém ou qualquer outro realize este trabalho que é nosso de buscar compreender toda a subjetividade que se forma por si mesma, independente dos juízos de valor que sejam feitos sobre ela.
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