terça-feira, 29 de maio de 2012
Sobre o Discurso da servidão voluntária, de Etienne La Boétie
No
início do seu manuscrito, Etienne La Boetie menciona Homero em uma fala de
Ulisses, e subverte a perspectiva da expressão para um contexto libertário,
perdoando o herói grego por ter cometido algum erro em favor dos demais, ele
sugere, com conhecimento de causa, que qualquer dominação não será boa para
todos, de modo que constitui a finalidade dos homens não ser governado, embora
para ele exista neles o desejo de servirem, não será bom para o geral ser
dominado por alguém.
Em seguida o pensador da liberdade já critica a
monarquia, comparando-a ao modelo de uma república, duvidando que exista alguma
coisa vantajosa sob o jugo dos monarcas. No entanto não prossegue nessa crítica,
continuando a escrever sobre os seus tópicos, La Boetie nos faz pensar sobre o
que faz nos coagir ao aceitar imposições de governantes escolhidos pela nossa
própria conta, afirmando que podemos ser mais fortes do que isso, sendo
capazes, por conseguinte, de a nós representarmos sem alguém na nossa frente.
Aproximando-se do argumento platônico do anel de
Gyges, onde é demonstrado que o poder corrompe o homem, Etienne se questiona
sobre o porquê de nós humanos escolhermos algum de nós para reger as nossas
vidas conscientes de que isso não será bom para nós, considerando que o poder
que nós cedemos para alguém que nos governa é nocivo quando contra nós se
volta. Para o filósofo francês, se o tirano proceder dessa maneira para com os
seus vassalos, ele vacila e se arrisca a decair da posição que ocupava quando o
povo o escolheu.
Não obstante ao seu discurso libertário,
prossegue o humanista de Sarlat na prosa fulgurante do seu texto, e nos diz ele
que podemos pelo nosso próprio cômputo, nos tornar livres sem temer risco
nenhum de represálias, nos atirando sobre a nossa autonomia, e arrancando dos
tiranos os poderes que um dia nós cedemos para eles. Postula Etienne que a
liberdade é o nosso maior bem e que por isso não podemos nós temer recuperá-la
sobre a custa do que for caso a percamos.
O tirano é opressivo e repressor, domina as
funções orgânicas dos corpos que controla a seu favor, tem o poder de destruir
qualquer um deles se quiser, e aproveita-se dos mesmos quando quer. A sugestão
elaborada por La Boetie para a abolição da servidão voluntária consiste em
suprimir gradualmente a autoridade do tirano até o fim, para que ele não mais
possa ter poder sobre ninguém, visto que a servidão para nenhum pode ser boa, o
pensador está dizendo que devemos estar sempre a defender a liberdade, aonde a
força do costume é o fundamento que nos prende ao cativeiro.
É nisso que consiste a “vitória da liberdade
sobre a dominação”, a superação do poder soberano pela emancipação, a
transgressão do status quo pela revolução, a livre escolha que fazemos pondo um
fim na servidão. E é aqui que a força entra como parte essencial da tirania
sobre todos, pois quando ameaçados, é a ela que os tiranos recorrem para se
defenderem, pondo em evidência o seu caráter dominante e repressivo sobre as
massas oprimidas. O grande temor dos tiranos se baseia, assim sendo, no medo
das massas do povo que está revoltado com ele, de modo que o despótico está
sempre em posição de defender-se contra todos os possíveis elementos em
oposição a ele, alienando de todas as formas o povo, para que dessa maneira ele
não se rebele e retome o poder popular.
Depreende-se no final das contas que a tirania é
um momento de fraqueza dos seres humanos, que permitindo dominar-se por alguém
não podem eles estar bem consigo mesmos, de sorte que doravante é essencial
para nós sermos livres e viver as nossas vidas plenamente sem temores. Etienne
nos ensina que jamais será partido o povo unido, que ninguém pode partir,
portanto, o povo que se une; e que, contra todos, ninguém pode se voltar sem a
certeza de perder o seu poder para com eles e consigo no final do seu domínio
ir à ruína.
Nietzsche x Copa do mundo
A dominação está pautada nos momentos da História desde a sua antiguidade. Os sumérios foram dominados pelos assírios, que por sua vez, foram ambos coagidos pelos babilônicos. Os assírios, tão reconhecidos pela sua crueldade, foram vencidos pelos medos e caldeus. Subjugados pelos egípcios foram os feníncios e hebreus, sendo os nilopolitas desbravados pelos hicsos.
Como se tem notado, não é novidade a visão de mundo através dos parâmetros dos senhores e escravos, da sua relação com as figuras do dominante e dominado - o que se estende para o medievo (com os vassalos e os suseranos), para a modernidade (com a burguesia e o proletariado) e para a contemporaneidade (com as suas classes médias).
O sentido amplo desta observação poderá ser reduzido às particularidades do nosso cotidiano, aonde sempre vemos os poderosos sobrepujando os mais humildes, segregando a humanidade entre os grandes e pequenos. Quem percebeu a influência da História sobre as relações de dominação foi Hegel, porém quem politizadamente apropriou-se dos conceitos precedentes foi Karl Marx.
Marx entendia que o processo progressivo da História - sob clara influência de Hegel - era um movimento dialético que acontecia através dessas lutas de classes. A essa doutrina ele mesmo deu o nome de materialismo histórico, afirmando que as transformações sociais possuiam bases materiais, ou seja, para ele, a economia de uma sociedade era o fator fundamental para as mudanças dentro dela.
Contudo, o que nos interessa mesmo aqui é a obra de Nietzsche, A genealogia da moral, na qual nos irá ele identificar os pressupostos sobre os quais se fundamenta os seus valores filosóficos, pensamentos e ideias formulados sobre escravos e senhores, perspectivas a respeito de uma provável subversão dessas virtudes pelo fraco em detrimento do que é forte, em síntese: o que é bom e o que é mau, não é o bem nem é o mal, mas é o que foi distorcido para ser dessa maneira.
Como assim? De acordo com o filólogo, boas eram as virtudes do guerreiro, sendo valores que provinham da coragem, da audácia, da virilidade, da robustez e da resistência, contrariamente a inversão que se fez deles pelos fracos sacerdotes, que envenenaram com o seu ressentimento essas virtudes transformando elas em más, enfatizando que as mesmas deveriam ser perdidas, para a fraqueza ser com eles uma arma de domínio.
A casta sacerdotal não está muito distante da nossa classe política, ambas as categorias possuem coisas em comum, pois os políticos corruptos detestam a força do povo, capaz de tirá-los dos seus gabinetes, utilizando em seus discursos elementos que almejam limitá-la, eles vão longe ao dominar com seus ardis os mais apáticos, persuadindo que não deve nenhum deles rebelar-se. De fato a força assusta mesmo o fraco, que necessita utilizar outros recursos de maneira a não ser mais vítima dela, o que nos leva aos mecanismos do escravo mediante o seu senhor submetido. Em poucas palavras: a piedade dos fortes é o desejo e a força dos fracos.
Na atualidade, aqui e agora, nós visualizamos as relações de dominação na sociedade, especificamente nesta cidade: com as obras para a copa em andamento, muitas pessoas perderão as suas casas, o que trará muita revolta para todas as famílias, e as fará reivindicar os seus direitos garantidos pela constituição, que estão sendo violados. Com fome ou sem casa, uma coisa é certa: todos irão perder com isso se ficarem sem fazer alguma coisa, não respondendo à mesma altura aos detentores do poder, legitimará o povo os promotores da miséria.
Portanto, o que Nietzsche quer nos dizer, é que nós precisamos ser senhores de si mesmos, donas da nossa existência e das condições da mesma, pois é com autonomia que se conquista a liberdade, não é fugindo e se escondendo que nós vamos ser ouvidos, e é por isso que à força interior de cada um é necessário fazer parte do conjunto de valores que nós temos esquecido, para que assim nem sejam mais os dominados dominantes, nem sejam mais os dominantes dominados, sendo capazes todos nós de ter a força de ação para ser livres.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Hematografia
"Oh cólera! E que importa? Não há por hora vida o bastante nas veias do homem? Não borbulha a febre ainda nas ondas do vinho? Não reluz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?"
Álvares de Azevedo
Na obra de Nietzsche, Zarathustra aprecia a escrita que é feita com o sangue, afirmando que o sangue é a matéria do espírito, o que por consequência nos demonstra que o espírito, para Nietzsche - do mesmo modo que revela o seu profeta Zarathustra, quando em sua fala concebeu deus feito homem - possuia uma substância corporal, que nem o sangue em nossos corpos.
A escrita é um dos meios que existem para a disseminação da cultura ocorrer e o sangue é o veículo da peste, tanto para Artaud quanto na semiologia. Para Nietzsche, em Zarathustra, o leitor não é o foco da escrita, sendo escritor o que não faz nada por ele (pelo leitor), mas sim por si quando ele escreve. Suicidados da sociedade foram os filósofos malditos e Zarathustra é rechaçado pelo povo, que não o compreende e zomba dele, exigindo o seu retorno à solidão.
As excreções do escritor, ao longo da obra de Artaud, são tão importantes quanto o sangue para Nietzsche. Não são poucas as referências que o ator faz sobre elas. Constantes são as imagens de bubões efervescentes; frequentes são as efígies de feridas pestilentas; repetidos são os retratos de baba na sua obra; incansáveis são as menções ao sangue nas suas linhas; habituais são as figuras repulsivas de excremento; numerosas são as alusões à urina, ao suor e ao esperma, como por exemplo, em Heliógabalo.
O fluxo de sangue é o devir nos nossos corpos, não sendo eterno ele retorna até a morte, de sorte que para Nietzsche, este fluxo figura o eterno retorno. Na perspectiva do filósofo de Röcken, o sangue imprime as marcas da superação do tempo, sinais não esquecidos e portanto fixados, de maneira que em síntese é preciso sangrar muito, pois as hemáximas se coagulam nas memórias humanas, assim como seria inesquecível estar subindo um grande pico. As máximas dos hematógrafos, para Nietzsche em Zarathustra, são atalhos pelo caminho do processo de emancipação da humanidade em relação aos seus valores e costumes mais arcaicos.
O Marquês de Sade, durante as prisões e internamentos que consumiram 40 anos das suas seis décadas de vida, não hesitou em escrever - quando impedido pelos seus psiquiatras e reprimido pelos seus torturadores de o fazer - com o próprio sangue os pensamentos que mantinha enquanto preso: Sade é uma quebra da metáfora do sangue para Nietzsche, trazendo para a literalidade uma atitude transgressiva para com as velharias.
Os riscos se harmonizam com a suavidade e equilibram-se, enquanto o espírito os cumes mais altos transpassa; destemido e construindo hematomáximas ele prossegue e sorri dos fantasmas. Para Nietzsche, nós não sentimos igualmente as mesmas coisas e por isso é que o sangue não é fácil de inferir, de forma que muitas vezes, o escritor quando ortografa, ou o faz para si mesmo ou para todos, porém só alguns ele atinge - aqueles que são mais detidos ou mais ociosos.
O alto dos cumes é a superfície do céu e é por isso que Zarathustra, quando pretende se elevar, mergulha os olhos nas profundezas dos cimos, pois o homem é o sentido da terra, e Zarathustra é o verdugo do além-mundo, de modo que se volta para o mundo quando quer profundidade. De cima das montanhas não estamos sobre os homens? Por esse motivo o überomem vem do alto.
Para Zarathustra - assim escreveu Nietzsche - a sabedoria é a mulher dos guerreiros e, assim sendo, os quer livres do fardo pesaroso do niilismo, que só pode ser superado pela robustez, e não pela delicadeza aceitos como o peso sobre as costas dos jumentos e camelos. Na sua ótica, Zarathustra advoga que o amor existe pelo hábito que temos de amar, na vida porém não à própria vida, o que para ele se figura essencial se construir - caso contrário uma loucura assim seria. Nos fala o profeta, que nós temos a razão de amar a vida, assim como uma loucura de amar também na vida. Zarathustra nos quer livres para amar as nossas vidas.
Para Nietzsche, em Zarathustra, o espírito do sangue é leve e a nós não preocupa, diferente do espírito de peso, que é grave e nos atrasa pelo fato de pesar nas nossas vidas. O espírito da gravidade é o niilismo negativo que reduz a vida ao nada, e o espírito do sangue é a vontade de potência manifesta na vontade de viver.
A ausência desse pesar que o riso nos traz é a formula profética para banir o demônio nietzscheano do espírito de peso e, portanto, é assim que nos tornamos graciosos e insanos, capazes de voar por sobre os cumes das montanhas e correr para subi-las, dançando como deuses divertidos sobre a terra.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Politicultura
Longas garras de concreto
Sangram os céus
Das raízes para as folhas
Com os olhos de ultrassom
Escaneando as estruturas verticais
E quanto a jornada pelos vapores
Espaçonaves ao caminho estão unidas
Sobre os orbes e para as urbes
É insalubre essa pressa dos passos
Com termos escassos
Em mundos dispersos
Os dardos lançados
No centro dos discos
Estão ancorados
Na decoração que restou nesses versos
Reversos reveses
Por vezes inversos mas não adversos
Desejos distintos porém adjuntos
Conjunto universo:
Universo em conjunto!
São Paulo/SP
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Frias lástimas
Assolação do nordeste
As serras elevadas e os riachos correndo por
Entre espinhos e rosas
A janela do busão
Uma nuvem passageira de fora do busão
"A lembrança no branco de uma página"
E nas fendas pelo chão
Cai do céu as frias lástimas
Vitória da conquista/BA
As serras elevadas e os riachos correndo por
Entre espinhos e rosas
A janela do busão
Uma nuvem passageira de fora do busão
"A lembrança no branco de uma página"
E nas fendas pelo chão
Cai do céu as frias lástimas
Vitória da conquista/BA
quinta-feira, 3 de maio de 2012
A solidão em Augusto dos Anjos
Vinícius de Moraes, em parceria com Baden Powell, compôs, em 1966,
o disco “Afro-sambas”, do qual retiro uma questão bem afirmada, com a qual
darei start ao meu trabalho: quanta
tristeza cabe em uma solidão? Pensar como teve início e como foi
desenvolvida esta temática da solidão na poesia do paraibano Augusto dos Anjos,
consiste em desvendar um
labirinto de mistérios referente
à sua vida e para com a sua obra, pois o conceito se estende ao longo dela até
o fim, sendo importante distinguir o que foi obra e o que foi vida, aquilo que
foi obra da vida, e também o que da vida se fez obra, visto que o tema está
presente sempre em ambos os contextos. Voltarei as minhas lentes para a
dimensão estética da experiência literária do poeta, fazendo recortes
biográficos auxiliares à minha pesquisa, de modo que dessa maneira não faltem
detalhes esclarecedores a todos, bem como os devidos cuidados que são
necessários à compreensão desta obra.
Para Tom Zé, em “Estudando o samba”, numa canção chamada Só
(solidão), de 1976 – uma década depois de Baden Powell com Vinícius me fazerem
refletir a cerca disso atualmente –, “na vida quem perde o telhado, em troca
recebe as estrelas”. Ora, Augusto perdeu
o telhado na vida, sofreu pela morte do pai adorado, viu a derrocada da sua
família, ao filho morto dedicou o seu soneto, a fome veio ao seu estômago no
Rio de Janeiro, as saudades dos parentes aumentavam, o fracasso perseguia o seu
sucesso, desempregado advogado graduado, poucas vezes foi feliz como poeta, e
quando estável se fazia lecionando, em Leopoldina a morte veio ao bacharel
debilitado. Nesse caos terreno de oscilações constantes, inserido em um maelstrom de ambivalências existenciais
frequentes, muitas vezes o poeta do Pau D’ Arco quis rasgar as próprias vestes,
libertar-se do seu corpo, se tornar imperecível como os astros imortais na sua
luz, deliberando pela noite as suas queixas derradeiras.
Um aspecto importante da ênfase dada à solidão na poesia de
Augusto dos Anjos repousa sobre os monólogos da sua grande obra, nos e pelos
solilóquios do seu alfarrábio
selvagem, “Eu”, partindo do solipsismo hiperbólico de crassos devaneios
delirantes da linguagem propriamente original que concebeu a uma poética da criatividade melancólica engendrada pelo cânone. O seu único
livro – que de tão próprio se chama “Eu” – nos traz em seu começo, no poema de
abertura, um solilóquio, intitulado de “Monólogo de uma sombra”. Se a sombra
pressupõe um caminhante, a influência da obra de Nietzsche em Augusto dos Anjos
será importante e também evidente – pois o filósofo escreveu um dos seus livros
com o título de “O viajante e sua sombra”. Além do que, um soneto de outros
poemas esquecidos é dedicado ao pensador e, sendo assim, é manifesto que
Augusto o conheceu, mesmo tendo escrito em vigorosa oposição ao pensamento
intempestivo do filósofo germânico.
Na escala das linhas de "Eu", a solidão é capaz – quando adjunta
aos germes amórficos – de extrair das goelas caninas o ladrido sobre as suas
desoladas amplitudes. Continuamente, quando
a sina fazia o poeta teimar, apenas os bandidos pela noite nas tavernas,
enquanto arquitetavam seus delitos, escutavam suas falas sem destino,
compartilhadas pela sua voz interna. Em conexão com o contexto temático, o solitário só encontra o seu asilo
ao esconder-se atrás das lápides, na imobilidade da natura já sem vida, de
fronte para uma porta que não há quem tenha a chave. Segue-se ainda que, na
humildade da loucura, é a escolha do insano ficar só, sem dizer nada,
reconhecendo que possui limitações. Navegando pelos mares do oriente o
capitão está sozinho, em busca da Ilha
de Cipango. E qual é a companhia dos insones senão as sombras e a
própria isolação que traz a noite, as estrelas e quem sabe o plenilúnio, os
cometas e os passáros noturnos? A solidão é importante para os versos de
Augusto e ao longo do seu livro a encontramos muitas vezes.
O eu é
único e entre o nós está. O nós é composto por vários eus. São muitos, pois, os
eus de “Eu”. Único livro de Augusto dos Anjos, nós não podemos afirmar que essa
era a intenção que ele tinha. Por hora, detenhamo-nos aos fatos, e não às
hipóteses. O eu poético de Augusto – quando consideramos a temática angustiante
de estilo exacerbado nos seus versos – tem um caráter existencial e
expressionista. Poeta pouco ovacionado em sua vida de três décadas, o bacharel
em direito que saiu da Paraíba se tornou original, assimilando a modernidade e
delineando o parnasianismo com o cinzel do simbolismo. O que existe de Augusto
no seu livro é aquilo que nos livros existia para ele, ou seja: a imparcialidade
para com as emoções, o isolamento decorrente da distância, o sentimento de um
pessimismo trágico, a obsessão pela putrefação dos poetas malditos, o
afastamento de um mundo degradável e a consolidação de um monismo panteísta. Em
outras palavras, mesmo que muitos fatores de suma importância vital do poeta no
“Eu” se encontrem, também existem várias outras citações de referência
atribuídas a distintos outros eus na sua obra.
A noite
nasce quando o dia morre e as suas sombras nos trazem a perda da luz. É uma
morte natural a desta luz, como a da estrela que se apaga e que se transforma
em um buraco negro. Porém a luz não é capaz de ser notada sem a sombra.
Tampouco as trevas se permitem perceber sem claridade. Assim sendo, na poesia
de Augusto, a solidão que a noite traz é deprimente, até que o dia venha ela
parece ser eterna, trancando o eu poético na jaula aterradora dos seus monstros.
No vazio da cidade o pensador sozinho pensa, de modo que o maior dos seus
poemas tem início dessa forma: é independente das vozes do dia no mundo que a
prosódia de “Os doentes” é composta pela pena hematográfica de Augusto. Quanto
ao “Poeta do hediondo”, a estética grotesca que acompanha as poesias de “Eu”,
insere Augusto na seara dos horríveis, detestáveis e feiosos, o que, por
consequência, lhe torna um homem quase sempre solitário, pois dos feios, de
acordo com Bukowski, em A mulher mais
linda da cidade, só se aproxima quem sentir afinidade, e não quem for movido
a interesses, como aqueles que só vivem por renome ou por status.
Alceu Valença, em seu disco "Mágico", de 1984, retratou, tão magistralmente quanto Augusto, a solidão em uma canção de mesmo nome. Para ele, "A solidão é fera. A solidão devora". Para Augusto, "O homem, que, nesta terra miserável, mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera". Alceu continua e acentua o parentesco que existe entre o tempo e a própria solidão, afirmando que os relógios ela atrasa, causando dessa forma uma desordem no seu âmago. Não obstante, para Augusto dos Anjos, nas suas "Queixas noturnas", o coração é um "relógio trágico que marca todos os atos da tragédia humana". O compositor pernambucano se estende enquanto amplia o sentimento de estar só para as estrelas, para a lua, para a noite e para a rua. O que na obra de Augusto é o endereço "dos destinos desgraçados", onde as "tristezas de um quarto-minguante" se concretizam, deixando minguante no quarto quem só se lamenta.
Paulinho da Viola, no seu
disco “A dança da solidão”, de 1972, compôs uma canção homônima, para assim
vivenciar musicalmente estar sozinho. Na sua composição, ele nos mostra uma
resposta para a pergunta inicial outrora feita, e nos diz que a tristeza
estando em uma solidão é oriunda de uma desilusão. Augusto dos Anjos,
influenciado pelo budismo de Schopenhauer, não via o mundo com prazer, mas sim
com dor e com pesar, portanto se desiludiu. Além do que, não via ele a força
viva da justiça – pela qual tanto lutou na faculdade de direito, em Recife –,
prevalecer sobre os canalhas desse mundo, o conduzido a uma luta contra todos,
sem ter amparo, pela sua própria conta. Se
o Hércules tombou ou não no caos, é fato objetivo e concreto que os
mecanismos da sua poesia possuem a força de atravessar os séculos, de modo que
os convido a uma dança pelos ermos dos seus versos, posto que seja dançando que
nós expressamos de maneira vertical um sentimento horizontal, e a poesia em
suas linhas se exprime desse modo: vertical na estrutura, horizontal por entre
os versos.
Vinícius de Moraes, em parceria com Baden Powell, compôs, em 1966,
o disco “Afro-sambas”, do qual retiro uma questão bem afirmada, com a qual
darei start ao meu trabalho: quanta
tristeza cabe em uma solidão? Pensar como teve início e como foi
desenvolvida esta temática da solidão na poesia do paraibano Augusto dos Anjos,
consiste em desvendar um
labirinto de mistérios referente
à sua vida e para com a sua obra, pois o conceito se estende ao longo dela até
o fim, sendo importante distinguir o que foi obra e o que foi vida, aquilo que
foi obra da vida, e também o que da vida se fez obra, visto que o tema está
presente sempre em ambos os contextos. Voltarei as minhas lentes para a
dimensão estética da experiência literária do poeta, fazendo recortes
biográficos auxiliares à minha pesquisa, de modo que dessa maneira não faltem
detalhes esclarecedores a todos, bem como os devidos cuidados que são
necessários à compreensão desta obra.
Para Tom Zé, em “Estudando o samba”, numa canção chamada Só
(solidão), de 1976 – uma década depois de Baden Powell com Vinícius me fazerem
refletir a cerca disso atualmente –, “na vida quem perde o telhado, em troca
recebe as estrelas”. Ora, Augusto perdeu
o telhado na vida, sofreu pela morte do pai adorado, viu a derrocada da sua
família, ao filho morto dedicou o seu soneto, a fome veio ao seu estômago no
Rio de Janeiro, as saudades dos parentes aumentavam, o fracasso perseguia o seu
sucesso, desempregado advogado graduado, poucas vezes foi feliz como poeta, e
quando estável se fazia lecionando, em Leopoldina a morte veio ao bacharel
debilitado. Nesse caos terreno de oscilações constantes, inserido em um maelstrom de ambivalências existenciais
frequentes, muitas vezes o poeta do Pau D’ Arco quis rasgar as próprias vestes,
libertar-se do seu corpo, se tornar imperecível como os astros imortais na sua
luz, deliberando pela noite as suas queixas derradeiras.
Um aspecto importante da ênfase dada à solidão na poesia de
Augusto dos Anjos repousa sobre os monólogos da sua grande obra, nos e pelos
solilóquios do seu alfarrábio
selvagem, “Eu”, partindo do solipsismo hiperbólico de crassos devaneios
delirantes da linguagem propriamente original que concebeu a uma poética da criatividade melancólica engendrada pelo cânone. O seu único
livro – que de tão próprio se chama “Eu” – nos traz em seu começo, no poema de
abertura, um solilóquio, intitulado de “Monólogo de uma sombra”. Se a sombra
pressupõe um caminhante, a influência da obra de Nietzsche em Augusto dos Anjos
será importante e também evidente – pois o filósofo escreveu um dos seus livros
com o título de “O viajante e sua sombra”. Além do que, um soneto de outros
poemas esquecidos é dedicado ao pensador e, sendo assim, é manifesto que
Augusto o conheceu, mesmo tendo escrito em vigorosa oposição ao pensamento
intempestivo do filósofo germânico.
Na escala das linhas de "Eu", a solidão é capaz – quando adjunta aos germes amórficos – de extrair das goelas caninas o ladrido sobre as suas desoladas amplitudes. Continuamente, quando a sina fazia o poeta teimar, apenas os bandidos pela noite nas tavernas, enquanto arquitetavam seus delitos, escutavam suas falas sem destino, compartilhadas pela sua voz interna. Em conexão com o contexto temático, o solitário só encontra o seu asilo ao esconder-se atrás das lápides, na imobilidade da natura já sem vida, de fronte para uma porta que não há quem tenha a chave. Segue-se ainda que, na humildade da loucura, é a escolha do insano ficar só, sem dizer nada, reconhecendo que possui limitações. Navegando pelos mares do oriente o capitão está sozinho, em busca da Ilha de Cipango. E qual é a companhia dos insones senão as sombras e a própria isolação que traz a noite, as estrelas e quem sabe o plenilúnio, os cometas e os passáros noturnos? A solidão é importante para os versos de Augusto e ao longo do seu livro a encontramos muitas vezes.
O eu é
único e entre o nós está. O nós é composto por vários eus. São muitos, pois, os
eus de “Eu”. Único livro de Augusto dos Anjos, nós não podemos afirmar que essa
era a intenção que ele tinha. Por hora, detenhamo-nos aos fatos, e não às
hipóteses. O eu poético de Augusto – quando consideramos a temática angustiante
de estilo exacerbado nos seus versos – tem um caráter existencial e
expressionista. Poeta pouco ovacionado em sua vida de três décadas, o bacharel
em direito que saiu da Paraíba se tornou original, assimilando a modernidade e
delineando o parnasianismo com o cinzel do simbolismo. O que existe de Augusto
no seu livro é aquilo que nos livros existia para ele, ou seja: a imparcialidade
para com as emoções, o isolamento decorrente da distância, o sentimento de um
pessimismo trágico, a obsessão pela putrefação dos poetas malditos, o
afastamento de um mundo degradável e a consolidação de um monismo panteísta. Em
outras palavras, mesmo que muitos fatores de suma importância vital do poeta no
“Eu” se encontrem, também existem várias outras citações de referência
atribuídas a distintos outros eus na sua obra.
A noite nasce quando o dia morre e as suas sombras nos trazem a perda da luz. É uma morte natural a desta luz, como a da estrela que se apaga e que se transforma em um buraco negro. Porém a luz não é capaz de ser notada sem a sombra. Tampouco as trevas se permitem perceber sem claridade. Assim sendo, na poesia de Augusto, a solidão que a noite traz é deprimente, até que o dia venha ela parece ser eterna, trancando o eu poético na jaula aterradora dos seus monstros. No vazio da cidade o pensador sozinho pensa, de modo que o maior dos seus poemas tem início dessa forma: é independente das vozes do dia no mundo que a prosódia de “Os doentes” é composta pela pena hematográfica de Augusto. Quanto ao “Poeta do hediondo”, a estética grotesca que acompanha as poesias de “Eu”, insere Augusto na seara dos horríveis, detestáveis e feiosos, o que, por consequência, lhe torna um homem quase sempre solitário, pois dos feios, de acordo com Bukowski, em A mulher mais linda da cidade, só se aproxima quem sentir afinidade, e não quem for movido a interesses, como aqueles que só vivem por renome ou por status.
Alceu Valença, em seu disco "Mágico", de 1984, retratou, tão magistralmente quanto Augusto, a solidão em uma canção de mesmo nome. Para ele, "A solidão é fera. A solidão devora". Para Augusto, "O homem, que, nesta terra miserável, mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera". Alceu continua e acentua o parentesco que existe entre o tempo e a própria solidão, afirmando que os relógios ela atrasa, causando dessa forma uma desordem no seu âmago. Não obstante, para Augusto dos Anjos, nas suas "Queixas noturnas", o coração é um "relógio trágico que marca todos os atos da tragédia humana". O compositor pernambucano se estende enquanto amplia o sentimento de estar só para as estrelas, para a lua, para a noite e para a rua. O que na obra de Augusto é o endereço "dos destinos desgraçados", onde as "tristezas de um quarto-minguante" se concretizam, deixando minguante no quarto quem só se lamenta.
Paulinho da Viola, no seu disco “A dança da solidão”, de 1972, compôs uma canção homônima, para assim vivenciar musicalmente estar sozinho. Na sua composição, ele nos mostra uma resposta para a pergunta inicial outrora feita, e nos diz que a tristeza estando em uma solidão é oriunda de uma desilusão. Augusto dos Anjos, influenciado pelo budismo de Schopenhauer, não via o mundo com prazer, mas sim com dor e com pesar, portanto se desiludiu. Além do que, não via ele a força viva da justiça – pela qual tanto lutou na faculdade de direito, em Recife –, prevalecer sobre os canalhas desse mundo, o conduzido a uma luta contra todos, sem ter amparo, pela sua própria conta. Se o Hércules tombou ou não no caos, é fato objetivo e concreto que os mecanismos da sua poesia possuem a força de atravessar os séculos, de modo que os convido a uma dança pelos ermos dos seus versos, posto que seja dançando que nós expressamos de maneira vertical um sentimento horizontal, e a poesia em suas linhas se exprime desse modo: vertical na estrutura, horizontal por entre os versos.
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