quinta-feira, 26 de abril de 2012

Contribuições ao Distúrbio eletrônico



1868/1869

Je suis sale. Les poux me rongent. Les pourceaux, quand ils me regardent, vomissent. Les croûtes et les escarres de la lèpre ont écaillé ma peau, couverte de pus jaunâtre. Je ne connais pas l'eau des fleuves, ni la rosée des nuages. Sur ma nuque, comme sur un fumier, pousse un énorme champignon, aux pédoncules ombellifères. Assis sur un meuble informe, je n'ai pas bougé mes membres depuis quatre siècles. Mes pieds ont pris racine dans le sol et composent, jusqu'à mon ventre, une sorte de végétation vivace, remplie d'ignobles parasites, qui ne dérive pas encore de la plante, et qui n'est plus de la chair. Cependant mon coeur bat.

Estou sujo. Os piolhos me roem. Os porcos, quando olham para mim, vomitam. As crostas e os escarros da lepra escamaram a minha pele, coberta de um pus amarelado. Não conheço a água dos rios nem o orvalho das nuvens. Na minha nuca, como que sobre um monte de esterco, cresce um enorme cogumelo, com seus pendúnculos umbelíferos. Sentado em um móvel disforme, faz quatro séculos que não mexo os meus membros. Meus pés fixaram raízes no chão e formam, até a altura do meu ventre, uma espécie de vegetação viva, repleta de ignóbeis parasitas, que ainda não derivam da planta, embora não seja mais carne. Todavia, meu coração bate.

2012
Estou só. Minhas pálpebras doem. Os livros, quando os tomo da estante, falam. As horas de trabalho mental me esgotam quando fico atordoado. Não conheço os prazeres das festas nem os carinhos humanos. Nas gavetas e nos móveis, assim como pelo meu quarto, proliferam as teorias, com as suas contradições. Sentado estou na minha escrivaninha, dormindo sobre as pilhas de papéis estou ficando curvado. Digito com tamanha obsessão, que componho toda a decomposição, trazendo para o mundo o que devia ser banido, de sorte que doravante a minha voz é absurda. Apesar de tudo, essa jornada não termina.

O problema mente-cérebro para Jerry Fodor


 A filosofia da ciência tem descrito as práticas efetivas dos cientistas atualmente, sem interesse por conduzir os argumentos e as investigações, contribuindo com a quantificação dos fundamentos e práticas da boa ciência. A psicologia – não faz muito tempo – se tornou de interesse para esses pensadores, visto que esta explica os processos e os estados mentais. 

Fodor divide as teorias da mente em duas categorias diferentes. São elas: as dualistas e as materialistas. Os dualistas postulam que a mente não é uma substância física. Os materialistas determinam que o mental não seja diferente do físico. Os behavioristas querem reduzir as causações do mental aos estímulos e respostas. Os teóricos da identidade associam a causação aos estados neurofisiológicos no cérebro. Os behavioristas e os teóricos da identidade são materialistas. 

O funcionalismo surgiu como uma nova teoria que não é nem dualista e nem é materialista. Essa teoria aborda discussões em torno da cibernética, da lingüística, da psicologia, da inteligência artificial e da teoria computacional. O funcionalismo aceita, ou pelo menos reconhece, a possibilidade de máquinas terem estados mentais, assim como os espíritos desencarnados também, incluindo aqui os próprios homens. O funcionalismo pretende substituir as deficiências das duas teorias precedentes.

O dualismo não explica eficazmente a causação mental. O que é físico não pode ser não-físico. Até o momento não se conseguiu demonstrar como a causação mente-corpo não pode ser não-física. Aos estudos da mente, os psicólogos aplicam os processos das ciências físicas para entender os processos mentais. Se esses processos não fossem parecidos com os estados mentais, não se poderia entendê-los por esse sistema. O behaviorista radical dispensa referência às causas mentais. 

O behaviorismo lógico considera a relação semântica do se então como a base justificativa da causação mental. Nessa perspectiva, se corresponderia ao estímulo e então corresponderia à resposta. O behaviorismo lógico é materialista. As disposições comportamentais elaboram as condições mentais. Para esses teóricos, os termos mentais são expressos sempre de acordo com os hipotéticos comportamentais, o que nos fornece uma explicação materialista da causação mental. 

O behaviorismo lógico não consegue explicar psicologicamente como os estados mentais funcionam ao serem produtos um do outro. Os lógicos do behaviorismo reconhecem a existência de estados mentais, diferente dos behavioristas radicais. Nessa perspectiva, o behaviorismo lógico é uma versão semântica do behaviorismo radical. O behaviorista lógico e o radical não acreditam nas causas mentais. 

A teoria da identidade postula que os estados mentais são equivalentes aos eventos neurofisiológicos no cérebro, sendo que se está em algum estado mental em questão, parte-se dele para outro que é neurofisiológico. Os teóricos da identidade aceitam que as causas mentais não ocasionam sempre eventos físicos e explicam o comportamento através dessas causas. A teoria da identidade não é uma teoria semântica. A teoria da identidade concentra as suas diretrizes investigativas nos particulares mentais.

Outra doutrina complementar existente que se divide em outras duas é a do fiscalismo, podendo este ser de eventos ou de tipos. O primeiro advoga que os particulares mentais que até agora existem são decorrentes dos estados neurofisiológicos no cérebro. O segundo defende que todos os particulares mentais, existentes ou ainda por vir, são neurofisiológicos. O fiscalismo de eventos compreende a possibilidade das máquinas e dos espíritos desencarnados possuírem propriedades mentais. O fiscalismo de tipos argumenta que pelo fato de as máquinas, bem como os espíritos, não possuírem neurônios, nenhum destes pode ter propriedades desse tipo. O fiscalismo de eventos, sobre os particulares mentais, está correto. O fiscalismo de tipos, sobre as propriedades mentais, está errado. Para o fiscalismo de tipos, a constituição psicológica depende de um programa, e não de um corpo.

Diferente do behaviorista lógico, o teórico da identidade estava certo no que diz respeito ao caráter relacional mente-corpo. Diferente do teórico da identidade, o behaviorista lógico estava certo quanto ao caráter relacional existente entre os estados mentais. O funcionalismo concilia esse paradoxo quando, com efeito, afirma a distinção feita pela ciência da computação entre o hardware e o software. Assim, o funcionalista compreende tanto o caráter causal quanto o caráter relacional do mental. 

Para o funcionalista, os estados mentais possuem relações causais com outros estados mentais, o que não o torna uma tese reducionista e nem o aproxima do behaviorismo lógico. O funcionalismo é compatível com o fiscalismo de eventos, e nesse detalhe existe a grande diferença entre ele e o behaviorismo lógico. Para os funcionalistas, os particulares mentais podem ter causação física, o que significa que os estados mentais existem com base nessa causação. A solução materialista para o problema mente-corpo que a teoria da identidade nos fornece é aceita pelos funcionalistas. Assim sendo, o funcionalismo carrega as melhores alternativas de escolha entre o dualismo e o materialismo. Ainda para os funcionalistas, as máquinas representam muito bem as suas idéias principais: a interdefinição dos estados mentais e a sua execução por variados sistemas.

A mente é um aparelho que interpreta símbolos. O funcionalismo não se limita a estados e processos mentais. As máquinas e os ministros são conceitos definidos, ambos possuem as suas funções, mas não são estados. Para a filosofia da mente os estados mentais são definidos pelo seu conteúdo qualitativo e intencional. Para que um estado mental seja consciente, é necessário que possua o conteúdo qualitativo. Ao afirmarmos que os estados mentais possuem um conteúdo intencional nós estamos dizendo que eles possuem propriedades semânticas, assim como as crenças. Além dos estados mentais possuírem estados intencionais, os símbolos também possuem, pois estes se referem às coisas. Os símbolos mentais possuem propriedades semânticas. As crenças se relacionam com símbolos mentais. Portanto as crenças possuem propriedades semânticas.


Sem a representação, a computação não existe. O computador é uma máquina que interpreta símbolos. Essa abordagem representacional da mente precede a invenção do computador, sendo discutida na epistemologia por filósofos como Hume, Descartes, Kant, Mill, James, Locke e Berkeley. 

A teoria desenvolvida por Hume para representar os estados representacionais da mente dividia-se em cinco pontos. Primeiro que para ele as idéias eram símbolos mentais. Segundo que para Hume as crenças que temos envolvem idéias. Terceiro que na sua perspectiva os processos mentais são idéias se relacionando causalmente. Quarto que de acordo com ele essas idéias são imagens. E Quinto que para ele as idéias possuem propriedades semânticas relacionadas com aquilo que representam.

Para as teorias da computação, os processos mentais não são apenas associações de idéias. Como os pensamentos se relacionam com os fatos? A teoria das propriedades semânticas deveria explicar isso. Existe uma conexão entre o funcionalismo e a teoria representacional da mente, mediada por uma condição suficiente entre os termos causais e as propriedades semânticas. É uma aspiração da psicologia moderna a sustentação recíproca dessas teorias.

Até o momento, a filosofia da mente não está apta a dizer exatamente como se relacionam as representações mentais com as propriedades semânticas em termos funcionais. Para os funcionalistas, existem três tipos de relações entre estados mentais: entre eles e estímulos, entre eles e respostas, e entre eles com eles. As crenças são efeitos de estímulos e são também causas normais dos efeitos do comportamento, bem como são as crenças efeitos naturais de outras crenças.

Axiomas ululantes


A verdade não se segue da mentira

A dor não se segue do prazer

A divergência não se segue da convergência

A inconsequência não se segue da consciência

A decadência não se segue da ascendência

A incompetência não se segue da competência

A honestidade não se segue da corrupção

A ditadura não se segue da revolução

A rebeldia não se segue da convenção

A saúde não se segue da doença

A diferença não se segue da igualdade

A miséria não se segue da fartura

A redenção não se segue da perdição

A humildade não se segue da soberba

A vitória não se segue da derrota

A tragédia não se segue da comédia

A bondade não se segue da maldade

A vida não se segue da morte

A tristeza não se segue da alegria

A liberdade não se segue da prisão

A base não se segue da estrutura

A anarquia não se segue do fascismo

O velho não se segue do novo

O passado não se segue do futuro

O errado não se segue do correto

O abstrato não se segue do concreto

O justo não se segue do injusto

O ódio não se segue do amor

O governo não se segue do governante

O preconceito não se segue do conceito

O cansaço não se segue do descanso

O fogo não se segue da fumaça

O ser não se segue do nada

Tudo isso não se segue disso tudo?


quarta-feira, 25 de abril de 2012

"Podem as máquinas pensar?" Computação e inteligência para Turing


A idéia central do trabalho de Turing está concentrada em cogitar a possibilidade de as máquinas pensarem. No entanto, para escapar do absurdo, Turing recorre ao jogo da imitação para melhor nos definir essa questão. O jogo é feito de perguntas e respostas, através das quais conjectura-se, poder ou não, responderem as máquinas certas questões. Compreender esse problema, para Turing, é entender por analisar criteriosamente as capacidades mentais e também corporais que nós temos, em comparação com os construtos cibernéticos.

Para que uma máquina pense, não é necessário encobri-la de peles e dar órgãos semelhantes aos dos homens para ela, pois, antes de mais tudo, a mente é a condição do pensamento pelo menos para os homens – o que seria para esta a mesma coisa se assim fosse essencial ela pensar. As perguntas e as respostas fazem parte das diversas – senão logo de todas – formas de interação humana. Nenhum homem pode fingir ser uma máquina e as máquinas não podem imitar perfeitamente qualquer homem. No entanto, nas suas especificidades, como contar e calcular, as máquinas são muito mais precisas que os homens.

É improvável que as máquinas imitem o comportamento do homem no jogo, mas não é impossível com ponto final. É evidente e lógico, para Turing e para todos, que as máquinas não são de carne e osso, podendo ser aperfeiçoadas constantemente pelos engenheiros e pelos especialistas cibernéticos. O computador digital foi o percussor do interesse despertado pelas “máquinas pensantes”. Turing questiona se existem computadores digitais que sejam capazes de jogar sem ter problemas com o jogo, pois ele quer imaginar que assim seja. Na verdade, o que ele pretende, é comparar o desempenho nessa atividade, realizada tanto pelo computador digital quanto pelo humano.

De acordo com ele, as partes mais importantes para a constituição de um computador digital são: a memória, a unidade executiva e o controle. Na memória estão contidas as informações. As operações individuais são realizadas com o recurso da unidade executiva. E o controle, verifica se as instruções recebidas foram devidamente seguidas. A informação armazenada na memória é corretamente aproximadamente as ações dos computadores humanos. Os computadores humanos são autônomos quanto àquilo que for referente à programação, ao passo que os computadores digitais não o são. O efeito aleatório de movimento em uma máquina proporciona uma vaga idéia de livre arbítrio para os observadores das ações executadas pela mesma.

Se as memórias dos computadores digitais são limitadas, então as ações que pretendem serão, pois, restritas. Para que um computador possua uma capacidade infinita de ações, é necessário que seja sempre atualizado, posto que dessa maneira os seus dados sejam inovados, e assim não serão mais os mesmos mudados. Babbage passou onze anos da sua vida tentando construir a sua máquina e nada conseguiu – pelo menos não da forma que queria. Se os sistemas digitais são elétricos, assim como o nosso sistema nervoso, não é possível para as máquinas mecânicas imitá-lo. Alguns computadores digitais reproduzem as atividades das máquinas de estado discreto, quando passam subitamente de um estado para o outro. Todavia, verdadeiras máquinas efetivas agem continuamente.

As máquinas simples de estado discreto podem ter os seus movimentos previstos, como no caso dos interruptores. As máquinas de estado discreto possuem um número finito e previsível de estados possíveis. Quando as máquinas se unem, as capacidades gerais de ambas as máquinas unidas são compartilhadas e aumentam. Os computadores digitais são equivalentes pela sua utilidade. Os processos de computação podem ser concluídos pelos computadores digitais e, sendo estes capazes de imitarem as máquinas de estado discreto, são máquinas universais por excelência digital.

Contudo e com tudo, para o futuro, Turing não descartou a hipótese de as máquinas serem aperfeiçoadas a ponto de poderem jogar bem o jogo da imitação – porém não tão perfeitamente quanto se esperaria. Enquanto não considerava relevante perguntar se as máquinas podem pensar, Turing concebeu que para o final do seu século isso poderia ocorrer. Contra tanto, existem nove importantes argumentos que se objetam ao caráter dessa perspectiva teórica de Turing, diante dos quais ele advoga o que defende, e são eles: a objeção teológica, a objeção das “cabeças na areia”, a objeção matemática, o argumento da consciência, o argumento das várias incapacidades, a objeção de Lady Lovelace, o argumento da continuidade do sistema nervoso, o argumento da informalidade do comportamento e o argumento da percepção extra-sensorial.

A teologia se opõe à cibernética quando tenta argumentar que as almas dos homens são a condição do seu pensamento e que por isso, como deus não deu alma para mais ninguém além do homem, ninguém além de deus pode dar almas para alguém. Assim, as máquinas não podem pensar, e se puderem, somente será se assim deus quiser, ou seja, nunca. É ululante que este argumento é um dos mais ultrapassados.

Desde Bacon, conhecer é poder, e é com base nesse argumento que se fundamenta a segunda objeção ao pensamento cibernético. Para os partidários dessa ideologia, as máquinas poderiam se rebelar contra os seus criadores e, por conseqüência, acabar lhes superando e exigindo o seu domínio sobre eles como espólios da conquista dos humanos dominados que não querem por em risco o seu poder sobre as espécies na cadeia predatória. Conforme Turing, da mesma forma que essa teoria está para a prática, está uma ficção para a realidade no cotidiano.

Para os matemáticos, o teorema de Gödel demonstra que alguns enunciados não carecem de demonstrações para que sejam considerados consistentes para a lógica, de forma que para as máquinas disporem de meios para se expressarem em termos de sistemas lógicos, será necessário também que os sistemas lógicos sejam capazes de serem descritos em termos de máquinas, e vice-versa, de modo que isso implica na existência de coisas que as máquinas não serão capazes de realizar, o que não quer dizer que outras máquinas não sejam. Esse argumento demonstra que, mediante o intelecto humano, algumas máquinas são incapazes de ser como ele. No entanto, não podemos nos sentir superiores porque não nos copiaram, pois somos falhos em aspectos diversos.

O argumento da consciência postula que as máquinas não são capazes de ter noção do que estão fazendo, pois são programadas para procederem como prosseguem nas suas funções, sem questionar ou saberem os porquês de estarem agindo, apenas fazendo e seguindo o que foi ordenado. Para os defensores desse ponto de vista, as máquinas não se aborrecem, não sentem, não choram, não comemoram, não amam, não gozam, não querem, não riem, não nada. Nessa perspectiva, a única exceção de consciência numa máquina, é quando o homem for de fato a própria máquina, visto que todo mundo pensa.

O argumento das múltiplas incapacidades se assemelha muito à objeção da consciência. Nele se explana que as máquinas que forem construídas estarão limitadas a serem sempre como máquinas, ou seja, estarão presas às próprias funções. Não farão amizades, não escreverão romances, não saborearão pratos exóticos, não se apaixonarão, não aprenderão com os erros, não pensarão por conta própria e de modos variados, não terão senso de humor e muitas coisas não terão. Dizer isso significa afirmar que a capacidade de memória dessas máquinas é baixa.

Lady Lovelace se opõe às capacidades das máquinas argumentando que se as mesmas não possuem – ao serem criadas – a intenção de produzir o que quer que seja o aprendizado para elas não será condicionado. A condessa afirma que as máquinas não podem nos mostrar nada de novo, ou seja, não podem realizar por conta própria alguma ação inovadora que não seja antes prevista. Surpreender significa demonstrar algum ato mental criativo. Isso quer dizer, que para Lovelace, as máquinas jamais nos surpreendem – o que para Turing é muito improvável.


O sistema nervoso, pela sua complexidade, não pode ser comparado a uma máquina de estado discreto porque é contínuo. Podemos prever que se uma lâmpada está acesa e nós apertarmos o interruptor ela irá apagar. Da mesma forma, se uma lâmpada está apagada e nós apertamos o interruptor, então ela irá acender. Isso é uma máquina de estado discreto em ação. Em contrapartida, não podemos anteceder para escapar das intenções nefastas de um psicopata que nos espreita. Isso porque o sistema nervoso é tão imprevisível quanto os próprios psicopatas.


O comportamento informal não nos permite sermos máquinas, pois não possuímos um conjunto de regras que seguimos para todas as circunstâncias que se apresentam. As leis ou regras ou normas de comportamento mecanizam os seres humanos e por isso devem ser consideradas como fados para serem dispensados. De acordo com a existência dessas leis, os comportamentos maquinais poderão mui facilmente ser previstos sem problema – o que nos deixa vulneráveis quanto a nossa discrição, pois muitas máquinas simplórias são também imprevisíveis tendo poucos movimentos.

A percepção extra-sensorial é dividida em quatro categorias: a clarividência, a pré-cognição, a psicocinética e a telepatia. A existência catalogada desses fenômenos é de muita relevância. Isso significa que muitos dos estados mentais que nós temos, podemos prever entre nós todos eles. De acordo com Turing, se as máquinas puderem assumir esses estados, estarão muito mais próximas dos seres humanos – o que é fruto do futuro.

Para Turing, se quisermos produzir máquinas capazes de imitar comportamentos humanos, deveremos fazer com que no seu programa elas reproduzam os caprichos das crianças, pois é muito mais fácil para todos assim proceder, posto que as crianças sejam menos complexas em termos de movimentos do que os adultos, como se fossem um papel em branco esperando a caneta. Nesse contexto, considerando o processo de educação e a receptividade de um programa infantil, pode-se tentar ensinar essa máquina a ser como a gente. Máquinas capazes de pensar seria um salto quantitativo de amplas proporções na teoria da evolução. A comunicação entre as máquinas, de qualquer modo, poderia ser limitada pelo seu próprio programa e, por conseqüência, as informações obtidas pelo ensino poderiam ser limitadas.

Para mim tornou-se possível poder imaginar que as máquinas possam pensar e também imitar no futuro o que somos. De acordo com Turing, as máquinas são subcríticas e não críticas, pois só agem de acordo com o que designamos. As mentes humanas são super críticas, pois as idéias únicas que tem, são seguidas de outras idéias ou muitos momentos diversos da mesma primeira. Estudos recentes comprovam que existem partes artificiais neurais cerebrais sendo testadas com sucesso e isto significa que poderá ser possível que a mente humana seja substituída aos poucos por um cérebro cibernético, de modo a tornar-se tão efetiva quanto o mesmo. E se o cérebro, que é o mais complexo de todos os orgãos que temos puder ser substituído, o que dizer dos outros orgãos que nós temos? Nessa prospectiva, a ficção lúdica dos cyberpunks é possível: perderemos aos poucos a nossa humanidade e nos tornaremos ciborgues, colonizaremos os planetas no espaço sideral pela falta de lugares na terra, como os andróides em combate desbravando o universo e andaremos para a imortalidade pelo menos no contexto de não mais apodrecer com esse corpo que nós temos. 
 

 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Meditações metafísicas (II & VI)


A segunda meditação cartesiana trata da maior facilidade que se tem através do método para se conhecer as faculdades do espírito do que aquilo que é próprio do corpo. Não é por acaso que a meditação discutida é intitulada “Da natureza do espírito humano; e de como ele é mais fácil de conhecer do que o corpo”. Para encontrar algo que não seja duvidoso, ou seja, verdadeiro, Descartes duvidará de tudo aquilo que se por na sua frente, pois através das dúvidas constantes, ele pretende ir ao encontro da certeza permanente. 

Para Descartes, a certeza ela é indubitável e, por conseguinte, verdadeira e sem mentiras, ela é certa e verdadeira. A dúvida cartesiana é abrangente e se amplia sobre todas as esferas do possível. Todavia, o verdadeiro para Descartes é o provável. No seu raciocínio, espírito para ele é o pensamento, é o entendimento, a razão, a compreensão e é também a consciência. Sobre a natureza do espírito é possível afirmar que ele existe, bem como nós podemos definir o que é ele. A primeira certeza alcançada na meditação - da qual suas outras se seguem - é a certeza de penser (pensar e ser), ou seja, é a certeza de existir, quer dizer, é através do pensamento que se pode ter certeza sobre aquilo que se é, mas só enquanto se pensar que ser assim é existir.

Enquanto nós pensarmos que somos alguma coisa, seremos alguma coisa enquanto nós pensarmos – segundo Descartes. Os pensamentos, para ele, originavam-se no seu espírito por ímpeto da própria natureza. Na perspectiva do seu pensamento, as expressões em ação nos nossos corpos refletem os desejos na nossa alma que, para ele, não tem uma forma concreta, palpável e táctil, sendo, para a imaginação do pensador, uma névoa sutil, distribuída pelas partes do nosso corpo para fortificá-lo, para vitalizá-lo, para fortalecê-lo e para vivificá-lo. 

Para aquele que discutiu o método, o corpo seria não só tudo aquilo que por uma figura fosse limitado, mas também seria o corpo qualquer coisa que ocupasse algum espaço nos lugares (ou algum lugar no espaço), e ainda ele seria o nosso meio de habitar e existir no mundo externo da objetividade. O corpo, nas Meditações metafísicas, é o senso que nós temos do mundo, ao passo que as escolhas e as expressões, a liberdade e as suas restrições, são as características da alma. 

O Eu, na filosofia cartesiana, não é corporal, porém habita os nossos corpos, de modo que a experiência da alma é a vida no corpo, visto que sem a alma o corpo não sente e sem o desejo desta de saciar alguma fome, o corpo não come. Para Descartes, o pensamento é o sustentáculo do espírito. Pensar, de acordo com aquele que medita, é existir no momento em que se pensa, pois quando nós pensamos, segundo ele, nós ativamos o espírito, a razão e o entendimento de si mesmos.

Para Descartes, as sensações são aparentes, ou seja, é possível que as mesmas sejam falsas e, sendo ele um filósofo da consciência, procura também saber o que ele está e aonde ele é, ou melhor, o que ele é e onde ele está. Na sua perspectiva, a imaginação não se compara ao pensamento, pois este faz parte da natureza do espírito, de modo que aquela está ligada mais à alma, ou seja, o pensamento se distingue dos corpos e da imaginação. As qualidades do espírito fluem pela alma e influem sobre os corpos. René é racionalista.

A sexta meditação cartesiana almeja demonstrar a possibilidade de existência das coisas materiais e também distinguir a alma do corpo do homem. Para Descartes, as coisas verdadeiras são claras e distintas e por isso, como a geometria tem essa capacidade – esclarecer e distinguir – demonstrativa de expor as coisas ao nosso redor claramente, será através dos seus postulados e dos seus teoremas que ele alcança uma prova de que existem objetos nesse mundo e que são  muito distintos. A imaginação, no pensamento cartesiano, está sempre junto do corpo e, por conseqüência, existe, assim como ele. 

Com notas de rodapé tão esclarecedoras quanto o método, a filosofia cartesiana se desenvolve através das linhas consagradas que consolidaram as Meditações metafísicas. Para Descartes, o pensamento constitui a essência do homem. A sensação e a imaginação precisam estar ligadas ao ente que pensa para auxiliá-lo na compreensão da totalidade das coisas do mundo. Assim, o seu pensamento que é livre, precisa de um corpo para estar acontecendo. A imaginação contém o espírito nos corpos e o pensamento liberta nos corpos o espírito. 

Segundo Descartes, as idéias não são produzidas pelas coisas corpóreas, mas são reproduzidas pelos atos do corpo. Ele entendeu a Deus como um grande arquiteto do universo, que inferiu, de acordo com as suas medidas exatas, aquilo que nós conhecemos no mundo e que sentimos também na matéria da própria natureza. Quando concebeu que existíamos enquanto pensávamos, René quis nos dizer que existíamos conforme o pensamento, e que o Eu não é o corpo, mas a mente que por si comanda o corpo. A análise sensorial das experiências que temos na vida é deveras duvidosa. Não podemos entender exatamente, através dos sentidos, as substâncias externas que nós vemos sobre o mundo. A natureza finita do homem limita as certezas do entendimento. 

Quando conhecemos o espírito que temos, bem como os pensamentos que mantemos, nos desviamos das aparências sensoriais que aparecem e aproximamos a verdade de nós mesmos, embora as coisas materiais também existam e não possam ser negadas. Pensamos que percebemos o que sentimos, não sentimos o que percebemos que pensamos. Grosso modo, para Descartes, apenas a razão é confiável  porque nos oferece o caminho seguro de se conhecer.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Libertários liberticidas

Libertários Liberticidas
Causam segregações
Usam as suas cartilhas
Para exercer coerções

Libertários Liberticidas
Desejam ter liberdade
Desrespeitando a do outro
Tiram-lhe a privacidade

Libertários Liberticidas
Querem propriedades
Sequer sem saber que esta
Causa as desigualdades


Libertários Liberticidas
Presos a hierarquia
Agem como fascistas
Pisam na anarquia

Libertários Liberticidas
Sérios e executores
O riso é revolucionário
Não sejam como os ditadores

Libertários Liberticidas
Aceitam a liderança
Julgam-se autoridades
Desses quero distância!

terça-feira, 17 de abril de 2012

A maldição dos animais nocivos

Pelos sapos com as suas toxinas

Pelos carrapatos ávidos de sangue

Pelos tentáculos da Água-viva mortal

Pelos anéis atraentes do polvo azulado

Pelos piolhos que devoram as secreções

Pelos cupins matando a fome nos caixões

Pelos espinhos necrosantes do Peixe-pedra

Pelos ratos que transmitem doenças mortais


Pelas formigas que facilitam as infecções nos hospitais

Pelas lagartas que exterminam as plantações

Pelas moscas atraídas pela decomposição

Pelas pulgas que transportam parasitas

Pelas presas das Aranhas armadeiras

Pelas baratas patogênicas das fossas


Pela peçonha das serpentes mais nefastas

Pela ferocidade das abelhas transtornadas

Pela mordida dos morcegos hematófagos

Pela ferroada dos escorpiões assassinos

Pela polifagia insaciável dos gafanhotos


Pelo apetite antropofágico dos escaravelhos

Pelo aguilhão das vespas atormentadas

Pelo destino esconjurado dos Candirus

Pelo veneno do Caramujo de mármore


[...]

sábado, 14 de abril de 2012

Higienópolis

O reflexo destroçado e distorcido das pessoas de um mundo ideal aqui se encontra. As meninas não escarram. Os meninos não arrotam. As moças nunca peidam. Os rapazes jamais cagam. As garotas não se coçam. Os sovacos nunca fedem. Mesmo os porcos não vomitam. Não podemos tropeçar. As bocas não se abrem. Os narizes não escorrem. Qualquer tosse é terminal. Nossos sonhos são delírios. Todos dançam quando andam. Não se erra uma palavra. Todos querem ter certeza. Temos que sentar direito. Os sorrisos são completos. As tristezas não existem. Caras feias são freqüentes se você está feliz. Não demonstre estar contente. Argumente friamente. Os defeitos escondidos. Seja sempre um insensível. Não se mostre, apenas morra. Aceite o inaceitável. Se recuse ao pensamento. Seja mula, não cavalgue. Deixe de contribuir. Esteja limpo e sociável. Deixe a bota lhe pisar. Não espere o chão abrir. Se pendure e se enforque. Compartilhe do veneno. Não atire duas vezes. Adormeça, não acorde e permaneça, se uísqueça, alienado se entorpeça, só cabelos na cabeça, ou então se enfureça: rasgue os lençóis pelo buraco, que as suas réplicas não sejam súplicas, perto dos urubus só tem carniça, escarre e arrote, peide e cague, se coce e feda, vomite e fôda, tropessoe e tussa, delire e claudique, erre e pire, deite e goze, respire e viva!

Rotopolis

Play-hippies e paty-rockers nos bares, os totalistas dançando com os apagados, libertários amplamente autoritários; decadentes que não passam de fascistas cafetocapitalóides intentando se esconderem atrás de lentes anarquistas, prostitutas tem feridas purulentas com cínicos de si mesmos e viciados em jogos eróticos fomentando uma pornologia da repetição; sofistas guerreando com palavras, jamais alguém se ocupa com a sua segurança, o seu bem estar é um mal para muitos; médicos fornecendo novas drogas ao mercado, enfermeiras dependentes se picando, paranóicos que se apoiando no lado mais forte são incapazes de viver sem medo; militares ou militantes e a mesma etimologia, antípodas delirantes e esquizopositores encenando no teatro do absurdo, distorções no processo comunicativo com alterações comportamentais prévias; cirandas de motos com pêpas drogados nas ruas... Não ter princípios (an-arché) nos faz ser de todo mundo e assim sendo todo mundo vem a ser nosso também: metapoesiartística na consciência autofágica, fluxos de seres e máquinas corpóreas no caos urbano noturno – sarcofusão.

Testamento suicida

Nesta taça está contido
Tudo aquilo que detestas,
Este trago tão querido
Não será para mais festas,
Entre as armas sobre a mesa
Desta noite não funesta,
Tua escolha combinava
Com deleites de uma sesta.

Como agulhas pelo corpo
Te agredia a substância,
Tuas pupilas respiravam
Os pulmões na inconstância,
Apoiando-se em paredes
Suportavas tua ânsia,
Perseguindo o objetivo
Da tua última instância.

Explosivos preparados
Entre os que explodiriam,
O teu nome abreviava
O que todos mais queriam,
Do coronel ao general
Nem os pedaços sobrariam,
E no final tu sobre a mão
Que tantos mais apertariam!

31-12-10 E.V.


Conotações

A pedra me disse que o poço era fundo (lancei uma pedra no fundo do poço), o ódio falou-me que o amor era pouco, a história mostrou-me que o tempo era curto e a paixão me avisou que eu devia estar louco. O mundo me disse que eu aprenderia, a vida falou-me que iria acabar-se, os livros mostravam as nossas tolices e a máscara-terra que iria quebrar-se. O escândalo disse que eu teria fama, a modéstia falou-me que esta é inútil, mostrou-se de costas o astro distante e avisou para mim sobre o seu lado fútil. O desprezo me disse que era um amigo, a revolta falou-me sobre a circunstância, o que a mim se mostrava sem véus de moral exigia distância. O transtorno me disse que iria passar, sua voz me falou que eu estava doente, o remédio mostrou-se eficaz e mudou os meus planos na mente. Se a palavra final já foi dita, o retorno não é mais eterno, a sentença mortal da vontade tirana mostrou-me o poder de um terno.

Auxese

Senti que não devia mais pensar, pensei que não devia mais sentir. Eu não posso não pensar, eu não posso não sentir. Quem não conhece limites, acaba passando por eles: eu não conheço limites, portanto passei dos limites! Isto não é uma confissão, é um discurso; não estou nem na missa nem no consultório, freqüento o segundo, e do primeiro esqueci. Regressão da progressão representativa do sujeito como muitos corpos em seu corpo, ou como o seu corpo em muitos corpos, ou ainda como um corpo que possui a consciência de outros corpos, ou também como outros corpos que possuem a consciência de algum corpo: quantos corpos! Parecem com as montanhas de cadáveres nas guerras, dos holo-caos-tos aos massacres de soldados suicidas pelo mundo, das penitenciárias às casas de insanidade que estão cheias, do gueto dos favelados ao conjunto dos bem sucedidos - unicamente devastador é o sentimento sobre a sensação!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Apontamentos sobre o Discurso do método de René Descartes

Todos nós temos o bom senso, e se dele partilhamos, tanto melhor para nós todos. Pelo bom senso nós discernimos o que é verdadeiro daquilo que é falso. Nós pensamos de maneiras variadas muitos temas semelhantes. A razão não precisa só ser boa, ela precisa ser também bem aplicada e conduzida. Seguindo em frente, nós podemos alcançar as nossas metas bem mais fácil do que percorrendo diversos caminhos. A razão, bem como o bom senso, diferencia o homem dos outros animais. O método elaborado por Descartes passa por todas as áreas do conhecimento, desde as mais elementares para estar nas mais complexas, das menos trabalhosas para as mais dificultosas, no intuito de cautelosamente todas analisar para com isso ter acesso a um saber indubitável, a um conhecimento seguro, sólido e confiável. Nenhum de nós está liberto dos equívocos. Cartesius não pretende conduzir a consciência de ninguém, mas apenas demonstrar de que maneira ele fez isso com a sua, pois mesmo tendo tido uma educação ampla e completa, ele não estava satisfeito com a validade dos conhecimentos obtidos ao longo da sua vida. Por ter muito viajado e conhecido vários povos, Descartes respeitou as diferenças entre eles, não afirmando ser superior aos mesmos, como fizeram os mais etnocêntricos e preconceituosos pensadores da modernidade. Desde muito cedo, pela exatidão das suas concepções, a matemática – que ocuparia um lugar destacado na filosofia cartesiana – fascinava Descartes. Como muitos doutos compartilhavam opiniões diferentes sobre uma mesma temática, Cartesius começou a duvidar de tais certezas e perspectivas.

René acreditava mais no potencial das criações individuais do que naquelas coletivas. Ao longo da vida, a razão se aperfeiçoa. As perspectivas do método cartesiano são adaptadas às necessidades do conhecimento e as opiniões que não forem razoáveis para os termos da verdade deverão ser descartadas se não substituídas. Para Descartes, não devemos viver embasados pelos saberes antigos para sempre, pois nós devemos inovar cada saber e todo o dia. Descartes quando discursa sobre o método, o faz de si, por si e para si, ou seja, é algo dele, por ele e para ele, apoderando-se quem quer e como queira assim fazer do seu conceito – desde que também não faça errado. Cartesius se desfez das antigas opiniões que partilhava com os doutos para em si mesmo buscar a verdade. Como todos nós possuímos a capacidade de formular opiniões próprias (e ser próprio não é ser proprietário), nenhuma concepção proveniente dessa capacidade pode ser considerada como melhor do que as outras. O que existe de melhor na lógica, na álgebra e na geometria, formam as bases do pensamento cartesiano. Os silogismos em nada acrescentam, e posto que eles só exprimam tudo àquilo de que já sabemos, nós não podemos obter nada que seja novo através deles. Para dar sustentação aos alicerces do seu edifício filosófico, formulou Descartes a existência dos quatro preceitos que se seguem: o primeiro, que consistia em considerar verdadeiro apenas aquilo que se mostrar claro e distinto na sua razão sem que disso alguém pudesse duvidar; o segundo, que consistia em fracionar as múltiplas dificuldades que surgissem em partes para melhor e mais eficazmente analisá-las; o terceiro, que consistia em partir das coisas mais simples e chegar nas mais complexas; e o quarto, que consistia em fazer uma análise tão completa dos objetos de estudo, que nos tornássemos incapazes de omitir qualquer detalhe acerca do conhecimento investigado, de modo que por constantes revisões nos deparássemos como isso. Das matemáticas, Cartesius parte para a compreensão da natureza.

Antes da completa construção do edifício cartesiano estar conclusa, René se empenhou na elaboração e no seguimento de quatro regras para a sua conduta: a primeira incentivara a moderação das atitudes e a existência de maneira harmoniosa no seu ambiente com todos, analisando se as opiniões dos homens eram coerentes com as suas condutas. Para ele, as perspectivas mais moderadas ofereciam menos riscos à obtenção do conhecimento seguro, pois como não estavam nos extremos, encontravam-se mais próximas de algo verdadeiro. Segundo Cartesius, se uma verdade se tornar insustentável com o tempo, esta deverá ser desconsiderada, ou substituída por alguma mais concreta; a segunda máxima estabelece o rompimento com as ambigüidades em prol da resolução, da definição e da coerência quanto aos posicionamentos assumidos, nesse contexto, a eliminação de um talvez a de ser necessária para haver ou sim ou não, pois aqui as verdades mais seguras são aquelas mais prováveis, de modo que o conhecimento verdadeiro é prático; a terceira máxima consiste na superação cotidiana de si mesmo e na afirmação de ser senhor dos pensamentos que se tem; a quarta e última máxima, consiste em não desviar ninguém do seu próprio caminho e, como conseqüência, permanecer sempre no seu, ou seja, no aprimoramento da razão e na procura da verdade no conhecimento, discernindo sempre o útil do inútil e o verdadeiro do falso, pois somente se julgarmos as coisas da melhor forma possível, é que somos incumbidos do melhor a se fazer. Para se desfazer das opiniões inúteis, é preciso antes que reconheçamos as diferenças existentes entre todos. Para Descartes, as dúvidas removem as incertezas.

Cartesius definiu o verdadeiro como aquilo que nos fosse indubitável. O método cartesiano não confia nos sentidos. O primeiro princípio da filosofia cartesiana é o pensamento, pois este, de acordo com ele, é a condição para a nossa existência: quando pensamos, para Descartes, nós existimos, ou seja, para ele, nós existimos enquanto pensamos. A alma existe independente do corpo e é bem mais fácil de podermos conhecê-la do que este. “Para pensar, é preciso existir”. Verdadeiro, para Descartes, é aquilo que for claro e distinto. De acordo com Cartesius, o conhecimento é mais perfeito do que as dúvidas. René escreve deus com d maiúsculo. O que houvesse de imperfeito para o homem, segundo Descartes, não correspondia à perfeição que houvesse em Deus. De acordo com os princípios da filosofia cartesiana, o que existe em nós de verdadeiro provém de Deus, para ela, a perfeição e a verdade são partes de Deus, ao passo que a obscuridade só provém da confusão. Os sonhos não são os pensamentos, que são mais verdadeiros do que eles. Até sonhando a matemática é exata. A nossa razão deve ser o nosso guia. Em tudo existe um pouco de verdade, porém nem tudo é realmente verdadeiro. De acordo com Descartes, a natureza da essência do humano é uma parte do que ele determina como Deus. O que existe em Deus é perfeito e nem tudo que existe no homem o é.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Apontamentos sobre o Novum Organum de Francis Bacon

A observação racional dos fatos constitui um dos possíveis saberes sobre a natureza. As invenções humanas auxiliam o conhecimento. Saber é poder. Bacon critica a filosofia escolástica, pois eles detinham o conhecimento e o saber como verdades. É preciso contemplar para depois experimentar. É preciso experimentar para podermos conhecer. A natureza é independente e a análise dos homens sobre os fenômenos que nela acontecem são realizadas sobre a sua autonomia. A especificidade não compreende a totalidade. O que faltava nas ciências era um método adequado, capaz de suprir as suas necessidades investigativas. Para Bacon, as teorias científicas deveriam acompanhar os experimentos e darem sustento às análises. Contra os fatos não existem argumentos. As descobertas atualizam os avanços da ciência. A especulação não oferece nenhum conhecimento seguro sobre a natureza. O velho não engendra o novo, porém é inovando que se atualiza o velho. Bacon critica a lógica dedutiva silogística aristotélica. Se o silogismo serve para assegurar o conhecimento, nenhum sofista elucida as condições da natureza. Nem sempre as palavras fomentam saberes. O conhecimento seguro sobre a natureza provém da observação criteriosa dos seus fenômenos. A lógica não forma axiomas. O método científico oblitera o senso comum. A experiência é feita para ser sentida, e também vivenciada. Nem as doutrinas nem as endorfinas devem obscurecer a racionalidade e a pureza do intelecto voltado para o progresso da ciência. Às vezes as aparências são tidas como verdades. Acontecimentos constituem postulados. O procedimento dogmático se pauta nas concepções que eles julgam verdadeiras, de maneira que os dogmáticos não atualizam o conhecimento. O controle e a previsão dos fatos são as capacidades úteis de uma ciência prática. As dúvidas não se seguem das certezas, porém as certezas se seguem das dúvidas. O que podemos antecipar é, às vezes, muito mais objetivo do que aquilo que podemos conceber. As falácias do raciocínio são tão relevantes quanto os erros da experiência. O progresso da ciência não deve vir só por acréscimos, mas também pelas inovações. Não se combate o dogmatismo no seu terreno, ou seja, não se combatem os dogmas com eles. As capacidades de alcance e abrangência de um método são o reflexo do tempo em ele foi elaborado. O saber não pode ser antecipado, pois só sabemos depois que conhecemos. Não se deve sempre compreender o novo com base no antigo, mas deve se respeitar o antigo e considerar o novo com bases no inesperado. Nenhuma verdade na ciência é irrefutável, mas não são todos que conseguem contestá-las. Só se combate o dogmatismo com a verdade e esta só é obtida através de constantes tentativas de prova-la. A experiência sobrepuja os preconceitos e nas particularidades o seu método se foca. Quanto mais novos instrumentos aparecem, tanto mais nós compreendemos o real. Nós só podemos conhecer parcialmente e na medida do possível. Os ídolos apagam os raciocínios verdadeiros e fomentam preconceitos: estes precisam sucumbir. A tribo na caverna cria o foro do teatro. Contra os ídolos na mente humana, apenas a ciência é eficaz. Os ídolos da tribo são as percepções sensoriais equivocadas. Os ídolos da caverna são as autoridades instituídas que precisam ser derrubadas. As contradições são os ídolos do foro. A ciência tem como objetivo metodológico a certeza e/ou a validade nos e dos seus pressupostos. O teatro é verdadeiro quando mostra as ilusões. Na natureza, as suas formas se concatenam. Existem superstições que pretendem serem verdades. Os ídolos do teatro são os mais profundos ídolos, pois são estabelecidos no espírito do homem. Verdades contrastam verdades. Pela verdade, o que parece verdadeiro é suprimido. Só a verdade elimina as aparências. A mente humana facilmente se engana, constantemente, a mente, mente. Nunca se poderá saber de tudo. O pensamento não conhece limites que o impeçam de continuar. O pensamento não para, pois sempre acontece: viver também é pensar, pensar também é viver. A ciência do querer não é a ciência verdadeira, posto que a ciência seja racional, sendo também experimental. A lei da ciência é incompatível com a lei do coração. O desejo do cientista é conhecer sem desejar como ele quer para si mesmo conhecer. Nem sempre as verdades são aquelas que queremos. Os sentidos muitas vezes ludibriam o intelecto. A ciência esclarece os acontecimentos e tritura as impressões falaciosas. Os sentidos podem julgar as experiências, mas não defini-las. Não se chega ao conhecimento seguro pelo uso dos sentidos. No mundo as experiências sensoriais as falácias predominam. O passado é uma lei inalterável e o futuro é um destino imprevisível. Os ídolos da tribo são as nossas ilusões. O pensamento é a permanência do movimento no intelecto. Nada na natureza é fixo, logo, as concepções do pensamento são inconstantes, pois ele tende a estabelecer as verdades no terrenos do mutável. A caverna está na nossa consciência e a saída para ela está na nossa sapiência. Os ídolos da caverna são as construções da sociedade que constrangem e que oprimem a razão. A ciência é o que é e não aquilo que se quer. Todos podem conhecer, pois o saber não tem senhores. As fantasias e as predileções devem ser afastadas do conhecimento científico, pois ambas tem os ídolos em si. O saber científico é abnegado e coerente. Obtemos o conhecimento pela observação das diferenças e pela aglutinação da semelhança. Respeitar o passado imutável, bem como o futuro recém-construído, é uma atitude científica. As verdades se alteram com o tempo. A experiência garante o acompanhamento das mudanças pela frequência dos acertos que engendra. Tanto a totalidade da estrutura do objeto investigado quanto os elementos problemáticos na mesma devem ser considerados pelos sábios: assim são combatidos os ídolos da caverna. Os ídolos da caverna são provenientes do excesso e do saudosismo. Nada em demasia na ciência tem futuro. Os ídolos do foro também são o que as palavras cristalizam como sentido. O poder dos significados linguísticos estimula a existência dos ídolos do foro. Cada conceito deve ser analisado. Cada palavra deve ser considerada. Os significados nem sempre significam. Na matemática se confia mais do que nos discursos. A exatidão do cálculo é inquestionável e não pode ser contradita. Existem mitos que se mesclam aos sentimentos. Os ídolos do foro ou são falsos ou insustentáveis. Os ídolos do teatro são os mais sutis de todos e se instauram na nossa realidade sem a nossa resistência, por isso eles são os mais árduos de se superar. Argumentamos quando concordamos com os princípios contidos nas demonstrações. A filosofia empírica é associada por Bacon à alquimia que estava em evidência na sua época. A falsidade deve ser denunciada pelo método científico. Todas as teorias insustentáveis devem, pela sua natureza, serem substituídas: assim nós eliminamos os ídolos do teatro. Bacon era um iconoclasta. As crenças não são critérios para a interpretação do que quer que seja.