sábado, 31 de março de 2012

Os senhores sem escravos para Raoul Vaneigem em A arte de viver para as novas gerações

Os escravos sem senhores são os servos voluntários. Os senhores sem escravos são os donos de ninguém. (RN)

A supremacia hegemônica das potências dominadoras é superada pela transição de um estado alienado para um de consciência, como o pensamento autônomo e, por consequência, a liberdade de ação sobre a esfera social é ampliada. (PB)

Enquanto houver a repressão, não haverá obediência, pois a desobediência é a condição da liberdade, e posto que por ela (pela desobediência) não se estabelecem as dominações da consciência, que é o aparelho principal para a determinação do nosso ser social, bem como das nossas atitudes no contexto das mudanças, é na recusa de servir que não serão mais os escravos submissos. (PE)

Combater a permanência do status quo é a condição para que o poder se disperse das mãos dos senhores das massas, dos deturpadores das consciências e dos opressores do pensamento. As organizações de natureza hierárquica são a vala da autonomia humana, sempre castrando o potencial dos homens e a profunda consciência das mulheres, nos afastando da realização plena das nossas capacidades, visto que a competitividade é o esquema do sistema para as classes dominantes explorarem as mais desfavorecidas, ao passo que a solidariedade é o trunfo da anarquia, sendo a generosidade dos senhores de si mesmos. (AL)

A autonomia consiste em não ser manipulado, pois submissos não podemos ser quem somos. Enquanto nós tivermos os nossos senhores, não seremos senhores do que nós teremos, não seremos donos de nós mesmos, e se não somos nem sequer donos de si, então nós não teremos as condições de sermos senhores sem termos escravos. Ter identidade é ser o seu representante: o dono da sua vida e das condições da mesma. Quando não fazemos nada do que os mestres determinam, quando não obedecemos e não reverenciamos, afirmamos que nós nos emancipamos. Só serão poderosos os senhores, enquanto o seu escravo permanece alienado, pois sem senhores os escravos não terão a quem servir, e se os escravos não tiverem mais ninguém para servirem, logo, os escravos serão os seus próprios senhores. (SE)

A recusa ao comportamento servil constitui a força revolucionária da revolta contra os mestres. Os sonhos com a liberdade são realidade quando a força da vontade sobrepuja a fragilidade. Os escravos, só serão livres quando preferirem a morte à submissão ou a liberdade ao invés da prisão. Os senhores só serão expropriados quando os escravos não forem mais servos. Em síntese: é apenas pela negação à servidão que o escravo se torna o senhor de si próprio.

Aonde a subjetividade triunfa, a servidão voluntária fracassa. Quanto mais sofisticados os senhores forem, tanto mais bestializados serão os seus servos, pois para que alcancem um estado de poder absoluto sobre as vidas ao redor, é necessário que oprimam com a mesma intensidade os que lhes cercam. Os senhores que precisam de escravos são tão fracos que não são sequer senhores, pois é a fraqueza que submete ao controle o poder, levando as classes dominantes a depender dos que dependem dos seus meios. Os opressores são alienados ativos e os oprimidos são alienados passivos: ambos não escapam do mascaramento que a realidade sofre por esses papéis assumidos, são simultaneamente alienados, marionetes de um teatro das aparências. Os explorados tem apenas um motivo para as suas condições: o temor. Os exploradores tem apenas um motivo para o seu próprio temor: a revolta. Não ter mais medo de viver é responder com atitudes libertárias opressores conhecidos, como as autoridades instituídas pela burocracia social-hierárquica.

Para os senhores antigos, existiam duas maneiras pelas quais os seus escravos poderiam ser por eles libertos: a alforria ou o sacrifício. Na atualidade, a escravidão acaba pela quebra dos contratos ou pela demissão – o que não exclui subsequentes represálias no primeiro caso e lastimáveis consequências no segundo ponto. No futuro, a organização será uma corrente capaz de prender para estrangular o poder sobre si de escolher e agir. A rebelião como meio de emancipação, está em voga tanto no passado quanto no presente e será para sempre uma maneira de fazer-se independente, a chave mestra para todos os cadeados, a dinamite para todos os grilhões.

A finalidade do processo histórico, que se concretiza pela luta das classes, é a emancipação dos oprimidos e a aniquilação dos opressores, é a completa e irreversível destruição dos senhores pelos servos, é a bem quista abolição da dominação pelos dominados, é a inquestionável rebelião contra os magnatas pelos explorados. Quando a dialética da história é interrompida pelos poderosos, o progresso da humanidade é estagnado e isto acaba por comprometer a emancipação das massas, portanto, fica a critério do povo poder transgredir para continuar a se desenvolver. (BA)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Melancolia

Chovem pássaros mortos
Como as folhas que caem das árvores
Estou distante e a minha metade é pequena
Os meus braços erguidos perderam a força da súplica
E a luz não voltará tão cedo à minha perspicácia

As cordas do meu violino não tem harmonia
O vento assopra a trompa da minha penúria no fosso profundo
A força dos contratos enfraquece a minha vida
E acentua a minha angústia

O veneno das estrelas misturado na bebida
Trará o trago da felicidade do nosso destino

Esqueço o banquete dos pedaços vitrais
Aborto os discursos da sua ironia
São mortos os tempos da roupa que visto
Não vejo conexões entre as sombras da fantasia
Permito que a noite venha a mim como um fantasma
E que a lua para sempre escurecida me ilumine

Que os amores me encantem como a minha estupidez!

As correntes do meu leito me sufocam
Já tive olhos que um dia me serviram
Ouço os lamentos que não posso atenuar
Existe vida ao meu redor,
Porém não sinto a minha vida
Por um suspiro quero dar tudo que tenho

Danço com a certeza do último baile
Canto a partir dos juízos do meu coração
Imagens de livros habitam os meus sonhos
Soberana escuridão distanciada das saídas
Não tenho mais o brilho do sorriso abarrotado
É uma ausência que me traz sua presença
O telescópio amplia as minhas condolências
Bateram palmas para a minha extravagância

Quando os passos estão fracos,
São os pratos que estão secos
Alimento-me da fome do meu corpo
Adormeço estranhamente antes do tempo
Tenho o chão para cair quando morrer

Recuso-me a vestir indumentárias
Farei sem elas o melhor da minha vida
Para escutar a voz dos bichos que não andam
Invadirei uma floresta com a letargia das trepadeiras
E na paixão soluçará o desespero

Lua clara dos glorificampos abertos
Descoberta no corpo do nosso planeta disperso
Dobradas para mim estão as hastes de metal
Não sei o que fazer para anular o sofrimento

O alarme das fugas anuncia
A madrugada que a vida atravessa
E a lua se eleva sobre os mares
Para que os astros errantes se percam no tempo

Unidos pelo ócio das poltronas
Vasculhando a solidão do gabinete
A falta de sentidos é a trilha que me guia para dentro e para baixo
Para os lados pelo fora
Sobre os dias pelas horas
Quando explodo os atrativos
E fustigo as emoções:
Que o resto seja das moscas e das chamas.



domingo, 25 de março de 2012

A organização da aparência para Raoul Vaneigem em A arte de viver para as novas gerações

Raoul Vaneigem, em seu livro A arte de viver para as novas gerações, ao discorrer sobre os desdobramentos artísticos, culturais, econômicos, estéticos, éticos, filosóficos, midiáticos, morais, poéticos e políticos da contracultura no século XX, argumenta que a salvaguarda sistemática dos acontecimentos é realizada pela uniformidade exteriorizada para a "organização da aparência". Para ele, os fatos são apresentados para a coletividade de um modo abastardado e adulterado, alterado e contrafeito, corrompido e degenerado, deturpado e falsificado, distorcido e viciado pelas mãos imundas e os pelos dedos sujos dos senhores da autoridade e promotores do espetáculo, na intenção de que dos olhos duvidemos e creiamos nas mentiras propagadas pelos seus dispositivos. Nessa perspectiva, o devir libertário se subleva para contestar as coerências tanto míticas quanto espetaculares, transformando o espetáculo em uma incoerência histórica e o mito em contradição. O vir a ser fabrica significados e suprime as incertezas; partindo com os fragmentos para a unidade e fracionando a unidade em incalculáveis pedaços dispersos, o devir tudo transforma, submetendo aos seus critérios de mudança as forças opostas à transformação.

Para Nietzsche, nenhum ideal é verdadeiro e a luta contra a mentira deve ser uma constante. Vaneigem assegura que a difusão do ideal tem sustentado as nossas classes dominantes. A força da mentira tem ganhando muito espaço e ampliado os horizontes pelo meio social. A sedução que os seus mecanismos tem exercido sobre a sociedade é tamanha, que o discurso dos poderosos está pautado nas suas linhas, entrelinhas, sublinhas e sobrelinhas pelas suas influências perniciosas e pestilentas, direcionando a humanidade pelos seus falsos caminhos e fazendo enveredar a liberdade para o cativeiro da estupidez. Para o filósofo e escritor, é a mentira que fundamenta a exploração, é a falsidade que legitima a dominação, é a hipocrisia que justifica a alienação, é o fingimento que dá sustento à especulação, é o interesse individual dos governantes que não mostra ao mundo como eles são. O senso comum é um banquete de ilusões compartilhado pela fome da rés gregária. A moral dos escravos é a conduta sequiosa dos ressentidos. Ser autêntico consiste em não ser subordinado ao quimerismo dos prestidigitadores, posto que as alienações são perecíveis através da resistência consciente e superadas a partir das consciências resistentes. Para Vaneigem, nós precisamos dar adeus para o que não for verdadeiro, ao estender qualquer instante genuíno, e encerrarmos a mentira no sepulcro da história.

A decomposição do mito, para Raoul Vaneigem, acelera a putrefação da carcaça do materialismo - processo no qual a burguesia são os vermes do cadáver e a médiocracia são as larvas do defunto. Os matadores de deus, de acordo com o situacionista, serão seus próprios assassinos no próximo cataclismo do sistema capitalista. Segundo ele, para tentarem se livrar do esmagamento pelo rolo compressor da história, as classes dominantes pretendem estabelecer os papéis teatrais como partes do cotidiano - não contingentes, mas essenciais -, empobrecendo cada vez mais a realidade e organizando de maneira mais humana as aparências, domesticando sorrateiramente os indivíduos aos seus modos, e docilizando a sociedade para os seus desígneos. O espetáculo é o mito escalpelado e a comédia é o ponto de interseção de uma tragédia para o drama. Para Vaneigem, a introdução das aparências na história foi estimulada pela burguesia para dar continuidade ao seu projeto de dominação e a revolução que foi um meio para ela de chegar aonde está, será o medo visceral e o terror primordial que ela tem de sucumbir e perecer. O devir libertário enfraquece a coerência do mito e a incoerência do espetáculo, fazendo-as oscilar constantemente para os seus lados opostos, ou seja, os padrões são subvertidos e o mito da coerência é estabelecido, bem como o espetáculo da incoerência é insituído.

Conforme A arte de viver, os juízos teoréticos se opõem à criatividade e organizam hierarquicamente o desempenho dos papéis instituídos pelas autoridades, sejam elas acadêmicas, artísticas, científicas, culturais, filosóficas, literárias ou políticas. Nada pode estar contido no cabedal dos conhecimentos seguros sem que antes passe pela censura dos especialistas. Muitos peritos são tão reacionários, que não admitem as mudanças e transformações no sagrado saber que decretam, defendendo o rococó e combatendo toda coadunação inovadora. O devir literal-libertário, para as novas gerações, consiste em um rompimento com esses obstáculos através da implementação do pensamento independente, insubmisso e emancipado, capaz de produzir sem restrições a expansão do singular e construir a liberdade irrefutável da reflexão. De acordo com Vaneigem, quando os papéis se dissolvem, a realidade é bem melhor compreendida e também experimentada, pois o que a depauperava é fatalmente consumido e aquilo que devia estar oculto é desvelado para os olhos e ouvidos da revolta dirigida contra as forças do sistema dominante que conduz o pensamento pela uniformidade que aliena.

A análise dos acontecimentos, para Raoul Vaneigem, coloca a coerência do mito no painel de fuzilamento e aciona instantaneamente as metralhadoras. Os cartuchos espalhados pelo chão, depois da carnificina, são as aparências brutalmente assassinadas pela crítica das armas da crítica. A sinfonia dos ossos fraturados é a marcha fúnebre do cortejo das imagens indevidamente usadas pelos servos do poder, e o coral das respirações ofegantes são os últimos suspiros da miséria dos escravos. Os eflúvios deletérios dos restos mortais do massacre aos papéis se espalham pela atmosfera, denunciando que a decomposição do espetáculo, depois do incêndio no circo, se tornará o espetáculo da decomposição. Ao fim de tudo, as bombas de efeito moral não conduzirão a consciência de mais ninguém, as balas de borracha apagarão a sua história de repressão, com sprays de pimenta serão temperados os pratos das festas, os cassetetes serão os carvões na fogueira da celebração, e a lógica do consumo, que é o sustentáculo basilar do sistema capitalista, contemplará a sua própria derrocada e desmoronará sob os explosivos e sob os molotovs da revolução.

domingo, 18 de março de 2012

Vomitando Shakespeare

Com o tempo você aprende a diferença, a brutal diferença entre apertar uma mão e vender sua alma.

E aprende que viver não significa matar-se, e que filosofia nem sempre enche a pança.

E começa a aprender que desejos não são baratos, e parentes não são remessas.

E começa a aceitar as bancarrotas como a peça perseguida e aos trambolhos ir andante, com a taça ou no tumulto e não com a incerteza de uma lembrança.

E aprende a disferir todas as suas bofetadas no que surge, porque o terreno do afã é concreto demais para os panos, e o monturo tem o chorume de puir o coração.

Depois de um tempo você aprende que o álcool não é uma guloseima se lavar o corpo e fluir por dentro.

E aprende que não importa o quanto você se exorte, algumas pessoas fatalmente não se exortam.

E rejeita quando vê morta uma pessoa que seja boa, pois isso vai arrasá-lo de vez em quando e você precisa esquecê-la, por isso. Aprende a ver o fim das ilusões irracionais.

E descobre que se levam anos para se instruir nas finanças e segundos para consumi-las, e que você corre ao ter gastado radiante mas que se repreenderá depois do resto da corrida.

Aprende que as cabeleiras e as unhas continuam a crescer mesmo nas densas profundidades.

E que não importa o que você viu na vida, mas o que você fez na vida.

E que bons amigos são todos os livres e livros que nos permitiram pensar.

Aprende que não precisamos matar inimigos se estabelecermos que eles se matem, percebe que seu pior inimigo e você estarão numa lousa, ou cova, apodrecendo com os juncos.

Descobre que as nódoas com as quais você mais se desconforta na lida são marcadas em você de forma expressa, por isso sempre devemos desprezar as pessoas que odiamos com palavras furiosas, podem ser numerosas as vezes que as encontremos.

Aprende que as substâncias e os componentes tem diligência sobre nós, e que somos demonstráveis quando a esmo.

Começa a aprender que não se deve confrontar com os tolos, mas com o doutor que nos faz conhecer.

Aprende que não importa o quanto você acertou, mas se está acertando, pois se você não sabe o que está fazendo, é certo que erres.

Aprende que se você se descontrola, os outros te amarrarão e te espancarão, e que ser irreprimível não é ter peito de aço ou não ter sociabilidade, pois não importa se você foi internado ou foi parar no cemitério: sempre existem dois laudos.

Aprende que destrói não as pessoas que criaram o que era temerário de fazer, e vai perdendo a consciência.

Aprende que a conveniência requer muita métrica.

Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera para te salvar é aquela que te dá um tiro e que te faz morrer.

Aprende que insanidade tem mais a ver com os tipos de imprudência que se manteve e o que você escolheu para si, do que com quantos itinerários você se ocupou.

Aprende que a paz não é mais o que você supunha.

Aprende que o nunca e o breve mantém uma dança, que destroços não são engrenagens, e que loucas pesquisas são tão dissonantes que seria uma comédia se alguém pensasse nisso.

Aprende que a sua lábia, quando no direito, faz a sua casa, mas que isso não nos dá um jeito de ir morar no céu.

Descobre que só porque alguém não o chama do jeito que você quer que chame, não significa que esse alguém não o chama, pois existem pessoas que nos chamam, mas humildemente não sabem como escrever isso.

Aprende que jamais será decente enquanto sustentado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a ser do faça você mesmo.

Aprende que com a mesma celeridade que você vadia, também tão rapidamente estará degradado.

Aprende que não importa em quanto espaços a sua atuação foi dividida, no fundo o teatro é a fome e a peste.

Aprende que o momento não é pago para estar um pouco mais.

Portanto, nada é bem assim, então complete a sua falta, ao invés de implorar que um alguém lhe tire as dores.

E você aprende que decadente pode se arrastar... que mesmo nos braços da morte você pode ser audaz, proferindo a derradeira palavra vivaz.

E que finalmente a sua vida se acabou, porém no mundo não deixou de haver vida.

Nossas dúvidas são libertadoras se nos fazem ter resposta ao que queremos perguntar, se não fosse o enredo a se finalizar.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A aurora da ciência antropológica

Laplatine argumenta, ao introduzir a antropologia no contexto das ciências sociais, que com a descoberta do novo mundo e com a difusão dos ideais renascentistas, os espaços desconhecidos começam a serem pensados e são discutidos. Para ele, no século XIV era comum divagar sobre se os selvagens tinham ou não possuíam almas. No século XVI essa questão foi resolvida, não tão bem quanto poderia, pois alguns teóricos da época atribuíram aos selvagens à ignorância e a barbárie. Em contrapartida, alguns sensatos pensadores recusaram-se a estranhar dessa maneira o novo mundo e entenderam que havia diferenças entre eles, sem que estas tenham sido negativas como foram postuladas pelos mais etnocêntricos. Sepulvera, um jurista espanhol, foi um defensor dessa primeira posição. Para ele, os índios eram selvagens por não serem como ele, e por esse motivo deveriam ser comandados pelos mais civilizados. Discordando de sua teoria, Bartolomé de las Casas, um teólogo, também espanhol e estudioso dos índios, afirmava que estas sociedades possuíam a sua própria organização, sendo capazes de por si mesmas serem mais bem sucedidas e melhores do que estas que nós temos. Com as suas teses, ambos teorizaram sobre o mau e sobre o bom selvagem.

As diferenças reacionárias e impositivas do velho mundo exerceram uma influência etnocida e devastadora sobre as culturas recém-descobertas pelas grandes navegações, o que levou diversos dados valiosos para o lixo e apagou parte importante do que hoje poderia ser história. Os índios foram forçosamente introduzidos aos novos costumes pelos invasores e por eles massacrados, pois estes estavam munidos de instrumentos bélicos mais sofisticados do que os dos autóctones, e assim subjugaram todos eles pelas armas, deixando apenas a vergonha para o tempo: com tudo isso muitos se suicidaram!

Desejando sobrepor sempre a Europa aos demais continentes, os missionários sanguinários perverteram os costumes dos indígenas, estupraram as ninfas morenas nos matos e rios, impuseram suas crenças às demais - desrespeitando as diferenças naturais das etnias -, torturaram brutalmente os muitos índios não conversos, corromperam a maneira organizada de viver em harmonia, exploraram as riquezas e os filhos deste solo, abusaram cruelmente das crianças e dos velhos, acabaram produzindo muitas mortes e fizeram sua história apodrecer com isso tudo. Ora, o selvagem não é o avesso do civilizado, pois o seu modo de vida constitui um estilo de civilização diferenciado dos nossos modelos. As culturas que não são antropofágicas são etnocêntricas e as culturas que são etnocêntricas são etnocidas. As culturas que não são etnocidas são antropofágicas e as culturas que são antropofágicas não são etnocêntricas. Hegel e Rousseau, influenciados pelo pensamento dos ignorantes e civilizados ocidentais em sua época, excluíram os selvagens da crítica da história. Hegel foi um racista por menosprezar os negros e Rousseau foi um otário quando quis civilizá-los, posto que as comunidades primitivas tenham sido anárquicas e organizadas, pois sem governo e sem Estado, mantinham a sua estrutura.

Exibidos enjaulados pelas feiras e espetacularizados pelo circo, muitos selvagens foram sempre maltratados e bem pouco contemplados como poderiam ser: com isso a civilização do velho mundo se mostrou mais bestial do que as novas descobertas. Cristovão Colombo e Américo Vespúcio foram mais elogiosos e menos preconceituosos ao falarem sobre os índios nos relatos que fizeram. Montaigne afirmou que a civilização dos índios existia ao modo deles e que aqueles que as consideravam bárbaras só poderiam fazer isso com a justificativa da razão não ser usada, isto é, entre eles os processos racionais que nem os nossos não existem, pois são aplicados de maneiras diferentes pelo grupo. Além disso, ele pensou que o indianismo era o nosso estado primordial que fora perdido e depois encontrado, considerando as atitudes memoráveis desses índios e os atos detestáveis feitos pelos invasores.

Obcecados pelas riquezas e por bens materiais, os europeus dizimaram as populações indígenas pela ânsia de lucros e renda, sendo infelizes sem aquilo que é bom e destruindo para terem os espólios econômicos no cofre. Enquanto isso, os índios e selvagens não estavam nem aí, gozando a vida plenamente e sem garrotes, distantes de culparem qualquer um na natureza pelos males oriundos do além mar, pois sua terra era a riqueza partilhada e coletiva sem ter donos, o que os dava a liberdade retirada pelos povos parasitas. Contra o barbarismo ocidental todo discurso é atual se coerente. As comunidades primitivas são mais solidárias do que as racionais, não são tão egoístas e não querem sempre mais, não devem, portanto, ser tão marginais. A etnologia é um remédio contra esses preconceitos sociais e culturais e pró-civilizacionais, de modo que sem a pesquisa etnológica, muitos diversos selvagens seriam ainda tachados de bichos e poucos dos civilizados teriam o status de monstro.

terça-feira, 13 de março de 2012

Punx on the beach

O Egito não é aqui
Camelo não é dromedário
Do Nilo ao Potengi
Não vi nenhum oásis


Por Bruno Prates, Clefferson Costa e Igor Maia

Culturantropológica

O antropólogo brasileiro Roberto DaMatta entende, ao escrever o que é ter cultura, no início do seu micro-artigo que pergunta se Você tem cultura?, que este conceito pode ser compreendido tanto no âmbito dos conhecimentos que nós adiquirimos através dos vários meios disponíveis e maneiras diferentes de saber, quanto podem englobar certas peculiaridades e costumes de um povo, bem como abarcarem as características definidoras e diferenciadoras das diversas comunidades e das inúmeras sociedades humanas. Em poucas palavras, o estudante da sociedade quer nos dizer que a cultura é um aparelho pelo qual se pode melhor conhecer este mundo em que somos.

Por suas três ou quatro páginas, DaMatta nos diz que o termo cultura é depreendido pelo senso comum como sinônimo de satisfação, complexidade, erudição, conhecimento, educação, sabedoria, arcabouço teórico, bagagem científica, cadebal acadêmico, em suma: tudo aquilo que pudermos conhecer, compartilhar e ter conosco. Definida de outro modo, a cultura pode ser compreendida, e é vista dessa forma, como os aspectos particulares de determinados grupos, as suas especificidades evidenciadoras e os detalhes que os fazem ser como e quem são.

Nos termos utilizados pela ciência antropológica, Roberto nos diz que a cultura é "um conceito-chave para a interpretação da vida social", quer dizer, são todos os fenômenos que afetam e permeiam toda a coletividade sobre a qual os indivíduos coexistem. Para os antropólogos, a cultura é o terreno sobre o qual serão defendidas as teses construídas pela sociologia do espaço. Nela estão inseridos os comportamentos, os hábitos, as peculiaridades, as particularidades e os costumes de um povo, ou seja, os fatores determinantes para o reconhecimento da diversidade e das diferenças entre os povos mais distintos conhecidos pelas observações.

Quando consideramos a cultura somente em seus aspectos cognitivos, acabamos excluíndo a sabedoria das comunidades e grupos que não tem acesso a isso, o que é discriminatório e deve ser evitado, pois são muitos os incultos que não são ignorantes e que tem uma cultura diferente e primitiva em relação à nossa prórpria, ou seja, todos nós temos cultura. Em outras palavras, os selvagens não são como nós, são como eles, e sendo eles logo são quem eles são; portanto, nós como nós somos nós, que nem eles que são eles entre eles: ambos iguais na diferença. Vários indivíduos singulares, cada qual particularmente próprio, através da cultura se homogeneizam e interagem por esse caminho, posto que este cria uma corrente aonde os elos se correspondem.

As subculturas, consideradas marginais por estarem na margem das outras maiores, são aprofundamentos realizados na própria cultura por ela, isto é, não devem ser menosprezadas e esquecidas, mas sim analisadas e observadas como são, pois, as culturas. A totalidade da cultura também encerra em si as diferenças mais profundas e são estas que a fazem ter sentido sem ser superficial: "um outro modo de perceber e enfrentar a diferença cultural é tomar a diferença como um desvio, deixando de buscar seu papel na totalidade". Em síntese: "cultura é um conjunto de regras que nos diz como o mundo pode e deve ser classificado".

Corra, soldado

Corra soldado
Para fora do quartel
Não lute mais por ele
Descanse e veja o céu

No quartel ponha fogo
Da polícia quebre o pau
Rasgue, queime e cuspa
Na bandeira nacional

quinta-feira, 1 de março de 2012

Brasil

Rodeado de letrados,
Excelências, magistrados,
Eu olho para a justiça
E ela pende para um lado,
É que o balanço da balança
Vive desequilibrado!

Meritíssimo bata o martelo,
E retire esta sua sentença,
Entre o verde & o amarelo
O que existe é a diferença:
A ordem é uma autoridade
E o progresso é um processo,
Desordem & retrocesso
É o mais próximo à verdade!

Vejo os índios travestidos,
Vejo os negros esquecidos,
Vejo marcas, vejo cifras,
Vejo guerras, vejo birras,
Me cansei do eu que vejo,
Já não vejo o que eu vejo,
Você cheira a percevejo,
E eu escarro no seu beijo,
Ó país do futebol!
Jogue agora beisebol...

Potência capitalista,
Refúgio de comunista,
Não há luz no seu farol:
Que haja brilho no teu sol!