quinta-feira, 5 de julho de 2012

Escombros

Os escombros não falam e não se movimentam.
São cegos e são surdos os escombros.
Os escombros alimentam-se da poeira das suas sobras.
Não se afunde ao ir dormir entre os escombros.
Os escombros se esmagam com aquilo que carregam.
Triturados sejam todos os escombros.

Os escombros nos pedaços se perderam.
Sufocados pelos restos os escombros.
Os escombros não serão da mesma forma.
Muitas vezes nós veremos os escombros.
Os escombros vem do alto à queda livre.
Destruidos foram todos os escombros.

Os escombros desabando eles não se desesperam.
Será novo o que estiver sobre os escombros.
Os escombros quebram tudo o que puderem.
Impedidos de cair são os escombros.
Os escombros estão sempre estraçalhados.
Enterrados estão todos os escombros.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Qual a crítica feita por Berkeley à noção de abstração sugerida por Locke?

Berkeley cogita a existência de um véu entre as ideias e as suas impressões mais definidas, ou seja, para ele não se pode apreender as qualidades de um modo imediato com a mente. De acordo com este empirista britânico, esse véu separa as coisas do nosso contato com elas, de modo que podemos acessá-las através dessa barreira, porém não diretamente ter acesso à forma delas. Segue-se disso que por nós não termos contato direto com elas, não teremos a obrigação de pensá-las reais como são ou podem ser. Surge o idealismo, que é a oposição de Berkeley ao pensamento da abstração em Locke, pois se para Locke se chega a raiz dos conceitos ao abstraí-los, não é verdadereiro que para Berkeley proceda dessa forma, visto que para ele não se chega nem sequer a entender completamente a existência dos conceitos.

O que justifica Descartes a creditar ao "eu sou, eu existo" certeza absoluta?

A meta cartesiana é o limite do ceticismo. A partir da exaustão das dúvidas levadas ao extremo se chega em algum ponto aonde não restar mais ela. É através desse método que Descartes chega à certeza da sua existência. Para o racionalista francês, ser enquanto se pensa é exisitir, pois o pensamento para ele é a condição fundamental da consciência. A matemática possui a precisão cartesiana, pois os seus teoremas e axiomas são indubitáveis, de modo que também ela é capaz de elevar os pensamentos do mais simplório ao mais complexo de todos os problemas, os solucionando de um modo objetivo e tampouco questionável. Com os recursos específicos da lógica, da álgebra e da geometria, Descartes não só chega à certeza indubitável da sua existência enquanto ser pensante, mas alcança para si uma verdade sobre deus e sobre o mundo como coisas existentes a partir dos seus princípios.

Qual a relação entre a noção de significado em Aristóteles e em Locke?

Tanto Aristóteles quanto Locke eram empiristas e racionalistas. Para o filósofo britânico, a nossa mente era como uma folha de papel em branco, onde a experiência tem escrito as suas linhas. A doutrina aristotélica das quatro causas se relaciona com as fases do processo cognitivo em Locke. Para Aristóteles as causas são formais, materiais, eficientes e finais. A primeira é a ideia do objeto. A segunda é o corpo do objeto. A terceira é aquilo que o fez um objeto. E a quarta é aquela que faz últil o objeto. Em Locke, as fases da cognição são intuitivas, sintéticas, abstrativas e comparativas. No primeiro momento as ideias são sentidas. No segundo elas são unificadas. No terceiro elas são reduzidas. E no quarto elas são confrontadas. Assim se estabelece uma relação entre elas de maneira produtiva para os significados. Quer-se dizer que as palavras são as formas das ideias, e que as ideias tem como suas formas mentais as palavras, de maneira que a convenção é o veículo de significado das ideias, sendo as palavras intrumentos para a comunicação dessas ideias.

Qual o melhor candidato ao papel de substância em Aristóteles: o substrato, o composto, a forma ou o universal? Por que não pode ser o universal?

A metafísica aristotélica estuda a substância imutável. Para ele, tudo é parte desta substância primeira e não há nada que exista sem que tenha vindo dela. A substância imutável é imóvel, mas move a todas as coisas. Essa força motriz possui um caráter divino e isto faz da metafísica uma teologia. Afirmando que o universal torna o conhecimento possível, Aristóteles não demonstra como ele se perpetua no alheamento das esferas individuais. Logo, no pensamento aristotélico, não é o universal o melhor candidato que corresponde ao papel de substância, pois este não diz respeito à realidade sensível das coisas que existem no mundo de forma direta, mas é a forma que corresponde, visto que a mesma é basicamente pura e não é material, ou seja, encontrando por esse viés um jeito de objetar Platão, Aristóteles afirma que a forma ela é substancial, posto que é pura e é imaterial, sendo universais as substâncias secundárias, e não as primárias como a forma.

Qual a função da doutrina platônica das idéias? Existem objeções à esta doutrina?

Para Platão, as ideias das coisas correspondem aos seus nomes. São conceitos mentais que tem como formas os seus objetos no mundo, ou seja, para ele, as ideias são os nossos pensamentos sobre as coisas e, em poucas palavras, são as imagens referenciais dos elementos materiais. Aristóteles se opõe ao argumento de seu mestre, se questionando por Platão ter duplicado o nosso mundo. Sim, pois para o seu mentor, o mundo possuia divisões conceituais objetivas. De acordo com Platão, as ideias existem em um mundo transcendental, são imutáveis e lá permanecem, não possuem lugar no espaço, apenas no mundo das formas. Em outras palavras, se tudo que existe de verdade deve estar em algum canto, e se as ideias não possuem pontos fixos no mundo, então há um problema quanto ao seu caráter físico, de modo que Platão recorre aos mitos para poder explicá-lo, o que não é tão respeitável dentro da filosofia.

Microcríticas à razão pura

Nem tudo que é pensado pode ser compreendido. A razão possui limites, ultrapassa a experiência depois que a mesma tiver sido feita. O conhecimento dos fenômenos parte da experiência. A razão nem sempre é subjetiva, pois engloba muitas vezes a objetividade, de modo que é a base que dá fundação à crítica. A razão justifica os conhecimentos a priori depois que se debruça sobre eles. A metafísica está para a razão, assim como a criança para os seus primeiros passos. Os conhecimentos fundados na experiência são contingentes. Os conhecimentos a priori são necessários.


A crítica da razão pura estabelece os limites do conhecimento, e se isenta de justificar a função do pensamento. A razão pura pensa as ideias abstratas de forma prática. A experiência produz conhecimento, mas nem todos os saberes são provenientes dela. Os conhecimentos a posteriori nos mostram um estado de coisas que são transitórias. Quando puro, o conhecimento a priori está desvinculado da experiência. Se o conhecimento é a priori, então é um juízo necessário, claro, distinto e indubitável. Tudo o que for puro e a priori tem caráter universal.


A tarefa da filosofia consiste em combater as incertezas e falácias nas opiniões filosóficas. Os juízos analíticos são semanticamente verificáveis. Os juízos sintéticos a priori são exatos e precisos. Da experiência é que são extraídos os juízos sintéticos a priori. O transcendental se ocupa de como conhecemos as coisas do mundo. O conhecimento é sensorial e também racional. As impressões passam pelos sentidos e os conceitos pela razão são formulados. Aquilo que sentimos só existe em nós como fenômenos representados pela nossa intuição. É o pensamento que torna o mundo uma coisa possível.


Os conceitos e as intuições puras são elementos do nosso conhecimento a priori das coisas. A intuição é sensível. Os conceitos são inteligíveis. As ideias são os conceitos da razão pura. O múltiplo é conhecido pela nossa intuição que o sintetiza. O entendimento só é alcançado na esfera do conhecimento quando se parte do estudo dos fenômenos. Os conceitos do entendimento são referenciais para as ideias da razão, de modo que estas o sistematiza e unifica, fora dos limites da experiência. As coisas em si não se manifestam no mundo fenomênico, não podemos conhecer coisas assim. As ideias da razão transcendem a linha da experiência. O entendimento legisla sobre os fenômenos físicos. A vontade final da razão é corresponder os objetos às ideias, aplicando a sua legislação sobre os domínios do conhecimento.

sábado, 30 de junho de 2012

Contradições e paradoxos


O que faria Hitler não ser um alemão? Por que as bancarrotas são socializadas e as grandes expansões do capital nos são restritas? O que faria Mussolini ser apaixonado por uma judia? Se o globo do planeta é circular, porque os continentes estão numa hierarquia? O que faria Napoleão não ser francês? Por que os revolucionários do norte – onde a depressão é a lei – se encantam pelas revoluções do sul (onde a repressão predomina)? O que faria Stalin não ser russo? Por que a neve é o símbolo do natal, se Jesus nasceu em um deserto tropical? O que faria um psicopata gostar de saltar de paraquedas sem jamais ter andado de avião? Se INRI Cristo expulsou os mercadores do templo, por que a igreja rendeu tanto lucro? Os paradoxos são contradições, e não são poucos junto ao longo da História. 

Quando estamos fazendo afirmações verdadeiras e acabamos nos contradizendo, estamos sendo paradoxais. Se declararmos que a vontade só alcança o que a mesma não deseja, estamos nos contradizendo. São as contradições que movimentam os paradoxos. São os paradoxos que movimentam as contradições. A poesia é paradoxal, a sociedade é paradoxal, a História é paradoxal, a vida é paradoxal, a arte é paradoxal, a mentira é paradoxal, a política é paradoxal, a desigualdade é paradoxal. Os paradoxos pautam as nossas relações no cotidiano, nos fazem ter certeza de que algo está errado em qualquer coisa que disserem para nós sem fundamentos que se possa averiguar. “Viver é estar morrendo” é uma sentença paradoxal. Nascer para se degradar e depois sucumbir não é também contraditório?

O paradoxo nasceu como palavra no momento em que o Brasil foi oficialmente descoberto, no nascimento do renascimento, em 1500, por entre a Europa e a Ásia. Nesse período áureo para o avanço da ciência e das artes, o paradoxo foi responsável pelo progresso da matemática e da filosofia. O paradoxo é um contra ao pensamento, ele se opõe às formulações sustentáveis dos nossos juízos, altera o que houver de racional quanto aos discursos, anarquiza o status quo do inferir cartesiano, rompe com as perspectivas do certo e do errado, tem o poder de transgredir imposições, não é capaz de limitar-se ao empecilho dos conceitos, pode alcançar lugares nunca antes concebidos, não se restringe ao que for estabelecido, estará sempre procurando um meio de subversão.

A ética também se ocupa dos paradoxos, tanto na questão dos homicídios motivados por amor, quanto nos aspectos dos crimes supressores como o roubo necessário. Os dilemas são contradições e, portanto, são paradoxais. Só se mata por amor quando se odeia. Só se odeia por amor quando se mata. Não se mata aquilo que não se odeia. Só se ama aquilo que jamais se mata. Em um mundo aonde os muitos não tem muito e os poucos não tem pouco, roubar não é errado quando a fome é categórica e os recursos são escassos. Por critério pode ser, mas por princípio não será errôneo o furto. O bem almeja se realizar. O mal deseja que não haja amor. De qualquer modo, justifica-se o roubo quando há desigualdade em demasia e se precisa resistir às intempéries.

Os paradoxos modelam a realidade do modo que bem entenderem, retirando da mesma a lógica incrustada nos discursos da linguagem. Nesse sentido, “não vejo a hora de te ver” é um paradoxo, pois como é que alguém não vê a hora de ver alguém? Pode haver algum sentido sem que haja coerência. Nesse aspecto, o paradoxo é considerado uma figura de linguagem na retórica. Como elemento da oratória, o paradoxo é uma antítese das coisas que fazem sentido. Muito presente na poesia, os escritores se valeram muito dele quando estavam desejando algum efeito de sentido nos poemas promulgados. Luís de Camões foi um deles. Quando escreveu sobre o amor ele foi paradoxal, pois as feridas ardem e o fogo queima, todas as dores doem sejam lá quais elas forem, e não se pode estar bisonho e contente.

 Caio Júlio César Augusto Germânico, insano e perverso imperador romano, afirmou certa vez: “existo desde o início do mundo e existirei até que a última estrela caia dos céus, pois embora tenha tomado esta forma de Caius Calígula, sou todos os homens e ao mesmo tempo nenhum, portanto, sou um deus”. Acreditando possuir o dom da lógica, o príncipe demente proferia estas sentenças que fariam mais poesia que sentido objetivo para o mundo, pois não há quem possa ser tudo e ao mesmo tempo nada ser, nem muito menos existir até o fim de uma estrela, tampouco se pode ser homem e deus ao mesmo instante, sendo possível que se seja ou um ou outro, ou ainda um semideus que faz junção dos dois em um. Os paradoxos linguísticos são as margens de contradição encontradas nas afirmações proferidas.

Os paradoxos podem ser verídicos ou inverídicos ou antinômicos. Nunca podem ser os dois – o que seria outro paradoxo. No primeiro momento, as afirmações contraditórias na sua forma nos levam às conclusões factuais dificilmente discutíveis. No segundo instante, as sentenças nem são todas verdadeiras, nem nos trazem uma conclusão correta, ou seja, as provas extraídas das sentenças são inválidas. No caso das antinomias, quando os argumentos contrapostos aparentam qualquer coisa de verdade e as suas conclusões não tem valor elas nos são mais acessíveis como paradoxais. Na lógica e na filosofia, ao longo da história, os paradoxos ganharam seus espaços junto às muitas discussões desenvolvidas pelos especialistas – o que não foi capaz de resolver cada um deles.

Os paradoxos verídicos podem estar nas ações, poderão se encontrar na epistemologia, na filosofia, na física, na lógica, na matemática, na metafísica e na psicologia. Os números quadrados, para Galileu, não eram muitos, pois eram todos, que eram poucos. Condorcet concebeu que os indivíduos racionais podem tomar atitudes gerais que podem ser irracionais. De acordo com Moore, nós não precisamos acreditar nas verdades que dissermos. Para Epicuro, o bem não é compatível com o mal, e se deus for bom, então ele não poderá poder tudo, inclusive ser mau. Braess argumenta que as coisas acrescentadas por nós em demasia sobre alguma coisa em específico acabam por danificar as funções dessa coisa. Eubulides se questiona quanto ao fato de poder existir alguma verdade nas várias mentiras dos enganadores.

As antinomias possuem um caráter de definição que as torna ambíguas. O Paradoxo de sorites é um exemplo desse postulado. Nele, não encontramos diferença entre grãos de areia que compõem um monte da mesma ao retirá-los desse monte. Existe outro tipo de paradoxo entre estes, que é o condicional. Podemos verificar que as afirmações serão sempre especiais nesse caso, podendo fazer com que esta vivência caia em outro grau de paradoxo. Jevons mencionava que, na economia, quanto mais se tem mais se deseja, e quanto mais se quer, mais se gasta. E outros paradoxos existem, como o de Giffen, que se assemelha pela sua estrutura ao do próprio Jevons, pois afirma que o consumismo sempre exige a produção. Tanto “A volta dos que não foram” quanto “As tranças do rei careca”, bem como “O choro dos insensíveis” são formas de paradoxo.    

Foi em 1901 que Bertrand Russell descobriu seu paradoxo. Nele Russell aponta uma contradição encontrada por si em “As leis fundamentais da aritmética”, da qual poderia derivar o sistema de Frege. Assim Bertrand dirige uma missiva ao matemático alemão comunicando a descoberta. Frege bem recebe as suas considerações, pois publica a descoberta no posfácio do segundo volume de seu livro. Mesmo assim, antes que Frege o fizesse, Russell já houvera feito publicar a descoberta em um dos livros que escrevera intitulado de “Princípios das matemáticas”. Outros autores de menor destaque, porém não de menor importância, já haviam descoberto o paradoxo de Russell, no entanto, jamais o publicaram. Alfred North Whitehead, um dos autores de “Principia Mathematica”, lançou nele a descoberta.

O paradoxo de Russell é importante tanto para a lógica quanto para a filosofia, assim como também na matemática respalda-se. Desde Aristóteles que não consideravam mais autores do interdisciplinar como eles foram conhecidos no momento de escrever o livro deles. Sim, “Principia Mathematica” é uma das obras mais importantes dos filósofos ilustres, sempre recomendado pelos lógicos, matemáticos e pensadores para os que interessados queiram mais aprofundar-se. Filósofo e matemático, Alfred North Whitehead contribuiu para a filosofia da ciência e reforçou as bases dos conceitos matemáticos. Amigo de Russell, Whitehead foi seu sócio na empreitada da escrita, ambos colaboravam um com o outro, com aquilo que sabiam para ter algo mais sólido. 

Bertrand Russel compreende os elementos existentes num conjunto sempre quase fora deles. A base do seu paradoxo é esta: se um elemento de um conjunto a si pertence, ele é seu, e não do conjunto ao qual pertence. Em poucas palavras, Russell fala dos conjuntos cujos elementos não se pertencem a si mesmos.  Nas suas palavras, Bertrand nos fala a respeito do "conjunto de todos os conjuntos que não se contêm a si próprios como membros". Russell quer dizer com isso que por mais desarmônica que sejam as expressões do cotidiano nós podemos excluí-las sem perder nada com isso, assim como podemos inseri-las fora das nossas vivências quando assim bem entendermos, pois a matemática, tal qual pode a lógica, nos emancipa das incertezas e das ambiguidades.




Rio de Janeiro/RJ

De Como conhecer a própria mente


Observamos as ações humanas quando queremos conhecer as previsões das atitudes dos humanos. Podemos fazer isso os escutando, conversando com eles, seguindo os seus passos ou estando junto deles. A facilidade que nós temos de acessar os nossos próprios pensamentos é equivalente à dificuldade que sentimos para entender os outros. É mais possível que estejamos enganados a respeito dos pensamentos alheios do que é provável que estejamos acertando ao entender os pensamentos que nós temos. Para saber o que pensamos não precisamos recorrer à observação, ao passo que para conhecer os pensamentos alheios é no mínimo necessário que nós os observemos. As pretensões dos indivíduos são os fatores de análise que justificam as suas possíveis ações. Os indícios dão sustento às pretensões.

As crenças que nós temos a respeito dos nossos estados de espírito são sempre dubitáveis, nunca podem ser concretas, pois a ambiguidade as permeia o tempo inteiro, de modo que assim sendo as nossas vontades influenciam as nossas concepções e perspectivas – o que não nos isenta de uma ilusão construída pelos desejos que nós temos. A pluralidade das possibilidades que existem para a compreensão dos estados mentais é tão ampla, que a confusão estará presente sempre no entendimento dos atos mentais. Para que as palavras tenham o seu significado, é fundamental que exista uma representação mental de todas elas. Os pensamentos, os sentimentos e as emoções podem ser expressos pelas pessoas através das palavras das mesmas, ou seja, se os estados internos dos indivíduos podem ser comunicados, então os eventos exteriores poderão todos eles ser descritos.

O ceticismo nos ajuda a conhecer as nossas mentes. Na medida em que duvidamos, aguçamos gravemente os raciocínios que nós temos. As palavras que são conhecidas por nós, possuem inúmeros significados, tanto para nós, quanto para os outros, e é por isso que achamos dispersados os possíveis pressupostos do saber conceitual. Os fatores oriundos do externo contaminam as nossas crenças subjetivas e são vários os autores que defendem esta visão, entre eles estão Burge e o Daniel Dennet. Outros autores defendem que os estados psicológicos genuínos nada devem aos fatores que existem na objetividade. Stich e Fodor são defensores dessa perspectiva. O que está sendo discutido é como as pessoas conhecem os seus estados mentais e como os outros conhecem os estados mentais das pessoas. Crenças, desejos e intenções são exemplos de estados mentais. Considerar as impressões do mundo externo como definidoras dos nossos estados mentais nos faz compreender que os nossos pensamentos não podem por nós ser conhecidos. 

Os fatores sociais podem influenciar os estados mentais das pessoas, porém não podem controlar completamente esses estados. As crenças sustentadas pelos indivíduos dependem, em muitos aspectos, de outras crenças que eles tenham, e isso não deve ser desconsiderado. As palavras são afetadas pelo contexto social no qual são proferidas. Quando quer ser compreendido o orador adequa o seu discurso às pessoas que estão a ouvir. Sem isso ninguém vai compreendê-lo. Fala-se aos que nos entendem. Para entender-nos é fundamental que falemos de modo que possam fazê-lo. Se desejarmos ser compreendidos em português pelo professor que analisa um bom trabalho por nós feito, não poderemos entregar pronta a labuta em outra língua, quer seja em francês ou em inglês, quer em alemão ou espanhol. As circunstâncias nas quais são escolhidas as palavras definirão suas significações.  As nossas interpretações das descrições que vem dos outros quase nunca são as mesmas que os mesmos nos disseram.

Um pensamento que pode ser influenciado por entes externos não necessariamente se encontra totalmente na cabeça e para que não se encontre totalmente na cabeça ao pensamento é necessário que os entes externos lhe influenciem de forma direta. Os estados psicológicos são infinitos, porém são todos limitados. Acontecimentos mentais com conteúdos diferentes não podem ser iguais por causa do seu conteúdo. Alguns acontecimentos mentais são de caráter físico, alguns acontecimentos físicos são de caráter mental. Irmãos gêmeos são fisicamente idênticos e diferem no psicológico. A linguagem constrói uma ponte que liga o interior para o exterior. A mente domina os estados internos de si. Os estados externos são forças do mundo e não temos controle mental. Os objetos são incapazes de serem alheios ao mundo sensorial. As ocorrências existenciais dos indivíduos focalizam os usos das palavras por eles.

Rio de Janeiro/RJ

Decifrando a experiência consciente


A experiência consciente possui ao seu redor muitos mistérios que ainda não nos foram desvelados. A consciência é o conhecimento que nós temos próximos a nós mais acessível, e mesmo assim não conseguimos harmonizá-la com os outros saberes que temos. Sabe-se que ela surge dos processos neurais cerebrais, porém não se sabe como isso ocorre. As experiências objetivas, quando somadas às subjetivas, constituem as nossas consciências, formadas essencialmente pelas construções objetivas e externas a si própria, como as nossas sensações dos objetos e os nossos sentimentos sobre as coisas.

O behaviorismo concentrou-se no comportamento como forma de expressão exteriorizada pelos atos do sujeito e pouco ou nada fez para poder analisar outros estados como os subjetivos, existenciais e pessoais de cada um. Antes de se desenvolverem, as ciências cognitivas não eram daquelas que criam na compreensão dos estados internos, pois sendo eles tão subjetivos, nada assegurava que fossem depreendidos pelos moldes do momento. Atualmente, essas concepções se atualizaram e por isso agora temos estudado estes fenômenos mentais na consciência. 


Com a experiência de Mary, não podemos afirmar que os processos mentais em sua totalidade são oriundos das experiências físicas. É obscura a compreensão de como os eventos mentais derivam dos fatos físicos. A consciência é produto do cérebro. Os neurocientistas não mergulham a fundo no estudo dos problemas mais complexos da mente, ficando apenas com aqueles que são simples. Os problemas fáceis se relacionam com o comportamento. Os problemas difíceis estão mais voltados a como se mostra uma experiência concreta em termos de ser consciente. As explicações da consciência não são nem estruturais e nem funcionais. A física apresenta resoluções para o problema das consciências, que por sua vez não deriva das soluções físicas. 

O reducionismo explica a consciência tanto pela neurologia quanto pela psicologia. Embora a neurociência acrescente aos estudos, não é capaz de nos fazer compreender exatamente a natureza dos fenômenos mentais. Consciência é uma palavra de muitos significados. Os problemas fáceis da consciência são aqueles que podem ser considerados quando observamos os aparatos da cognição, ou seja, os cinco sentidos. Qual a relação da consciência com os sentidos é uma base dos problemas simples da consciência. Os problemas difíceis são aqueles nos quais os processos físicos ocasionam mudanças no comportamento e nos estados cerebrais, dando ênfase sobre ao caráter subjetivo da percepção pessoal.

Com a experiência de Mary, não podemos afirmar que os processos mentais em sua totalidade são oriundos das experiências físicas. É obscura a compreensão de como os eventos mentais derivam dos fatos físicos. A consciência é produto do cérebro. Os neurocientistas não mergulham a fundo no estudo dos problemas mais complexos da mente, ficando apenas com aqueles que são simples. Os problemas fáceis se relacionam com o comportamento. Os problemas difíceis estão mais voltados a como se mostra uma experiência concreta em termos de ser consciente. As explicações da consciência não são nem estruturais e nem funcionais. A física apresenta resoluções para o problema das consciências, que por sua vez não deriva das soluções físicas.




Rio de Janeiro/RJ

Sobre Como é ser um morcego


Depreender a consciência na perspectiva da mente e do corpo é quase impossível. As análises deveriam seguir-se de outra maneira, de modo mais inteligível.  Os reducionistas são cientistas modernos analógicos.  Os filósofos explicam o mundo numa terminologia compatível com aquilo que entendem e isso permitiu que o mental fosse entendido de um modo não tão vasto quanto poderia ser.


As experiências conscientes acontecem entre os mais variados níveis de vida animal. Não podemos ter certezas precisas sobre a ocorrência desses fenômenos nos organismos mais simples, como por exemplo, no dos morcegos. Os estados de consciência “são como ser” os organismos em questão no qual ocorrem. As experiências conscientes são subjetivas.


Para entendermos as teorias fisicalistas, nós precisamos inferir o caráter subjetivo da experiência consciente. Se quisermos defender o fisicalismo, precisamos oferecer explicações físicas para os fenômenos em voga. A subjetividade impede que esta explicação seja possível. Os morcegos são bastante diferentes dos humanos, e por isso quando nessa condição nós não podemos perceber como os morcegos.


A nossa subjetividade parece e é diferente da deles (se é que a tem) – ou tem? Apenas os morcegos poderiam responder. Vamos supor que eles tenham. Mesmo procedendo assim não poderemos ter certeza sobre isto. Sabemos da nossa subjetividade, mas da dos morcegos, só eles quem sabem, e se souberem. Não podemos compreender todos os fatos, assim como não somos capazes de representar todos eles. Impossível para nós seres humanos descrever exatamente como é ser um morcego. De qualquer modo, a imaginação é um recurso ilimitado. Cada um desses fatos encerra em si múltiplas particularidades. 


Não podemos saber como é ser um morcego sem sermos morcegos. E como não somos nem podemos sê-los, jamais saberemos. Assim também não poderão eles (os morcegos) saberem como é ser como nós, pois os morcegos não tem consciência sequer de quem são quanto mais do que somos e como.  As nossas experiências partem dos nossos pontos de vista e perspectivas, bem como das nossas escolhas, assim como das nossas ações. Por vezes o reducionismo simplifica os conceitos e acentua a compreensão dos estados mentais.


O que existe fora de nós é a essência do que há dentro de nós, o mundo exterior é um reflexo do nosso interior. Mesmo considerando a existência de um caráter subjetivo nas experiências conscientes, nós não podemos no momento elucidar como isso ocorre. Para o fisicalismo, “os estados mentais são estados corporais, os eventos mentais são eventos físicos”. A mente, para um fisicalista, não está dissociada do corpo sob qualquer circunstância.  Não sabemos exatamente quais estados são quais estados, mas a teoria parte do princípio de que sejam todos eles. Uma teoria não se decora: se aprender, se entende, interpreta-se. 




Rio de Janeiro/RJ

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O que nem Mary sabia de O que não sabia Mary


Mary nasceu, foi criada e cresceu tendo uma educação em preto e branco, tanto os seus livros eram todos nessa cor, quanto os filmes que a Mary assistia eram eles branco e preto. O quarto de Mary era todo preto e branco, e foi assim que das coisas do mundo ela tomou conhecimento. Considerando os fatos que se mostram, Mary conheceu o que podia conhecer e, de acordo com o fisicismo, não existem outros fatos que não sejam fatos físicos. Para estes pensadores, tudo é físico, nada existe que não tenha natureza física. Na perspectiva dos fisicalistas, todos os eventos, sejam eles mentais ou mesmo comportamentais, são em sua natureza fatos físicos.


Somam-se novas experiências a primeira e tiram Mary do seu quarto para que assim o mundo ela enxergue com as cores que ele tem. É por isso que nem tudo ela conhece, pois das cores ela não sabia nada, tinha impressões. O fisicismo, portanto, é falso quando não nos representa o que podemos conhecer no mundo físico, mas apenas o que nós já conhecemos antes disso nesse mundo, quer dizer, as nossas sensações prévias das coisas. É a partir desta ótica que se faz a crítica do conhecimento contra o fisicismo. Em contrapartida, são elaboradas três notas para este discurso, feitas por Paul M. Churchland. 

O primeiro dos argumentos afirma que não se pode imaginar sem antes ter experimentado, que a imaginação é fundamental para haver a sensação, pois sem esta não podemos ter no mundo das ideias uma forma do que foi nas nossas vidas. Afirma-se que a imaginação é contrária ao conhecimento, e que por isso só são partidários dela aqueles do senso comum. A segunda objeção se posiciona sobre a intencionalidade que é desconsiderada pelos moldes fisicalistas no que diz respeito ao conhecimento. Não é de todo perfeito o saber que nós temos além do comum, no nível das ciências, pois as descobertas estão em mudança frequente, o que nos mostra não ser nada permanente esses juízos que são feitos como sendo universais. O terceiro aspecto desses argumentos se dá quando vemos nas experiências alheias o que nós não vemos nas nossas, pois dependendo de como ela tenha sido, nós podemos nos guiar através delas e saber evitar pontos que nos levem para trás. Para os fisicalistas, o que é novo se descobre, pois as coisas sempre mudam. O fisicismo encontra dificuldade em compreender os estados internos dos entes vivos e plurais. 

Churchland objeta que os estados e as propriedades mentais são diferentes das propriedades e dos estados cerebrais. Os conhecimentos na esfera dos estados mentais são descritivos e os saberes encontrados no âmbito das propriedades cerebrais são tácteis. A conclusão do autor é a de que tanto existem coisas das quais a Mary sabe, quanto existem coisas que a Mary não conhece.  O conhecimento que Mary tinha antes de ser libertada não era completo, ele carecia de pontos importantes para ser mais coerente, sendo mais objetivo ao não ter mais completude. Prosseguindo com as suas objeções o autor se certifica de que Mary possuía informação em demasia no primeiro dos seus argumentos, o que lhe garantiu um bom respaldo tanto sobre o dualismo quanto sobre o fisicalismo. O último dos argumentos mostra que o fisicismo é falso, quer venha a partir da imaginação, quer venha através d’outra questão. 




Rio de Janeiro/RJ  

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Dressed garbage


Clothing sewn on pieces of other
Shoes gnawed by visits and trails
The pocket was opened by a rat
Breaking through the bars of jail

domingo, 3 de junho de 2012

As vivências de Bob Sujo


Vou arriar uma trip sem
Dar espaço para o belo
Troquei o pincel e a tinta
Por um martelo
Se liga no drop
Porque senão te sequelo
Pois se o ácido é doce
Ele não é caramelo

Vou mandar um bomb
Para explodir estruturas
Marcando com grafite
É terrorismo às escuras
Cortando altos stencils
Extravaso essa fúria
Na prosa ou na poesia
Desferindo a injúria

Estou nos movimentos
Estendendo esse link
Caindo nos rolés já
Vou curtindo o meu rock
Se é livre o pensamento
Eu digo sim ao skunk
Também sou libertário
Minha galera é a punk

Vou mandar um bomb
Para explodir estruturas
Marcando com grafite
É terrorismo às escuras
Cortando altos stencils
Extravaso essa fúria
Na prosa ou na poesia
Desferindo a injúria

Arte de sabotagem
Conceito Hakim Bey
Poema Molotov
Derruba até o rei
Rumo à revolução
É para onde eu irei
Faze o que tu queres
Esta é a minha lei

Vou mandar um bomb
Para explodir estruturas
Marcando com grafite
É terrorismo às escuras
Cortando altos stencils
Extravaso essa fúria
Na prosa ou na poesia
Desferindo a injúria

Mantenho essa revolta
Com bastante motivo
A vida é uma causa
E é por ela que eu vivo
Não creio na verdade
Pois é tudo relativo
O tempo vai passando
E nada é definitivo

Vou mandar um bomb
Para explodir estruturas
Marcando com grafite
É terrorismo às escuras
Cortando altos stencils
Extravaso essa fúria
Na prosa ou na poesia
Desferindo a injúria

De street na pracinha
Eu botei fé no skate
De bike na avenida
Eu malparei no combate
Surfando com os tutus
Não fiz com eles debate
Também na faculdade
O meu curriculum late

Vou mandar um bomb
Para explodir estruturas
Marcando com grafite
É terrorismo às escuras
Cortando altos stencils
Extravaso essa fúria
Na prosa ou na poesia
Desferindo a injúria

Sem ter medo da morte
Eu me atiro às estradas
Duvido das distâncias
Quero mais alcançá-las
Não só nos prédios altos
Passo pelas quebradas
Respeito a todo mundo
É parte das minhas falas

Vou mandar um bomb
Para explodir estruturas
Marcando com grafite
É terrorismo às escuras
Cortando altos stencils
Extravaso essa fúria
Na prosa ou na poesia
Desferindo a injúria




(...)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sobre o Discurso da servidão voluntária, de Etienne La Boétie

No início do seu manuscrito, Etienne La Boetie menciona Homero em uma fala de Ulisses, e subverte a perspectiva da expressão para um contexto libertário, perdoando o herói grego por ter cometido algum erro em favor dos demais, ele sugere, com conhecimento de causa, que qualquer dominação não será boa para todos, de modo que constitui a finalidade dos homens não ser governado, embora para ele exista neles o desejo de servirem, não será bom para o geral ser dominado por alguém.

Em seguida o pensador da liberdade já critica a monarquia, comparando-a ao modelo de uma república, duvidando que exista alguma coisa vantajosa sob o jugo dos monarcas. No entanto não prossegue nessa crítica, continuando a escrever sobre os seus tópicos, La Boetie nos faz pensar sobre o que faz nos coagir ao aceitar imposições de governantes escolhidos pela nossa própria conta, afirmando que podemos ser mais fortes do que isso, sendo capazes, por conseguinte, de a nós representarmos sem alguém na nossa frente.

Aproximando-se do argumento platônico do anel de Gyges, onde é demonstrado que o poder corrompe o homem, Etienne se questiona sobre o porquê de nós humanos escolhermos algum de nós para reger as nossas vidas conscientes de que isso não será bom para nós, considerando que o poder que nós cedemos para alguém que nos governa é nocivo quando contra nós se volta. Para o filósofo francês, se o tirano proceder dessa maneira para com os seus vassalos, ele vacila e se arrisca a decair da posição que ocupava quando o povo o escolheu.

Não obstante ao seu discurso libertário, prossegue o humanista de Sarlat na prosa fulgurante do seu texto, e nos diz ele que podemos pelo nosso próprio cômputo, nos tornar livres sem temer risco nenhum de represálias, nos atirando sobre a nossa autonomia, e arrancando dos tiranos os poderes que um dia nós cedemos para eles. Postula Etienne que a liberdade é o nosso maior bem e que por isso não podemos nós temer recuperá-la sobre a custa do que for caso a percamos.

O tirano é opressivo e repressor, domina as funções orgânicas dos corpos que controla a seu favor, tem o poder de destruir qualquer um deles se quiser, e aproveita-se dos mesmos quando quer. A sugestão elaborada por La Boetie para a abolição da servidão voluntária consiste em suprimir gradualmente a autoridade do tirano até o fim, para que ele não mais possa ter poder sobre ninguém, visto que a servidão para nenhum pode ser boa, o pensador está dizendo que devemos estar sempre a defender a liberdade, aonde a força do costume é o fundamento que nos prende ao cativeiro.

É nisso que consiste a “vitória da liberdade sobre a dominação”, a superação do poder soberano pela emancipação, a transgressão do status quo pela revolução, a livre escolha que fazemos pondo um fim na servidão. E é aqui que a força entra como parte essencial da tirania sobre todos, pois quando ameaçados, é a ela que os tiranos recorrem para se defenderem, pondo em evidência o seu caráter dominante e repressivo sobre as massas oprimidas. O grande temor dos tiranos se baseia, assim sendo, no medo das massas do povo que está revoltado com ele, de modo que o despótico está sempre em posição de defender-se contra todos os possíveis elementos em oposição a ele, alienando de todas as formas o povo, para que dessa maneira ele não se rebele e retome o poder popular.

Depreende-se no final das contas que a tirania é um momento de fraqueza dos seres humanos, que permitindo dominar-se por alguém não podem eles estar bem consigo mesmos, de sorte que doravante é essencial para nós sermos livres e viver as nossas vidas plenamente sem temores. Etienne nos ensina que jamais será partido o povo unido, que ninguém pode partir, portanto, o povo que se une; e que, contra todos, ninguém pode se voltar sem a certeza de perder o seu poder para com eles e consigo no final do seu domínio ir à ruína.

Para o pensador, é fundamental que se lute pela liberdade, por melhores condições de igualdade, por justiça e equidade de direitos, por autonomia sem nenhuma restrição, pois os tiranos só percebem o que é bom para eles próprios, ignorando as necessidades do povo e construindo para si um universo de vantagens, sem dar vez e também voz aos oprimidos. Conclui-se da compreensão filosófica de O contra um, que La Boetie é um pensador da transgressão, que a sua filosofia é libertária e emancipatória, e que ele é um dos nomes importantes, de maneira que por isso é necessário conhecê-lo, pois o seu pensamento nos dá luzes sobre como sermos livres.

Nietzsche x Copa do mundo

A dominação está pautada nos momentos da História desde a sua antiguidade. Os sumérios foram dominados pelos assírios, que por sua vez, foram ambos coagidos pelos babilônicos. Os assírios, tão reconhecidos pela sua crueldade, foram vencidos pelos medos e caldeus. Subjugados pelos egípcios foram os feníncios e hebreus, sendo os nilopolitas desbravados pelos hicsos.

Como se tem notado, não é novidade a visão de mundo através dos parâmetros dos senhores e escravos, da sua relação com as figuras do dominante e dominado - o que se estende para o medievo (com os vassalos e os suseranos), para a modernidade (com a burguesia e o proletariado) e para a contemporaneidade (com as suas classes médias).

O sentido amplo desta observação poderá ser reduzido às particularidades do nosso cotidiano, aonde sempre vemos os poderosos sobrepujando os mais humildes, segregando a humanidade entre os grandes e pequenos. Quem percebeu a influência da História sobre as relações de dominação foi Hegel, porém quem politizadamente apropriou-se dos conceitos precedentes foi Karl Marx.

Marx entendia que o processo progressivo da História - sob clara influência de Hegel - era um movimento dialético que acontecia através dessas lutas de classes. A essa doutrina ele mesmo deu o nome de materialismo histórico, afirmando que as transformações sociais possuiam bases materiais, ou seja, para ele, a economia de uma sociedade era o fator fundamental para as mudanças dentro dela.

Contudo, o que nos interessa mesmo aqui é a obra de Nietzsche, A genealogia da moral, na qual nos irá ele identificar os pressupostos sobre os quais se fundamenta os seus valores filosóficos, pensamentos e ideias formulados sobre escravos e senhores, perspectivas a respeito de uma provável subversão dessas virtudes pelo fraco em detrimento do que é forte, em síntese: o que é bom e o que é mau, não é o bem nem é o mal, mas é o que foi distorcido para ser dessa maneira.

Como assim? De acordo com o filólogo, boas eram as virtudes do guerreiro, sendo valores que provinham da coragem, da audácia, da virilidade, da robustez e da resistência, contrariamente a inversão que se fez deles pelos fracos sacerdotes, que envenenaram com o seu ressentimento essas virtudes transformando elas em más, enfatizando que as mesmas deveriam ser perdidas, para a fraqueza ser com eles uma arma de domínio.

A casta sacerdotal não está muito distante da nossa classe política, ambas as categorias possuem coisas em comum, pois os políticos corruptos detestam a força do povo, capaz de tirá-los dos seus gabinetes, utilizando em seus discursos elementos que almejam limitá-la, eles vão longe ao dominar com seus ardis os mais apáticos, persuadindo que não deve nenhum deles rebelar-se. De fato a força assusta mesmo o fraco, que necessita utilizar outros recursos de maneira a não ser mais vítima dela, o que nos leva aos mecanismos do escravo mediante o seu senhor submetido. Em poucas palavras: a piedade dos fortes é o desejo e a força dos fracos.

Na atualidade, aqui e agora, nós visualizamos as relações de dominação na sociedade, especificamente nesta cidade: com as obras para a copa em andamento, muitas pessoas perderão as suas casas, o que trará muita revolta para todas as famílias, e as fará reivindicar os seus direitos garantidos pela constituição, que estão sendo violados. Com fome ou sem casa, uma coisa é certa: todos irão perder com isso se ficarem sem fazer alguma coisa, não respondendo à mesma altura aos detentores do poder, legitimará o povo os promotores da miséria.

Portanto, o que Nietzsche quer nos dizer, é que nós precisamos ser senhores de si mesmos, donas da nossa existência e das condições da mesma, pois é com autonomia que se conquista a liberdade, não é fugindo e se escondendo que nós vamos ser ouvidos, e é por isso que à força interior de cada um é necessário fazer parte do conjunto de valores que nós temos esquecido, para que assim nem sejam mais os dominados dominantes, nem sejam mais os dominantes dominados, sendo capazes todos nós de ter a força de ação para ser livres.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Hematografia

 

"Oh cólera! E que importa? Não há por hora vida o bastante nas veias do homem? Não borbulha a febre ainda nas ondas do vinho? Não reluz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?"

Álvares de Azevedo

 

Na obra de Nietzsche, Zarathustra aprecia a escrita que é feita com o sangue, afirmando que o sangue é a matéria do espírito, o que por consequência nos demonstra que o espírito, para Nietzsche - do mesmo modo que revela o seu profeta Zarathustra, quando em sua fala concebeu deus feito homem - possuia uma substância corporal, que nem o sangue em nossos corpos.

 

A escrita é um dos meios que existem para a disseminação da cultura ocorrer e o sangue é o veículo da peste, tanto para Artaud quanto na semiologia. Para Nietzsche, em Zarathustra, o leitor não é o foco da escrita, sendo escritor o que não faz nada por ele (pelo leitor), mas sim por si quando ele escreve. Suicidados da sociedade foram os filósofos malditos e Zarathustra é rechaçado pelo povo, que não o compreende e zomba dele, exigindo o seu retorno à solidão.

 

As excreções do escritor, ao longo da obra de Artaud, são tão importantes quanto o sangue para Nietzsche. Não são poucas as referências que o ator faz sobre elas. Constantes são as imagens de bubões efervescentes; frequentes são as efígies de feridas pestilentas; repetidos são os retratos de baba na sua obra; incansáveis  são as menções ao sangue nas suas linhas; habituais são as figuras repulsivas de excremento; numerosas são as alusões à urina, ao suor e ao esperma, como por exemplo, em Heliógabalo.

 

O fluxo de sangue é o devir nos nossos corpos, não sendo eterno ele retorna até a morte, de sorte que para Nietzsche, este fluxo figura o eterno retorno. Na perspectiva do filósofo de Röcken, o sangue imprime as marcas da superação do tempo, sinais não esquecidos e portanto fixados, de maneira que em síntese é preciso sangrar muito, pois as hemáximas se coagulam nas memórias humanas, assim como seria inesquecível estar subindo um grande pico. As máximas dos hematógrafos, para Nietzsche em Zarathustra, são atalhos pelo caminho do processo de emancipação da humanidade em relação aos seus valores e costumes mais arcaicos.

 

O Marquês de Sade, durante as prisões e internamentos que consumiram 40 anos das suas seis décadas de vida, não hesitou em escrever - quando impedido pelos seus psiquiatras e reprimido pelos seus torturadores de o fazer -  com o próprio sangue os pensamentos que mantinha enquanto preso: Sade é uma quebra da metáfora do sangue para Nietzsche, trazendo para a literalidade uma atitude transgressiva para com as velharias.

 

Os riscos se harmonizam com a suavidade e equilibram-se, enquanto o espírito os cumes mais altos transpassa; destemido e construindo hematomáximas ele prossegue e sorri dos fantasmas. Para Nietzsche, nós não sentimos igualmente as mesmas coisas e por isso é que o sangue não é fácil de inferir, de forma que muitas vezes, o escritor quando ortografa, ou o faz para si mesmo ou para todos, porém só alguns ele atinge - aqueles que são mais detidos ou mais ociosos.

 

O alto dos cumes é a superfície do céu e é por isso que Zarathustra, quando pretende se elevar, mergulha os olhos nas profundezas dos cimos, pois o homem é o sentido da terra, e Zarathustra é o verdugo do além-mundo, de modo que se volta para o mundo quando quer profundidade. De cima das montanhas não estamos sobre os homens? Por esse motivo o überomem vem do alto.

 

Para Zarathustra - assim escreveu Nietzsche - a sabedoria é a mulher dos guerreiros e, assim sendo, os quer livres do fardo pesaroso do niilismo, que só pode ser superado pela robustez, e não pela delicadeza aceitos como o peso sobre as costas dos jumentos e camelos. Na sua ótica, Zarathustra advoga que o amor existe pelo hábito que temos de amar, na vida porém não à própria vida, o que para ele se figura essencial se construir - caso contrário uma loucura assim seria. Nos fala o profeta, que nós temos a razão de amar a vida, assim como uma loucura de amar também na vida. Zarathustra nos quer livres para amar as nossas vidas.

 

Para Nietzsche, em Zarathustra, o espírito do sangue é leve e a nós não preocupa, diferente do espírito de peso,  que é grave e nos atrasa pelo fato de pesar nas nossas vidas. O espírito da gravidade é o niilismo negativo que reduz a vida ao nada, e o espírito do sangue é a vontade de potência manifesta na vontade de viver. 

 

A ausência desse pesar que o riso nos traz é a formula profética para banir o demônio nietzscheano do espírito de peso e, portanto, é assim que nos tornamos graciosos e insanos, capazes de voar por sobre os cumes das montanhas e correr para subi-las, dançando como deuses divertidos sobre a terra.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Politicultura

Longas garras de concreto

Sangram os céus

Das raízes para as folhas

Com os olhos de ultrassom

Escaneando as estruturas verticais

 

E quanto a jornada pelos vapores

Espaçonaves ao caminho estão unidas

Sobre os orbes e para as urbes

É insalubre essa pressa dos passos

 

Com termos escassos

Em mundos dispersos

Os dardos lançados

No centro dos discos

Estão ancorados

Na decoração que restou nesses versos

 

Reversos reveses

Por vezes inversos mas não adversos

Desejos distintos porém adjuntos

 

Conjunto universo:

Universo em conjunto!

 

São Paulo/SP

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Frias lástimas

Assolação do nordeste
As serras elevadas e os riachos correndo por
Entre espinhos e rosas
A janela do busão
Uma nuvem passageira de fora do busão
"A lembrança no branco de uma página"
E nas fendas pelo chão
Cai do céu as frias lástimas

Vitória da conquista/BA

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A solidão em Augusto dos Anjos



Vinícius de Moraes, em parceria com Baden Powell, compôs, em 1966, o disco “Afro-sambas”, do qual retiro uma questão bem afirmada, com a qual darei start ao meu trabalho: quanta tristeza cabe em uma solidão? Pensar como teve início e como foi desenvolvida esta temática da solidão na poesia do paraibano Augusto dos Anjos, consiste em desvendar um labirinto de mistérios referente à sua vida e para com a sua obra, pois o conceito se estende ao longo dela até o fim, sendo importante distinguir o que foi obra e o que foi vida, aquilo que foi obra da vida, e também o que da vida se fez obra, visto que o tema está presente sempre em ambos os contextos. Voltarei as minhas lentes para a dimensão estética da experiência literária do poeta, fazendo recortes biográficos auxiliares à minha pesquisa, de modo que dessa maneira não faltem detalhes esclarecedores a todos, bem como os devidos cuidados que são necessários à compreensão desta obra. 


Para Tom Zé, em “Estudando o samba”, numa canção chamada Só (solidão), de 1976 – uma década depois de Baden Powell com Vinícius me fazerem refletir a cerca disso atualmente –, “na vida quem perde o telhado, em troca recebe as estrelas”. Ora, Augusto perdeu o telhado na vida, sofreu pela morte do pai adorado, viu a derrocada da sua família, ao filho morto dedicou o seu soneto, a fome veio ao seu estômago no Rio de Janeiro, as saudades dos parentes aumentavam, o fracasso perseguia o seu sucesso, desempregado advogado graduado, poucas vezes foi feliz como poeta, e quando estável se fazia lecionando, em Leopoldina a morte veio ao bacharel debilitado. Nesse caos terreno de oscilações constantes, inserido em um maelstrom de ambivalências existenciais frequentes, muitas vezes o poeta do Pau D’ Arco quis rasgar as próprias vestes, libertar-se do seu corpo, se tornar imperecível como os astros imortais na sua luz, deliberando pela noite as suas queixas derradeiras.    

Um aspecto importante da ênfase dada à solidão na poesia de Augusto dos Anjos repousa sobre os monólogos da sua grande obra, nos e pelos solilóquios do seu alfarrábio selvagem, “Eu”, partindo do solipsismo hiperbólico de crassos devaneios delirantes da linguagem propriamente original que concebeu a uma poética da criatividade melancólica engendrada pelo cânone. O seu único livro – que de tão próprio se chama “Eu” – nos traz em seu começo, no poema de abertura, um solilóquio, intitulado de “Monólogo de uma sombra”. Se a sombra pressupõe um caminhante, a influência da obra de Nietzsche em Augusto dos Anjos será importante e também evidente – pois o filósofo escreveu um dos seus livros com o título de “O viajante e sua sombra”. Além do que, um soneto de outros poemas esquecidos é dedicado ao pensador e, sendo assim, é manifesto que Augusto o conheceu, mesmo tendo escrito em vigorosa oposição ao pensamento intempestivo do filósofo germânico.

Na escala das linhas de "Eu", a solidão é capaz – quando adjunta aos germes amórficos – de extrair das goelas caninas o ladrido sobre as suas desoladas amplitudes. Continuamente, quando a sina fazia o poeta teimar, apenas os bandidos pela noite nas tavernas, enquanto arquitetavam seus delitos, escutavam suas falas sem destino, compartilhadas pela sua voz interna. Em conexão com o contexto temático, o solitário só encontra o seu asilo ao esconder-se atrás das lápides, na imobilidade da natura já sem vida, de fronte para uma porta que não há quem tenha a chave. Segue-se ainda que, na humildade da loucura, é a escolha do insano ficar só, sem dizer nada, reconhecendo que possui limitações. Navegando pelos mares do oriente o capitão está sozinho, em busca da Ilha de Cipango. E qual é a companhia dos insones  senão as sombras e a própria isolação que traz a noite, as estrelas e quem sabe o plenilúnio, os cometas e os passáros noturnos? A solidão é importante para os versos de Augusto e ao longo do seu livro a encontramos muitas vezes.


O eu é único e entre o nós está. O nós é composto por vários eus. São muitos, pois, os eus de “Eu”. Único livro de Augusto dos Anjos, nós não podemos afirmar que essa era a intenção que ele tinha. Por hora, detenhamo-nos aos fatos, e não às hipóteses. O eu poético de Augusto – quando consideramos a temática angustiante de estilo exacerbado nos seus versos – tem um caráter existencial e expressionista. Poeta pouco ovacionado em sua vida de três décadas, o bacharel em direito que saiu da Paraíba se tornou original, assimilando a modernidade e delineando o parnasianismo com o cinzel do simbolismo. O que existe de Augusto no seu livro é aquilo que nos livros existia para ele, ou seja: a imparcialidade para com as emoções, o isolamento decorrente da distância, o sentimento de um pessimismo trágico, a obsessão pela putrefação dos poetas malditos, o afastamento de um mundo degradável e a consolidação de um monismo panteísta. Em outras palavras, mesmo que muitos fatores de suma importância vital do poeta no “Eu” se encontrem, também existem várias outras citações de referência atribuídas a distintos outros eus na sua obra.


A noite nasce quando o dia morre e as suas sombras nos trazem a perda da luz. É uma morte natural a desta luz, como a da estrela que se apaga e que se transforma em um buraco negro. Porém a luz não é capaz de ser notada sem a sombra. Tampouco as trevas se permitem perceber sem claridade. Assim sendo, na poesia de Augusto, a solidão que a noite traz é deprimente, até que o dia venha ela parece ser eterna, trancando o eu poético na jaula aterradora dos seus monstros. No vazio da cidade o pensador sozinho pensa, de modo que o maior dos seus poemas tem início dessa forma: é independente das vozes do dia no mundo que a prosódia de “Os doentes” é composta pela pena hematográfica de Augusto. Quanto ao “Poeta do hediondo”, a estética grotesca que acompanha as poesias de “Eu”, insere Augusto na seara dos horríveis, detestáveis e feiosos, o que, por consequência, lhe torna um homem quase sempre solitário, pois dos feios, de acordo com Bukowski, em A mulher mais linda da cidade, só se aproxima quem sentir afinidade, e não quem for movido a interesses, como aqueles que só vivem por renome ou por status.      


Alceu Valença, em seu disco "Mágico", de 1984, retratou, tão magistralmente quanto Augusto, a solidão em uma canção de mesmo nome. Para ele, "A solidão é fera. A solidão devora". Para Augusto, "O homem, que, nesta terra miserável, mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera". Alceu continua e acentua o parentesco que existe entre o tempo e a própria solidão, afirmando que os relógios ela atrasa, causando dessa forma uma desordem no seu âmago. Não obstante, para Augusto dos Anjos, nas suas "Queixas noturnas", o coração é um "relógio trágico que marca todos os atos da tragédia humana". O compositor pernambucano se estende enquanto amplia o sentimento de estar só para as estrelas, para a lua, para a noite e para a rua. O que na obra de Augusto é o endereço "dos destinos desgraçados", onde as "tristezas de um quarto-minguante" se concretizam, deixando minguante no quarto quem só se lamenta.




Paulinho da Viola, no seu disco “A dança da solidão”, de 1972, compôs uma canção homônima, para assim vivenciar musicalmente estar sozinho. Na sua composição, ele nos mostra uma resposta para a pergunta inicial outrora feita, e nos diz que a tristeza estando em uma solidão é oriunda de uma desilusão. Augusto dos Anjos, influenciado pelo budismo de Schopenhauer, não via o mundo com prazer, mas sim com dor e com pesar, portanto se desiludiu. Além do que, não via ele a força viva da justiça – pela qual tanto lutou na faculdade de direito, em Recife –, prevalecer sobre os canalhas desse mundo, o conduzido a uma luta contra todos, sem ter amparo, pela sua própria conta. Se o Hércules tombou ou não no caos, é fato objetivo e concreto que os mecanismos da sua poesia possuem a força de atravessar os séculos, de modo que os convido a uma dança pelos ermos dos seus versos, posto que seja dançando que nós expressamos de maneira vertical um sentimento horizontal, e a poesia em suas linhas se exprime desse modo: vertical na estrutura, horizontal por entre os versos.    

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Contribuições ao Distúrbio eletrônico



1868/1869

Je suis sale. Les poux me rongent. Les pourceaux, quand ils me regardent, vomissent. Les croûtes et les escarres de la lèpre ont écaillé ma peau, couverte de pus jaunâtre. Je ne connais pas l'eau des fleuves, ni la rosée des nuages. Sur ma nuque, comme sur un fumier, pousse un énorme champignon, aux pédoncules ombellifères. Assis sur un meuble informe, je n'ai pas bougé mes membres depuis quatre siècles. Mes pieds ont pris racine dans le sol et composent, jusqu'à mon ventre, une sorte de végétation vivace, remplie d'ignobles parasites, qui ne dérive pas encore de la plante, et qui n'est plus de la chair. Cependant mon coeur bat.

Estou sujo. Os piolhos me roem. Os porcos, quando olham para mim, vomitam. As crostas e os escarros da lepra escamaram a minha pele, coberta de um pus amarelado. Não conheço a água dos rios nem o orvalho das nuvens. Na minha nuca, como que sobre um monte de esterco, cresce um enorme cogumelo, com seus pendúnculos umbelíferos. Sentado em um móvel disforme, faz quatro séculos que não mexo os meus membros. Meus pés fixaram raízes no chão e formam, até a altura do meu ventre, uma espécie de vegetação viva, repleta de ignóbeis parasitas, que ainda não derivam da planta, embora não seja mais carne. Todavia, meu coração bate.

2012
Estou só. Minhas pálpebras doem. Os livros, quando os tomo da estante, falam. As horas de trabalho mental me esgotam quando fico atordoado. Não conheço os prazeres das festas nem os carinhos humanos. Nas gavetas e nos móveis, assim como pelo meu quarto, proliferam as teorias, com as suas contradições. Sentado estou na minha escrivaninha, dormindo sobre as pilhas de papéis estou ficando curvado. Digito com tamanha obsessão, que componho toda a decomposição, trazendo para o mundo o que devia ser banido, de sorte que doravante a minha voz é absurda. Apesar de tudo, essa jornada não termina.