quinta-feira, 3 de maio de 2012

A solidão em Augusto dos Anjos



Vinícius de Moraes, em parceria com Baden Powell, compôs, em 1966, o disco “Afro-sambas”, do qual retiro uma questão bem afirmada, com a qual darei start ao meu trabalho: quanta tristeza cabe em uma solidão? Pensar como teve início e como foi desenvolvida esta temática da solidão na poesia do paraibano Augusto dos Anjos, consiste em desvendar um labirinto de mistérios referente à sua vida e para com a sua obra, pois o conceito se estende ao longo dela até o fim, sendo importante distinguir o que foi obra e o que foi vida, aquilo que foi obra da vida, e também o que da vida se fez obra, visto que o tema está presente sempre em ambos os contextos. Voltarei as minhas lentes para a dimensão estética da experiência literária do poeta, fazendo recortes biográficos auxiliares à minha pesquisa, de modo que dessa maneira não faltem detalhes esclarecedores a todos, bem como os devidos cuidados que são necessários à compreensão desta obra. 


Para Tom Zé, em “Estudando o samba”, numa canção chamada Só (solidão), de 1976 – uma década depois de Baden Powell com Vinícius me fazerem refletir a cerca disso atualmente –, “na vida quem perde o telhado, em troca recebe as estrelas”. Ora, Augusto perdeu o telhado na vida, sofreu pela morte do pai adorado, viu a derrocada da sua família, ao filho morto dedicou o seu soneto, a fome veio ao seu estômago no Rio de Janeiro, as saudades dos parentes aumentavam, o fracasso perseguia o seu sucesso, desempregado advogado graduado, poucas vezes foi feliz como poeta, e quando estável se fazia lecionando, em Leopoldina a morte veio ao bacharel debilitado. Nesse caos terreno de oscilações constantes, inserido em um maelstrom de ambivalências existenciais frequentes, muitas vezes o poeta do Pau D’ Arco quis rasgar as próprias vestes, libertar-se do seu corpo, se tornar imperecível como os astros imortais na sua luz, deliberando pela noite as suas queixas derradeiras.    

Um aspecto importante da ênfase dada à solidão na poesia de Augusto dos Anjos repousa sobre os monólogos da sua grande obra, nos e pelos solilóquios do seu alfarrábio selvagem, “Eu”, partindo do solipsismo hiperbólico de crassos devaneios delirantes da linguagem propriamente original que concebeu a uma poética da criatividade melancólica engendrada pelo cânone. O seu único livro – que de tão próprio se chama “Eu” – nos traz em seu começo, no poema de abertura, um solilóquio, intitulado de “Monólogo de uma sombra”. Se a sombra pressupõe um caminhante, a influência da obra de Nietzsche em Augusto dos Anjos será importante e também evidente – pois o filósofo escreveu um dos seus livros com o título de “O viajante e sua sombra”. Além do que, um soneto de outros poemas esquecidos é dedicado ao pensador e, sendo assim, é manifesto que Augusto o conheceu, mesmo tendo escrito em vigorosa oposição ao pensamento intempestivo do filósofo germânico.

Na escala das linhas de "Eu", a solidão é capaz – quando adjunta aos germes amórficos – de extrair das goelas caninas o ladrido sobre as suas desoladas amplitudes. Continuamente, quando a sina fazia o poeta teimar, apenas os bandidos pela noite nas tavernas, enquanto arquitetavam seus delitos, escutavam suas falas sem destino, compartilhadas pela sua voz interna. Em conexão com o contexto temático, o solitário só encontra o seu asilo ao esconder-se atrás das lápides, na imobilidade da natura já sem vida, de fronte para uma porta que não há quem tenha a chave. Segue-se ainda que, na humildade da loucura, é a escolha do insano ficar só, sem dizer nada, reconhecendo que possui limitações. Navegando pelos mares do oriente o capitão está sozinho, em busca da Ilha de Cipango. E qual é a companhia dos insones  senão as sombras e a própria isolação que traz a noite, as estrelas e quem sabe o plenilúnio, os cometas e os passáros noturnos? A solidão é importante para os versos de Augusto e ao longo do seu livro a encontramos muitas vezes.


O eu é único e entre o nós está. O nós é composto por vários eus. São muitos, pois, os eus de “Eu”. Único livro de Augusto dos Anjos, nós não podemos afirmar que essa era a intenção que ele tinha. Por hora, detenhamo-nos aos fatos, e não às hipóteses. O eu poético de Augusto – quando consideramos a temática angustiante de estilo exacerbado nos seus versos – tem um caráter existencial e expressionista. Poeta pouco ovacionado em sua vida de três décadas, o bacharel em direito que saiu da Paraíba se tornou original, assimilando a modernidade e delineando o parnasianismo com o cinzel do simbolismo. O que existe de Augusto no seu livro é aquilo que nos livros existia para ele, ou seja: a imparcialidade para com as emoções, o isolamento decorrente da distância, o sentimento de um pessimismo trágico, a obsessão pela putrefação dos poetas malditos, o afastamento de um mundo degradável e a consolidação de um monismo panteísta. Em outras palavras, mesmo que muitos fatores de suma importância vital do poeta no “Eu” se encontrem, também existem várias outras citações de referência atribuídas a distintos outros eus na sua obra.


A noite nasce quando o dia morre e as suas sombras nos trazem a perda da luz. É uma morte natural a desta luz, como a da estrela que se apaga e que se transforma em um buraco negro. Porém a luz não é capaz de ser notada sem a sombra. Tampouco as trevas se permitem perceber sem claridade. Assim sendo, na poesia de Augusto, a solidão que a noite traz é deprimente, até que o dia venha ela parece ser eterna, trancando o eu poético na jaula aterradora dos seus monstros. No vazio da cidade o pensador sozinho pensa, de modo que o maior dos seus poemas tem início dessa forma: é independente das vozes do dia no mundo que a prosódia de “Os doentes” é composta pela pena hematográfica de Augusto. Quanto ao “Poeta do hediondo”, a estética grotesca que acompanha as poesias de “Eu”, insere Augusto na seara dos horríveis, detestáveis e feiosos, o que, por consequência, lhe torna um homem quase sempre solitário, pois dos feios, de acordo com Bukowski, em A mulher mais linda da cidade, só se aproxima quem sentir afinidade, e não quem for movido a interesses, como aqueles que só vivem por renome ou por status.      


Alceu Valença, em seu disco "Mágico", de 1984, retratou, tão magistralmente quanto Augusto, a solidão em uma canção de mesmo nome. Para ele, "A solidão é fera. A solidão devora". Para Augusto, "O homem, que, nesta terra miserável, mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera". Alceu continua e acentua o parentesco que existe entre o tempo e a própria solidão, afirmando que os relógios ela atrasa, causando dessa forma uma desordem no seu âmago. Não obstante, para Augusto dos Anjos, nas suas "Queixas noturnas", o coração é um "relógio trágico que marca todos os atos da tragédia humana". O compositor pernambucano se estende enquanto amplia o sentimento de estar só para as estrelas, para a lua, para a noite e para a rua. O que na obra de Augusto é o endereço "dos destinos desgraçados", onde as "tristezas de um quarto-minguante" se concretizam, deixando minguante no quarto quem só se lamenta.




Paulinho da Viola, no seu disco “A dança da solidão”, de 1972, compôs uma canção homônima, para assim vivenciar musicalmente estar sozinho. Na sua composição, ele nos mostra uma resposta para a pergunta inicial outrora feita, e nos diz que a tristeza estando em uma solidão é oriunda de uma desilusão. Augusto dos Anjos, influenciado pelo budismo de Schopenhauer, não via o mundo com prazer, mas sim com dor e com pesar, portanto se desiludiu. Além do que, não via ele a força viva da justiça – pela qual tanto lutou na faculdade de direito, em Recife –, prevalecer sobre os canalhas desse mundo, o conduzido a uma luta contra todos, sem ter amparo, pela sua própria conta. Se o Hércules tombou ou não no caos, é fato objetivo e concreto que os mecanismos da sua poesia possuem a força de atravessar os séculos, de modo que os convido a uma dança pelos ermos dos seus versos, posto que seja dançando que nós expressamos de maneira vertical um sentimento horizontal, e a poesia em suas linhas se exprime desse modo: vertical na estrutura, horizontal por entre os versos.    

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