segunda-feira, 28 de maio de 2012

Hematografia

 

"Oh cólera! E que importa? Não há por hora vida o bastante nas veias do homem? Não borbulha a febre ainda nas ondas do vinho? Não reluz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?"

Álvares de Azevedo

 

Na obra de Nietzsche, Zarathustra aprecia a escrita que é feita com o sangue, afirmando que o sangue é a matéria do espírito, o que por consequência nos demonstra que o espírito, para Nietzsche - do mesmo modo que revela o seu profeta Zarathustra, quando em sua fala concebeu deus feito homem - possuia uma substância corporal, que nem o sangue em nossos corpos.

 

A escrita é um dos meios que existem para a disseminação da cultura ocorrer e o sangue é o veículo da peste, tanto para Artaud quanto na semiologia. Para Nietzsche, em Zarathustra, o leitor não é o foco da escrita, sendo escritor o que não faz nada por ele (pelo leitor), mas sim por si quando ele escreve. Suicidados da sociedade foram os filósofos malditos e Zarathustra é rechaçado pelo povo, que não o compreende e zomba dele, exigindo o seu retorno à solidão.

 

As excreções do escritor, ao longo da obra de Artaud, são tão importantes quanto o sangue para Nietzsche. Não são poucas as referências que o ator faz sobre elas. Constantes são as imagens de bubões efervescentes; frequentes são as efígies de feridas pestilentas; repetidos são os retratos de baba na sua obra; incansáveis  são as menções ao sangue nas suas linhas; habituais são as figuras repulsivas de excremento; numerosas são as alusões à urina, ao suor e ao esperma, como por exemplo, em Heliógabalo.

 

O fluxo de sangue é o devir nos nossos corpos, não sendo eterno ele retorna até a morte, de sorte que para Nietzsche, este fluxo figura o eterno retorno. Na perspectiva do filósofo de Röcken, o sangue imprime as marcas da superação do tempo, sinais não esquecidos e portanto fixados, de maneira que em síntese é preciso sangrar muito, pois as hemáximas se coagulam nas memórias humanas, assim como seria inesquecível estar subindo um grande pico. As máximas dos hematógrafos, para Nietzsche em Zarathustra, são atalhos pelo caminho do processo de emancipação da humanidade em relação aos seus valores e costumes mais arcaicos.

 

O Marquês de Sade, durante as prisões e internamentos que consumiram 40 anos das suas seis décadas de vida, não hesitou em escrever - quando impedido pelos seus psiquiatras e reprimido pelos seus torturadores de o fazer -  com o próprio sangue os pensamentos que mantinha enquanto preso: Sade é uma quebra da metáfora do sangue para Nietzsche, trazendo para a literalidade uma atitude transgressiva para com as velharias.

 

Os riscos se harmonizam com a suavidade e equilibram-se, enquanto o espírito os cumes mais altos transpassa; destemido e construindo hematomáximas ele prossegue e sorri dos fantasmas. Para Nietzsche, nós não sentimos igualmente as mesmas coisas e por isso é que o sangue não é fácil de inferir, de forma que muitas vezes, o escritor quando ortografa, ou o faz para si mesmo ou para todos, porém só alguns ele atinge - aqueles que são mais detidos ou mais ociosos.

 

O alto dos cumes é a superfície do céu e é por isso que Zarathustra, quando pretende se elevar, mergulha os olhos nas profundezas dos cimos, pois o homem é o sentido da terra, e Zarathustra é o verdugo do além-mundo, de modo que se volta para o mundo quando quer profundidade. De cima das montanhas não estamos sobre os homens? Por esse motivo o überomem vem do alto.

 

Para Zarathustra - assim escreveu Nietzsche - a sabedoria é a mulher dos guerreiros e, assim sendo, os quer livres do fardo pesaroso do niilismo, que só pode ser superado pela robustez, e não pela delicadeza aceitos como o peso sobre as costas dos jumentos e camelos. Na sua ótica, Zarathustra advoga que o amor existe pelo hábito que temos de amar, na vida porém não à própria vida, o que para ele se figura essencial se construir - caso contrário uma loucura assim seria. Nos fala o profeta, que nós temos a razão de amar a vida, assim como uma loucura de amar também na vida. Zarathustra nos quer livres para amar as nossas vidas.

 

Para Nietzsche, em Zarathustra, o espírito do sangue é leve e a nós não preocupa, diferente do espírito de peso,  que é grave e nos atrasa pelo fato de pesar nas nossas vidas. O espírito da gravidade é o niilismo negativo que reduz a vida ao nada, e o espírito do sangue é a vontade de potência manifesta na vontade de viver. 

 

A ausência desse pesar que o riso nos traz é a formula profética para banir o demônio nietzscheano do espírito de peso e, portanto, é assim que nos tornamos graciosos e insanos, capazes de voar por sobre os cumes das montanhas e correr para subi-las, dançando como deuses divertidos sobre a terra.

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