terça-feira, 29 de maio de 2012

Sobre o Discurso da servidão voluntária, de Etienne La Boétie

No início do seu manuscrito, Etienne La Boetie menciona Homero em uma fala de Ulisses, e subverte a perspectiva da expressão para um contexto libertário, perdoando o herói grego por ter cometido algum erro em favor dos demais, ele sugere, com conhecimento de causa, que qualquer dominação não será boa para todos, de modo que constitui a finalidade dos homens não ser governado, embora para ele exista neles o desejo de servirem, não será bom para o geral ser dominado por alguém.

Em seguida o pensador da liberdade já critica a monarquia, comparando-a ao modelo de uma república, duvidando que exista alguma coisa vantajosa sob o jugo dos monarcas. No entanto não prossegue nessa crítica, continuando a escrever sobre os seus tópicos, La Boetie nos faz pensar sobre o que faz nos coagir ao aceitar imposições de governantes escolhidos pela nossa própria conta, afirmando que podemos ser mais fortes do que isso, sendo capazes, por conseguinte, de a nós representarmos sem alguém na nossa frente.

Aproximando-se do argumento platônico do anel de Gyges, onde é demonstrado que o poder corrompe o homem, Etienne se questiona sobre o porquê de nós humanos escolhermos algum de nós para reger as nossas vidas conscientes de que isso não será bom para nós, considerando que o poder que nós cedemos para alguém que nos governa é nocivo quando contra nós se volta. Para o filósofo francês, se o tirano proceder dessa maneira para com os seus vassalos, ele vacila e se arrisca a decair da posição que ocupava quando o povo o escolheu.

Não obstante ao seu discurso libertário, prossegue o humanista de Sarlat na prosa fulgurante do seu texto, e nos diz ele que podemos pelo nosso próprio cômputo, nos tornar livres sem temer risco nenhum de represálias, nos atirando sobre a nossa autonomia, e arrancando dos tiranos os poderes que um dia nós cedemos para eles. Postula Etienne que a liberdade é o nosso maior bem e que por isso não podemos nós temer recuperá-la sobre a custa do que for caso a percamos.

O tirano é opressivo e repressor, domina as funções orgânicas dos corpos que controla a seu favor, tem o poder de destruir qualquer um deles se quiser, e aproveita-se dos mesmos quando quer. A sugestão elaborada por La Boetie para a abolição da servidão voluntária consiste em suprimir gradualmente a autoridade do tirano até o fim, para que ele não mais possa ter poder sobre ninguém, visto que a servidão para nenhum pode ser boa, o pensador está dizendo que devemos estar sempre a defender a liberdade, aonde a força do costume é o fundamento que nos prende ao cativeiro.

É nisso que consiste a “vitória da liberdade sobre a dominação”, a superação do poder soberano pela emancipação, a transgressão do status quo pela revolução, a livre escolha que fazemos pondo um fim na servidão. E é aqui que a força entra como parte essencial da tirania sobre todos, pois quando ameaçados, é a ela que os tiranos recorrem para se defenderem, pondo em evidência o seu caráter dominante e repressivo sobre as massas oprimidas. O grande temor dos tiranos se baseia, assim sendo, no medo das massas do povo que está revoltado com ele, de modo que o despótico está sempre em posição de defender-se contra todos os possíveis elementos em oposição a ele, alienando de todas as formas o povo, para que dessa maneira ele não se rebele e retome o poder popular.

Depreende-se no final das contas que a tirania é um momento de fraqueza dos seres humanos, que permitindo dominar-se por alguém não podem eles estar bem consigo mesmos, de sorte que doravante é essencial para nós sermos livres e viver as nossas vidas plenamente sem temores. Etienne nos ensina que jamais será partido o povo unido, que ninguém pode partir, portanto, o povo que se une; e que, contra todos, ninguém pode se voltar sem a certeza de perder o seu poder para com eles e consigo no final do seu domínio ir à ruína.

Para o pensador, é fundamental que se lute pela liberdade, por melhores condições de igualdade, por justiça e equidade de direitos, por autonomia sem nenhuma restrição, pois os tiranos só percebem o que é bom para eles próprios, ignorando as necessidades do povo e construindo para si um universo de vantagens, sem dar vez e também voz aos oprimidos. Conclui-se da compreensão filosófica de O contra um, que La Boetie é um pensador da transgressão, que a sua filosofia é libertária e emancipatória, e que ele é um dos nomes importantes, de maneira que por isso é necessário conhecê-lo, pois o seu pensamento nos dá luzes sobre como sermos livres.

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