quinta-feira, 26 de abril de 2012

Contribuições ao Distúrbio eletrônico



1868/1869

Je suis sale. Les poux me rongent. Les pourceaux, quand ils me regardent, vomissent. Les croûtes et les escarres de la lèpre ont écaillé ma peau, couverte de pus jaunâtre. Je ne connais pas l'eau des fleuves, ni la rosée des nuages. Sur ma nuque, comme sur un fumier, pousse un énorme champignon, aux pédoncules ombellifères. Assis sur un meuble informe, je n'ai pas bougé mes membres depuis quatre siècles. Mes pieds ont pris racine dans le sol et composent, jusqu'à mon ventre, une sorte de végétation vivace, remplie d'ignobles parasites, qui ne dérive pas encore de la plante, et qui n'est plus de la chair. Cependant mon coeur bat.

Estou sujo. Os piolhos me roem. Os porcos, quando olham para mim, vomitam. As crostas e os escarros da lepra escamaram a minha pele, coberta de um pus amarelado. Não conheço a água dos rios nem o orvalho das nuvens. Na minha nuca, como que sobre um monte de esterco, cresce um enorme cogumelo, com seus pendúnculos umbelíferos. Sentado em um móvel disforme, faz quatro séculos que não mexo os meus membros. Meus pés fixaram raízes no chão e formam, até a altura do meu ventre, uma espécie de vegetação viva, repleta de ignóbeis parasitas, que ainda não derivam da planta, embora não seja mais carne. Todavia, meu coração bate.

2012
Estou só. Minhas pálpebras doem. Os livros, quando os tomo da estante, falam. As horas de trabalho mental me esgotam quando fico atordoado. Não conheço os prazeres das festas nem os carinhos humanos. Nas gavetas e nos móveis, assim como pelo meu quarto, proliferam as teorias, com as suas contradições. Sentado estou na minha escrivaninha, dormindo sobre as pilhas de papéis estou ficando curvado. Digito com tamanha obsessão, que componho toda a decomposição, trazendo para o mundo o que devia ser banido, de sorte que doravante a minha voz é absurda. Apesar de tudo, essa jornada não termina.

2 comentários:

  1. Caramba velho, não é a primeira vez que as suas palavras me tiram o fôlego. Sou muito feliz por ter te conhecido; Aprendo muito com a sua presença. A primeira coisa que aprendi contigo foi perder o medo de criar. Percebi através de você a beleza de se ressignificar constantemente, além do valor da disciplina e persistência. Eu realmente espero que possamos ser amigos por muito tempo, você vai conseguir tudo o que almeja.

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    1. Rebequerida! A sua bondade constantemente me impressiona. Saber que tenho a sua amizade é para mim um grande orgulho, pois a sua inteligência muitas vezes me comove - o que me faz sentir-se bem ao conversarmos sobre tudo. Eu com você também aprendo, compartilhamos aquilo que nós podemos, porquanto sabemos o que conhecemos. Você me fez ter percebido que existe ainda em mim algo de bom, é maravilhoso olhar o mundo e percebê-lo diferente, com matizes radiantes de um novo amanhecer que vem surgindo. Saiba que se eu vou chegar longe, você vai além e bem mais. Tenho estado muito melhor depois da sua companhia e agradeço pelas considerações.

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