Laplatine argumenta, ao introduzir a antropologia no contexto das ciências sociais, que com a descoberta do novo mundo e com a difusão dos ideais renascentistas, os espaços desconhecidos começam a serem pensados e são discutidos. Para ele, no século XIV era comum divagar sobre se os selvagens tinham ou não possuíam almas. No século XVI essa questão foi resolvida, não tão bem quanto poderia, pois alguns teóricos da época atribuíram aos selvagens à ignorância e a barbárie. Em contrapartida, alguns sensatos pensadores recusaram-se a estranhar dessa maneira o novo mundo e entenderam que havia diferenças entre eles, sem que estas tenham sido negativas como foram postuladas pelos mais etnocêntricos. Sepulvera, um jurista espanhol, foi um defensor dessa primeira posição. Para ele, os índios eram selvagens por não serem como ele, e por esse motivo deveriam ser comandados pelos mais civilizados. Discordando de sua teoria, Bartolomé de las Casas, um teólogo, também espanhol e estudioso dos índios, afirmava que estas sociedades possuíam a sua própria organização, sendo capazes de por si mesmas serem mais bem sucedidas e melhores do que estas que nós temos. Com as suas teses, ambos teorizaram sobre o mau e sobre o bom selvagem.
As diferenças reacionárias e impositivas do velho mundo exerceram uma influência etnocida e devastadora sobre as culturas recém-descobertas pelas grandes navegações, o que levou diversos dados valiosos para o lixo e apagou parte importante do que hoje poderia ser história. Os índios foram forçosamente introduzidos aos novos costumes pelos invasores e por eles massacrados, pois estes estavam munidos de instrumentos bélicos mais sofisticados do que os dos autóctones, e assim subjugaram todos eles pelas armas, deixando apenas a vergonha para o tempo: com tudo isso muitos se suicidaram!
Desejando sobrepor sempre a Europa aos demais continentes, os missionários sanguinários perverteram os costumes dos indígenas, estupraram as ninfas morenas nos matos e rios, impuseram suas crenças às demais - desrespeitando as diferenças naturais das etnias -, torturaram brutalmente os muitos índios não conversos, corromperam a maneira organizada de viver em harmonia, exploraram as riquezas e os filhos deste solo, abusaram cruelmente das crianças e dos velhos, acabaram produzindo muitas mortes e fizeram sua história apodrecer com isso tudo. Ora, o selvagem não é o avesso do civilizado, pois o seu modo de vida constitui um estilo de civilização diferenciado dos nossos modelos. As culturas que não são antropofágicas são etnocêntricas e as culturas que são etnocêntricas são etnocidas. As culturas que não são etnocidas são antropofágicas e as culturas que são antropofágicas não são etnocêntricas. Hegel e Rousseau, influenciados pelo pensamento dos ignorantes e civilizados ocidentais em sua época, excluíram os selvagens da crítica da história. Hegel foi um racista por menosprezar os negros e Rousseau foi um otário quando quis civilizá-los, posto que as comunidades primitivas tenham sido anárquicas e organizadas, pois sem governo e sem Estado, mantinham a sua estrutura.
Exibidos enjaulados pelas feiras e espetacularizados pelo circo, muitos selvagens foram sempre maltratados e bem pouco contemplados como poderiam ser: com isso a civilização do velho mundo se mostrou mais bestial do que as novas descobertas. Cristovão Colombo e Américo Vespúcio foram mais elogiosos e menos preconceituosos ao falarem sobre os índios nos relatos que fizeram. Montaigne afirmou que a civilização dos índios existia ao modo deles e que aqueles que as consideravam bárbaras só poderiam fazer isso com a justificativa da razão não ser usada, isto é, entre eles os processos racionais que nem os nossos não existem, pois são aplicados de maneiras diferentes pelo grupo. Além disso, ele pensou que o indianismo era o nosso estado primordial que fora perdido e depois encontrado, considerando as atitudes memoráveis desses índios e os atos detestáveis feitos pelos invasores.
Obcecados pelas riquezas e por bens materiais, os europeus dizimaram as populações indígenas pela ânsia de lucros e renda, sendo infelizes sem aquilo que é bom e destruindo para terem os espólios econômicos no cofre. Enquanto isso, os índios e selvagens não estavam nem aí, gozando a vida plenamente e sem garrotes, distantes de culparem qualquer um na natureza pelos males oriundos do além mar, pois sua terra era a riqueza partilhada e coletiva sem ter donos, o que os dava a liberdade retirada pelos povos parasitas. Contra o barbarismo ocidental todo discurso é atual se coerente. As comunidades primitivas são mais solidárias do que as racionais, não são tão egoístas e não querem sempre mais, não devem, portanto, ser tão marginais. A etnologia é um remédio contra esses preconceitos sociais e culturais e pró-civilizacionais, de modo que sem a pesquisa etnológica, muitos diversos selvagens seriam ainda tachados de bichos e poucos dos civilizados teriam o status de monstro.
quinta-feira, 15 de março de 2012
A aurora da ciência antropológica
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