domingo, 25 de março de 2012

A organização da aparência para Raoul Vaneigem em A arte de viver para as novas gerações

Raoul Vaneigem, em seu livro A arte de viver para as novas gerações, ao discorrer sobre os desdobramentos artísticos, culturais, econômicos, estéticos, éticos, filosóficos, midiáticos, morais, poéticos e políticos da contracultura no século XX, argumenta que a salvaguarda sistemática dos acontecimentos é realizada pela uniformidade exteriorizada para a "organização da aparência". Para ele, os fatos são apresentados para a coletividade de um modo abastardado e adulterado, alterado e contrafeito, corrompido e degenerado, deturpado e falsificado, distorcido e viciado pelas mãos imundas e os pelos dedos sujos dos senhores da autoridade e promotores do espetáculo, na intenção de que dos olhos duvidemos e creiamos nas mentiras propagadas pelos seus dispositivos. Nessa perspectiva, o devir libertário se subleva para contestar as coerências tanto míticas quanto espetaculares, transformando o espetáculo em uma incoerência histórica e o mito em contradição. O vir a ser fabrica significados e suprime as incertezas; partindo com os fragmentos para a unidade e fracionando a unidade em incalculáveis pedaços dispersos, o devir tudo transforma, submetendo aos seus critérios de mudança as forças opostas à transformação.

Para Nietzsche, nenhum ideal é verdadeiro e a luta contra a mentira deve ser uma constante. Vaneigem assegura que a difusão do ideal tem sustentado as nossas classes dominantes. A força da mentira tem ganhando muito espaço e ampliado os horizontes pelo meio social. A sedução que os seus mecanismos tem exercido sobre a sociedade é tamanha, que o discurso dos poderosos está pautado nas suas linhas, entrelinhas, sublinhas e sobrelinhas pelas suas influências perniciosas e pestilentas, direcionando a humanidade pelos seus falsos caminhos e fazendo enveredar a liberdade para o cativeiro da estupidez. Para o filósofo e escritor, é a mentira que fundamenta a exploração, é a falsidade que legitima a dominação, é a hipocrisia que justifica a alienação, é o fingimento que dá sustento à especulação, é o interesse individual dos governantes que não mostra ao mundo como eles são. O senso comum é um banquete de ilusões compartilhado pela fome da rés gregária. A moral dos escravos é a conduta sequiosa dos ressentidos. Ser autêntico consiste em não ser subordinado ao quimerismo dos prestidigitadores, posto que as alienações são perecíveis através da resistência consciente e superadas a partir das consciências resistentes. Para Vaneigem, nós precisamos dar adeus para o que não for verdadeiro, ao estender qualquer instante genuíno, e encerrarmos a mentira no sepulcro da história.

A decomposição do mito, para Raoul Vaneigem, acelera a putrefação da carcaça do materialismo - processo no qual a burguesia são os vermes do cadáver e a médiocracia são as larvas do defunto. Os matadores de deus, de acordo com o situacionista, serão seus próprios assassinos no próximo cataclismo do sistema capitalista. Segundo ele, para tentarem se livrar do esmagamento pelo rolo compressor da história, as classes dominantes pretendem estabelecer os papéis teatrais como partes do cotidiano - não contingentes, mas essenciais -, empobrecendo cada vez mais a realidade e organizando de maneira mais humana as aparências, domesticando sorrateiramente os indivíduos aos seus modos, e docilizando a sociedade para os seus desígneos. O espetáculo é o mito escalpelado e a comédia é o ponto de interseção de uma tragédia para o drama. Para Vaneigem, a introdução das aparências na história foi estimulada pela burguesia para dar continuidade ao seu projeto de dominação e a revolução que foi um meio para ela de chegar aonde está, será o medo visceral e o terror primordial que ela tem de sucumbir e perecer. O devir libertário enfraquece a coerência do mito e a incoerência do espetáculo, fazendo-as oscilar constantemente para os seus lados opostos, ou seja, os padrões são subvertidos e o mito da coerência é estabelecido, bem como o espetáculo da incoerência é insituído.

Conforme A arte de viver, os juízos teoréticos se opõem à criatividade e organizam hierarquicamente o desempenho dos papéis instituídos pelas autoridades, sejam elas acadêmicas, artísticas, científicas, culturais, filosóficas, literárias ou políticas. Nada pode estar contido no cabedal dos conhecimentos seguros sem que antes passe pela censura dos especialistas. Muitos peritos são tão reacionários, que não admitem as mudanças e transformações no sagrado saber que decretam, defendendo o rococó e combatendo toda coadunação inovadora. O devir literal-libertário, para as novas gerações, consiste em um rompimento com esses obstáculos através da implementação do pensamento independente, insubmisso e emancipado, capaz de produzir sem restrições a expansão do singular e construir a liberdade irrefutável da reflexão. De acordo com Vaneigem, quando os papéis se dissolvem, a realidade é bem melhor compreendida e também experimentada, pois o que a depauperava é fatalmente consumido e aquilo que devia estar oculto é desvelado para os olhos e ouvidos da revolta dirigida contra as forças do sistema dominante que conduz o pensamento pela uniformidade que aliena.

A análise dos acontecimentos, para Raoul Vaneigem, coloca a coerência do mito no painel de fuzilamento e aciona instantaneamente as metralhadoras. Os cartuchos espalhados pelo chão, depois da carnificina, são as aparências brutalmente assassinadas pela crítica das armas da crítica. A sinfonia dos ossos fraturados é a marcha fúnebre do cortejo das imagens indevidamente usadas pelos servos do poder, e o coral das respirações ofegantes são os últimos suspiros da miséria dos escravos. Os eflúvios deletérios dos restos mortais do massacre aos papéis se espalham pela atmosfera, denunciando que a decomposição do espetáculo, depois do incêndio no circo, se tornará o espetáculo da decomposição. Ao fim de tudo, as bombas de efeito moral não conduzirão a consciência de mais ninguém, as balas de borracha apagarão a sua história de repressão, com sprays de pimenta serão temperados os pratos das festas, os cassetetes serão os carvões na fogueira da celebração, e a lógica do consumo, que é o sustentáculo basilar do sistema capitalista, contemplará a sua própria derrocada e desmoronará sob os explosivos e sob os molotovs da revolução.

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