sábado, 30 de junho de 2012

Contradições e paradoxos


O que faria Hitler não ser um alemão? Por que as bancarrotas são socializadas e as grandes expansões do capital nos são restritas? O que faria Mussolini ser apaixonado por uma judia? Se o globo do planeta é circular, porque os continentes estão numa hierarquia? O que faria Napoleão não ser francês? Por que os revolucionários do norte – onde a depressão é a lei – se encantam pelas revoluções do sul (onde a repressão predomina)? O que faria Stalin não ser russo? Por que a neve é o símbolo do natal, se Jesus nasceu em um deserto tropical? O que faria um psicopata gostar de saltar de paraquedas sem jamais ter andado de avião? Se INRI Cristo expulsou os mercadores do templo, por que a igreja rendeu tanto lucro? Os paradoxos são contradições, e não são poucos junto ao longo da História. 

Quando estamos fazendo afirmações verdadeiras e acabamos nos contradizendo, estamos sendo paradoxais. Se declararmos que a vontade só alcança o que a mesma não deseja, estamos nos contradizendo. São as contradições que movimentam os paradoxos. São os paradoxos que movimentam as contradições. A poesia é paradoxal, a sociedade é paradoxal, a História é paradoxal, a vida é paradoxal, a arte é paradoxal, a mentira é paradoxal, a política é paradoxal, a desigualdade é paradoxal. Os paradoxos pautam as nossas relações no cotidiano, nos fazem ter certeza de que algo está errado em qualquer coisa que disserem para nós sem fundamentos que se possa averiguar. “Viver é estar morrendo” é uma sentença paradoxal. Nascer para se degradar e depois sucumbir não é também contraditório?

O paradoxo nasceu como palavra no momento em que o Brasil foi oficialmente descoberto, no nascimento do renascimento, em 1500, por entre a Europa e a Ásia. Nesse período áureo para o avanço da ciência e das artes, o paradoxo foi responsável pelo progresso da matemática e da filosofia. O paradoxo é um contra ao pensamento, ele se opõe às formulações sustentáveis dos nossos juízos, altera o que houver de racional quanto aos discursos, anarquiza o status quo do inferir cartesiano, rompe com as perspectivas do certo e do errado, tem o poder de transgredir imposições, não é capaz de limitar-se ao empecilho dos conceitos, pode alcançar lugares nunca antes concebidos, não se restringe ao que for estabelecido, estará sempre procurando um meio de subversão.

A ética também se ocupa dos paradoxos, tanto na questão dos homicídios motivados por amor, quanto nos aspectos dos crimes supressores como o roubo necessário. Os dilemas são contradições e, portanto, são paradoxais. Só se mata por amor quando se odeia. Só se odeia por amor quando se mata. Não se mata aquilo que não se odeia. Só se ama aquilo que jamais se mata. Em um mundo aonde os muitos não tem muito e os poucos não tem pouco, roubar não é errado quando a fome é categórica e os recursos são escassos. Por critério pode ser, mas por princípio não será errôneo o furto. O bem almeja se realizar. O mal deseja que não haja amor. De qualquer modo, justifica-se o roubo quando há desigualdade em demasia e se precisa resistir às intempéries.

Os paradoxos modelam a realidade do modo que bem entenderem, retirando da mesma a lógica incrustada nos discursos da linguagem. Nesse sentido, “não vejo a hora de te ver” é um paradoxo, pois como é que alguém não vê a hora de ver alguém? Pode haver algum sentido sem que haja coerência. Nesse aspecto, o paradoxo é considerado uma figura de linguagem na retórica. Como elemento da oratória, o paradoxo é uma antítese das coisas que fazem sentido. Muito presente na poesia, os escritores se valeram muito dele quando estavam desejando algum efeito de sentido nos poemas promulgados. Luís de Camões foi um deles. Quando escreveu sobre o amor ele foi paradoxal, pois as feridas ardem e o fogo queima, todas as dores doem sejam lá quais elas forem, e não se pode estar bisonho e contente.

 Caio Júlio César Augusto Germânico, insano e perverso imperador romano, afirmou certa vez: “existo desde o início do mundo e existirei até que a última estrela caia dos céus, pois embora tenha tomado esta forma de Caius Calígula, sou todos os homens e ao mesmo tempo nenhum, portanto, sou um deus”. Acreditando possuir o dom da lógica, o príncipe demente proferia estas sentenças que fariam mais poesia que sentido objetivo para o mundo, pois não há quem possa ser tudo e ao mesmo tempo nada ser, nem muito menos existir até o fim de uma estrela, tampouco se pode ser homem e deus ao mesmo instante, sendo possível que se seja ou um ou outro, ou ainda um semideus que faz junção dos dois em um. Os paradoxos linguísticos são as margens de contradição encontradas nas afirmações proferidas.

Os paradoxos podem ser verídicos ou inverídicos ou antinômicos. Nunca podem ser os dois – o que seria outro paradoxo. No primeiro momento, as afirmações contraditórias na sua forma nos levam às conclusões factuais dificilmente discutíveis. No segundo instante, as sentenças nem são todas verdadeiras, nem nos trazem uma conclusão correta, ou seja, as provas extraídas das sentenças são inválidas. No caso das antinomias, quando os argumentos contrapostos aparentam qualquer coisa de verdade e as suas conclusões não tem valor elas nos são mais acessíveis como paradoxais. Na lógica e na filosofia, ao longo da história, os paradoxos ganharam seus espaços junto às muitas discussões desenvolvidas pelos especialistas – o que não foi capaz de resolver cada um deles.

Os paradoxos verídicos podem estar nas ações, poderão se encontrar na epistemologia, na filosofia, na física, na lógica, na matemática, na metafísica e na psicologia. Os números quadrados, para Galileu, não eram muitos, pois eram todos, que eram poucos. Condorcet concebeu que os indivíduos racionais podem tomar atitudes gerais que podem ser irracionais. De acordo com Moore, nós não precisamos acreditar nas verdades que dissermos. Para Epicuro, o bem não é compatível com o mal, e se deus for bom, então ele não poderá poder tudo, inclusive ser mau. Braess argumenta que as coisas acrescentadas por nós em demasia sobre alguma coisa em específico acabam por danificar as funções dessa coisa. Eubulides se questiona quanto ao fato de poder existir alguma verdade nas várias mentiras dos enganadores.

As antinomias possuem um caráter de definição que as torna ambíguas. O Paradoxo de sorites é um exemplo desse postulado. Nele, não encontramos diferença entre grãos de areia que compõem um monte da mesma ao retirá-los desse monte. Existe outro tipo de paradoxo entre estes, que é o condicional. Podemos verificar que as afirmações serão sempre especiais nesse caso, podendo fazer com que esta vivência caia em outro grau de paradoxo. Jevons mencionava que, na economia, quanto mais se tem mais se deseja, e quanto mais se quer, mais se gasta. E outros paradoxos existem, como o de Giffen, que se assemelha pela sua estrutura ao do próprio Jevons, pois afirma que o consumismo sempre exige a produção. Tanto “A volta dos que não foram” quanto “As tranças do rei careca”, bem como “O choro dos insensíveis” são formas de paradoxo.    

Foi em 1901 que Bertrand Russell descobriu seu paradoxo. Nele Russell aponta uma contradição encontrada por si em “As leis fundamentais da aritmética”, da qual poderia derivar o sistema de Frege. Assim Bertrand dirige uma missiva ao matemático alemão comunicando a descoberta. Frege bem recebe as suas considerações, pois publica a descoberta no posfácio do segundo volume de seu livro. Mesmo assim, antes que Frege o fizesse, Russell já houvera feito publicar a descoberta em um dos livros que escrevera intitulado de “Princípios das matemáticas”. Outros autores de menor destaque, porém não de menor importância, já haviam descoberto o paradoxo de Russell, no entanto, jamais o publicaram. Alfred North Whitehead, um dos autores de “Principia Mathematica”, lançou nele a descoberta.

O paradoxo de Russell é importante tanto para a lógica quanto para a filosofia, assim como também na matemática respalda-se. Desde Aristóteles que não consideravam mais autores do interdisciplinar como eles foram conhecidos no momento de escrever o livro deles. Sim, “Principia Mathematica” é uma das obras mais importantes dos filósofos ilustres, sempre recomendado pelos lógicos, matemáticos e pensadores para os que interessados queiram mais aprofundar-se. Filósofo e matemático, Alfred North Whitehead contribuiu para a filosofia da ciência e reforçou as bases dos conceitos matemáticos. Amigo de Russell, Whitehead foi seu sócio na empreitada da escrita, ambos colaboravam um com o outro, com aquilo que sabiam para ter algo mais sólido. 

Bertrand Russel compreende os elementos existentes num conjunto sempre quase fora deles. A base do seu paradoxo é esta: se um elemento de um conjunto a si pertence, ele é seu, e não do conjunto ao qual pertence. Em poucas palavras, Russell fala dos conjuntos cujos elementos não se pertencem a si mesmos.  Nas suas palavras, Bertrand nos fala a respeito do "conjunto de todos os conjuntos que não se contêm a si próprios como membros". Russell quer dizer com isso que por mais desarmônica que sejam as expressões do cotidiano nós podemos excluí-las sem perder nada com isso, assim como podemos inseri-las fora das nossas vivências quando assim bem entendermos, pois a matemática, tal qual pode a lógica, nos emancipa das incertezas e das ambiguidades.




Rio de Janeiro/RJ

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