quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral III

A metáfora, é a perene criação de “criaturas liquefeitas”; e a potência vital em consequência da arte que se cria, é o elemento de extratificação constante como o rio de Heráclito, no qual duas vezes não entramos nas mesmas águas. Assim, a “sobriedade da ciência” é contrariada pela fluência selvagem e indomável do pensamento imagético sobre as águas da intuição que mais se assemelham ao vinho dos festins dionisíacos, do que à limpidez dos sólidos conceitos do rigor mortis cartesiano. Nas palavras de Nietzsche, consiste em quebrar os limites a arte quando “o intelecto que se tornou livre” choca-se no fluxo contra as “metáforas proibidas” nas “pedras limites da abstração”, o que, por conseguinte, ocasiona a construção e em seguida a justaposição dos “arranjos inéditos de conceitos”, dando vida e movimento a substância autônoma do devir, que é feito para Nietzsche o pensamento produtivo no sentido filosófico, e numa atitude de “recusa” ao que ele denomina de “indigência”, dilacera com o seu pensamento transgressor a “teia conceitual” em numerosos pedaços de sedas diversas chamadas por nós de metáforas: nessa perspectiva, portanto, Nietzsche determina a arte em ação da maneira que a compreende.

Nenhuma das compreensões nietzscheanas afirma que seja a ciência menos produtiva do que a arte ou confirma que seja a arte menos produtiva do que a ciência; aqui as considerações se referem, enfaticamente, a equânime capacidade formuladora e criativa que ambos os conceitos possuem, cada qual do seu modo e à sua maneira visando os seus fins. Aquilo que é concreto, no âmbito do pensamento nietzscheano, não tem como objetivo ou distração “enganar os homens em todas as formas”, ou seja, a ciência tem como foco discursivo, para Nietzsche, o esclarecimento das imagens nebulosas do artista pensador conceitual fomentador em um porvir antes de ser. Se enganar consiste, pois, em perceber as aparências e entendê-las como são: desconfiáveis ou às vezes muito próximas do que não incluímos na esfera dos conceitos, o que converte, para Nietzsche, “o homem racional em inartístico”. Em síntese, quando se refere Nietzsche ao “domínio da arte sobre a vida”, ele enfatiza a importância de que esta deveria adquirir sobre a razão soberania, de maneira que a arte se transforme na vontade de potência convertida na atitude transgressora em relação ao dogmático e sistêmico racionalismo do método científico.

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