terça-feira, 24 de abril de 2012

Meditações metafísicas (II & VI)


A segunda meditação cartesiana trata da maior facilidade que se tem através do método para se conhecer as faculdades do espírito do que aquilo que é próprio do corpo. Não é por acaso que a meditação discutida é intitulada “Da natureza do espírito humano; e de como ele é mais fácil de conhecer do que o corpo”. Para encontrar algo que não seja duvidoso, ou seja, verdadeiro, Descartes duvidará de tudo aquilo que se por na sua frente, pois através das dúvidas constantes, ele pretende ir ao encontro da certeza permanente. 

Para Descartes, a certeza ela é indubitável e, por conseguinte, verdadeira e sem mentiras, ela é certa e verdadeira. A dúvida cartesiana é abrangente e se amplia sobre todas as esferas do possível. Todavia, o verdadeiro para Descartes é o provável. No seu raciocínio, espírito para ele é o pensamento, é o entendimento, a razão, a compreensão e é também a consciência. Sobre a natureza do espírito é possível afirmar que ele existe, bem como nós podemos definir o que é ele. A primeira certeza alcançada na meditação - da qual suas outras se seguem - é a certeza de penser (pensar e ser), ou seja, é a certeza de existir, quer dizer, é através do pensamento que se pode ter certeza sobre aquilo que se é, mas só enquanto se pensar que ser assim é existir.

Enquanto nós pensarmos que somos alguma coisa, seremos alguma coisa enquanto nós pensarmos – segundo Descartes. Os pensamentos, para ele, originavam-se no seu espírito por ímpeto da própria natureza. Na perspectiva do seu pensamento, as expressões em ação nos nossos corpos refletem os desejos na nossa alma que, para ele, não tem uma forma concreta, palpável e táctil, sendo, para a imaginação do pensador, uma névoa sutil, distribuída pelas partes do nosso corpo para fortificá-lo, para vitalizá-lo, para fortalecê-lo e para vivificá-lo. 

Para aquele que discutiu o método, o corpo seria não só tudo aquilo que por uma figura fosse limitado, mas também seria o corpo qualquer coisa que ocupasse algum espaço nos lugares (ou algum lugar no espaço), e ainda ele seria o nosso meio de habitar e existir no mundo externo da objetividade. O corpo, nas Meditações metafísicas, é o senso que nós temos do mundo, ao passo que as escolhas e as expressões, a liberdade e as suas restrições, são as características da alma. 

O Eu, na filosofia cartesiana, não é corporal, porém habita os nossos corpos, de modo que a experiência da alma é a vida no corpo, visto que sem a alma o corpo não sente e sem o desejo desta de saciar alguma fome, o corpo não come. Para Descartes, o pensamento é o sustentáculo do espírito. Pensar, de acordo com aquele que medita, é existir no momento em que se pensa, pois quando nós pensamos, segundo ele, nós ativamos o espírito, a razão e o entendimento de si mesmos.

Para Descartes, as sensações são aparentes, ou seja, é possível que as mesmas sejam falsas e, sendo ele um filósofo da consciência, procura também saber o que ele está e aonde ele é, ou melhor, o que ele é e onde ele está. Na sua perspectiva, a imaginação não se compara ao pensamento, pois este faz parte da natureza do espírito, de modo que aquela está ligada mais à alma, ou seja, o pensamento se distingue dos corpos e da imaginação. As qualidades do espírito fluem pela alma e influem sobre os corpos. René é racionalista.

A sexta meditação cartesiana almeja demonstrar a possibilidade de existência das coisas materiais e também distinguir a alma do corpo do homem. Para Descartes, as coisas verdadeiras são claras e distintas e por isso, como a geometria tem essa capacidade – esclarecer e distinguir – demonstrativa de expor as coisas ao nosso redor claramente, será através dos seus postulados e dos seus teoremas que ele alcança uma prova de que existem objetos nesse mundo e que são  muito distintos. A imaginação, no pensamento cartesiano, está sempre junto do corpo e, por conseqüência, existe, assim como ele. 

Com notas de rodapé tão esclarecedoras quanto o método, a filosofia cartesiana se desenvolve através das linhas consagradas que consolidaram as Meditações metafísicas. Para Descartes, o pensamento constitui a essência do homem. A sensação e a imaginação precisam estar ligadas ao ente que pensa para auxiliá-lo na compreensão da totalidade das coisas do mundo. Assim, o seu pensamento que é livre, precisa de um corpo para estar acontecendo. A imaginação contém o espírito nos corpos e o pensamento liberta nos corpos o espírito. 

Segundo Descartes, as idéias não são produzidas pelas coisas corpóreas, mas são reproduzidas pelos atos do corpo. Ele entendeu a Deus como um grande arquiteto do universo, que inferiu, de acordo com as suas medidas exatas, aquilo que nós conhecemos no mundo e que sentimos também na matéria da própria natureza. Quando concebeu que existíamos enquanto pensávamos, René quis nos dizer que existíamos conforme o pensamento, e que o Eu não é o corpo, mas a mente que por si comanda o corpo. A análise sensorial das experiências que temos na vida é deveras duvidosa. Não podemos entender exatamente, através dos sentidos, as substâncias externas que nós vemos sobre o mundo. A natureza finita do homem limita as certezas do entendimento. 

Quando conhecemos o espírito que temos, bem como os pensamentos que mantemos, nos desviamos das aparências sensoriais que aparecem e aproximamos a verdade de nós mesmos, embora as coisas materiais também existam e não possam ser negadas. Pensamos que percebemos o que sentimos, não sentimos o que percebemos que pensamos. Grosso modo, para Descartes, apenas a razão é confiável  porque nos oferece o caminho seguro de se conhecer.

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