A
idéia central do trabalho de Turing está concentrada em cogitar a
possibilidade de as máquinas pensarem. No entanto, para escapar do
absurdo, Turing recorre ao jogo da imitação para melhor nos definir
essa questão. O jogo é feito de perguntas e respostas, através das
quais conjectura-se, poder ou não, responderem as máquinas certas
questões. Compreender esse problema, para Turing, é entender por
analisar criteriosamente as capacidades mentais e também corporais
que nós temos, em comparação com os construtos cibernéticos.
Para
que uma máquina pense, não é necessário encobri-la de peles e dar
órgãos semelhantes aos dos homens para ela, pois, antes de mais
tudo, a mente é a condição do pensamento pelo menos para os homens
– o que seria para esta a mesma coisa se assim fosse essencial ela
pensar. As perguntas e as respostas fazem parte das diversas –
senão logo de todas – formas de interação humana. Nenhum homem
pode fingir ser uma máquina e as máquinas não podem imitar
perfeitamente qualquer homem. No entanto, nas suas especificidades,
como contar e calcular, as máquinas são muito mais precisas que os
homens.
É
improvável que as máquinas imitem o comportamento do homem no jogo,
mas não é impossível com ponto final. É evidente e lógico, para
Turing e para todos, que as máquinas não são de carne e osso,
podendo ser aperfeiçoadas constantemente pelos engenheiros e pelos
especialistas cibernéticos. O computador digital foi o percussor do
interesse despertado pelas “máquinas pensantes”. Turing
questiona se existem computadores digitais que sejam capazes de jogar
sem ter problemas com o jogo, pois ele quer imaginar que assim seja.
Na verdade, o que ele pretende, é comparar o desempenho nessa
atividade, realizada tanto pelo computador digital quanto pelo
humano.
De
acordo com ele, as partes mais importantes para a constituição de
um computador digital são: a memória, a unidade executiva e o
controle. Na memória estão contidas as informações. As operações
individuais são realizadas com o recurso da unidade executiva. E o
controle, verifica se as instruções recebidas foram devidamente
seguidas. A informação armazenada na memória é corretamente
aproximadamente as ações dos computadores humanos. Os computadores
humanos são autônomos quanto àquilo que for referente à
programação, ao passo que os computadores digitais não o são. O
efeito aleatório de movimento em uma máquina proporciona uma vaga
idéia de livre arbítrio para os observadores das ações executadas
pela mesma.
Se
as memórias dos computadores digitais são limitadas, então as
ações que pretendem serão, pois, restritas. Para que um computador
possua uma capacidade infinita de ações, é necessário que seja sempre
atualizado, posto que dessa maneira os seus dados sejam inovados, e
assim não serão mais os mesmos mudados. Babbage passou onze anos da
sua vida tentando construir a sua máquina e nada conseguiu – pelo
menos não da forma que queria. Se os sistemas digitais são
elétricos, assim como o nosso sistema nervoso, não é possível
para as máquinas mecânicas imitá-lo. Alguns computadores digitais
reproduzem as atividades das máquinas de estado discreto, quando
passam subitamente de um estado para o outro. Todavia, verdadeiras
máquinas efetivas agem continuamente.
As
máquinas simples de estado discreto podem ter os seus movimentos
previstos, como no caso dos interruptores. As máquinas de estado
discreto possuem um número finito e previsível de estados
possíveis. Quando as máquinas se unem, as capacidades gerais de
ambas as máquinas unidas são compartilhadas e aumentam. Os computadores digitais são
equivalentes pela sua utilidade. Os processos de computação podem
ser concluídos pelos computadores digitais e, sendo estes capazes de
imitarem as máquinas de estado discreto, são máquinas universais
por excelência digital.
Contudo
e com tudo, para o futuro, Turing não descartou a hipótese de as
máquinas serem aperfeiçoadas a ponto de poderem jogar bem o jogo da
imitação – porém não tão perfeitamente quanto se esperaria.
Enquanto não considerava relevante perguntar se as máquinas podem
pensar, Turing concebeu que para o final do seu século isso poderia
ocorrer. Contra tanto, existem nove importantes argumentos que se
objetam ao caráter dessa perspectiva teórica de Turing, diante dos
quais ele advoga o que defende, e são eles: a objeção teológica,
a objeção das “cabeças na areia”, a objeção matemática, o
argumento da consciência, o argumento das várias incapacidades, a
objeção de Lady Lovelace, o argumento da continuidade do sistema
nervoso, o argumento da informalidade do comportamento e o argumento
da percepção extra-sensorial.
A
teologia se opõe à cibernética quando tenta argumentar que as
almas dos homens são a condição do seu pensamento e que por isso,
como deus não deu alma para mais ninguém além do homem, ninguém
além de deus pode dar almas para alguém. Assim, as máquinas não
podem pensar, e se puderem, somente será se assim deus quiser, ou
seja, nunca. É ululante que este argumento é um dos mais
ultrapassados.
Desde
Bacon, conhecer é poder, e é com base nesse argumento que se
fundamenta a segunda objeção ao pensamento cibernético. Para os
partidários dessa ideologia, as máquinas poderiam se rebelar contra
os seus criadores e, por conseqüência, acabar lhes superando e
exigindo o seu domínio sobre eles como espólios da conquista dos
humanos dominados que não querem por em risco o seu poder sobre as
espécies na cadeia predatória. Conforme Turing, da mesma forma que
essa teoria está para a prática, está uma ficção para a
realidade no cotidiano.
Para
os matemáticos, o teorema de Gödel demonstra que alguns enunciados
não carecem de demonstrações para que sejam considerados
consistentes para a lógica, de forma que para as máquinas disporem
de meios para se expressarem em termos de sistemas lógicos, será
necessário também que os sistemas lógicos sejam capazes de serem
descritos em termos de máquinas, e vice-versa, de modo que isso
implica na existência de coisas que as máquinas não serão capazes
de realizar, o que não quer dizer que outras máquinas não sejam.
Esse argumento demonstra que, mediante o intelecto humano, algumas
máquinas são incapazes de ser como ele. No entanto, não podemos
nos sentir superiores porque não nos copiaram, pois somos falhos em
aspectos diversos.
O
argumento da consciência postula que as máquinas não são capazes
de ter noção do que estão fazendo, pois são programadas para
procederem como prosseguem nas suas funções, sem questionar ou
saberem os porquês de estarem agindo, apenas fazendo e seguindo o
que foi ordenado. Para os defensores desse ponto de vista, as
máquinas não se aborrecem, não sentem, não choram, não
comemoram, não amam, não gozam, não querem, não riem, não nada.
Nessa perspectiva, a única exceção de consciência numa máquina,
é quando o homem for de fato a própria máquina, visto que todo
mundo pensa.
O
argumento das múltiplas incapacidades se assemelha muito à objeção
da consciência. Nele se explana que as máquinas que forem
construídas estarão limitadas a serem sempre como máquinas, ou
seja, estarão presas às próprias funções. Não farão amizades,
não escreverão romances, não saborearão pratos exóticos, não se
apaixonarão, não aprenderão com os erros, não pensarão por conta
própria e de modos variados, não terão senso de humor e muitas
coisas não terão. Dizer isso significa afirmar que a capacidade de
memória dessas máquinas é baixa.
Lady Lovelace se opõe às capacidades das máquinas argumentando que se as mesmas não possuem – ao serem criadas – a intenção de produzir o que quer que seja o aprendizado para elas não será condicionado. A condessa afirma que as máquinas não podem nos mostrar nada de novo, ou seja, não podem realizar por conta própria alguma ação inovadora que não seja antes prevista. Surpreender significa demonstrar algum ato mental criativo. Isso quer dizer, que para Lovelace, as máquinas jamais nos surpreendem – o que para Turing é muito improvável.
O sistema nervoso, pela sua complexidade, não pode ser comparado a uma máquina de estado discreto porque é contínuo. Podemos prever que se uma lâmpada está acesa e nós apertarmos o interruptor ela irá apagar. Da mesma forma, se uma lâmpada está apagada e nós apertamos o interruptor, então ela irá acender. Isso é uma máquina de estado discreto em ação. Em contrapartida, não podemos anteceder para escapar das intenções nefastas de um psicopata que nos espreita. Isso porque o sistema nervoso é tão imprevisível quanto os próprios psicopatas.
O comportamento informal não nos permite sermos máquinas, pois não possuímos um conjunto de regras que seguimos para todas as circunstâncias que se apresentam. As leis ou regras ou normas de comportamento mecanizam os seres humanos e por isso devem ser consideradas como fados para serem dispensados. De acordo com a existência dessas leis, os comportamentos maquinais poderão mui facilmente ser previstos sem problema – o que nos deixa vulneráveis quanto a nossa discrição, pois muitas máquinas simplórias são também imprevisíveis tendo poucos movimentos.
A percepção extra-sensorial é dividida em quatro categorias: a clarividência, a pré-cognição, a psicocinética e a telepatia. A existência catalogada desses fenômenos é de muita relevância. Isso significa que muitos dos estados mentais que nós temos, podemos prever entre nós todos eles. De acordo com Turing, se as máquinas puderem assumir esses estados, estarão muito mais próximas dos seres humanos – o que é fruto do futuro.
Para
Turing, se quisermos produzir máquinas capazes de imitar
comportamentos humanos, deveremos fazer com que no seu programa elas
reproduzam os caprichos das crianças, pois é muito mais fácil para
todos assim proceder, posto que as crianças sejam menos complexas em
termos de movimentos do que os adultos, como se fossem um papel em
branco esperando a caneta. Nesse contexto, considerando o processo de
educação e a receptividade de um programa infantil, pode-se tentar
ensinar essa máquina a ser como a gente. Máquinas capazes de pensar
seria um salto quantitativo de amplas proporções na teoria da
evolução. A comunicação entre as máquinas, de qualquer modo,
poderia ser limitada pelo seu próprio programa e, por conseqüência,
as informações obtidas pelo ensino poderiam ser limitadas.
Para
mim tornou-se possível poder imaginar que as máquinas possam pensar
e também imitar no futuro o que somos. De
acordo com Turing, as máquinas são subcríticas e não críticas,
pois só agem de acordo com o que designamos. As mentes humanas são
super críticas, pois as idéias únicas que tem, são seguidas de
outras idéias ou muitos momentos diversos da mesma primeira. Estudos
recentes comprovam que existem partes artificiais neurais cerebrais
sendo testadas com sucesso e isto significa que poderá ser possível
que a mente humana seja substituída aos poucos por um cérebro cibernético, de modo a tornar-se tão efetiva quanto o mesmo. E se o cérebro, que é o mais complexo de todos os orgãos que temos puder ser substituído, o que dizer dos outros orgãos que nós temos? Nessa
prospectiva, a ficção lúdica dos cyberpunks é possível:
perderemos aos poucos a nossa humanidade e nos tornaremos ciborgues,
colonizaremos os planetas no espaço sideral pela falta de lugares na terra, como os andróides em
combate desbravando o universo e andaremos para a imortalidade pelo menos no contexto de não
mais apodrecer com esse corpo que nós temos.
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