quarta-feira, 25 de abril de 2012

"Podem as máquinas pensar?" Computação e inteligência para Turing


A idéia central do trabalho de Turing está concentrada em cogitar a possibilidade de as máquinas pensarem. No entanto, para escapar do absurdo, Turing recorre ao jogo da imitação para melhor nos definir essa questão. O jogo é feito de perguntas e respostas, através das quais conjectura-se, poder ou não, responderem as máquinas certas questões. Compreender esse problema, para Turing, é entender por analisar criteriosamente as capacidades mentais e também corporais que nós temos, em comparação com os construtos cibernéticos.

Para que uma máquina pense, não é necessário encobri-la de peles e dar órgãos semelhantes aos dos homens para ela, pois, antes de mais tudo, a mente é a condição do pensamento pelo menos para os homens – o que seria para esta a mesma coisa se assim fosse essencial ela pensar. As perguntas e as respostas fazem parte das diversas – senão logo de todas – formas de interação humana. Nenhum homem pode fingir ser uma máquina e as máquinas não podem imitar perfeitamente qualquer homem. No entanto, nas suas especificidades, como contar e calcular, as máquinas são muito mais precisas que os homens.

É improvável que as máquinas imitem o comportamento do homem no jogo, mas não é impossível com ponto final. É evidente e lógico, para Turing e para todos, que as máquinas não são de carne e osso, podendo ser aperfeiçoadas constantemente pelos engenheiros e pelos especialistas cibernéticos. O computador digital foi o percussor do interesse despertado pelas “máquinas pensantes”. Turing questiona se existem computadores digitais que sejam capazes de jogar sem ter problemas com o jogo, pois ele quer imaginar que assim seja. Na verdade, o que ele pretende, é comparar o desempenho nessa atividade, realizada tanto pelo computador digital quanto pelo humano.

De acordo com ele, as partes mais importantes para a constituição de um computador digital são: a memória, a unidade executiva e o controle. Na memória estão contidas as informações. As operações individuais são realizadas com o recurso da unidade executiva. E o controle, verifica se as instruções recebidas foram devidamente seguidas. A informação armazenada na memória é corretamente aproximadamente as ações dos computadores humanos. Os computadores humanos são autônomos quanto àquilo que for referente à programação, ao passo que os computadores digitais não o são. O efeito aleatório de movimento em uma máquina proporciona uma vaga idéia de livre arbítrio para os observadores das ações executadas pela mesma.

Se as memórias dos computadores digitais são limitadas, então as ações que pretendem serão, pois, restritas. Para que um computador possua uma capacidade infinita de ações, é necessário que seja sempre atualizado, posto que dessa maneira os seus dados sejam inovados, e assim não serão mais os mesmos mudados. Babbage passou onze anos da sua vida tentando construir a sua máquina e nada conseguiu – pelo menos não da forma que queria. Se os sistemas digitais são elétricos, assim como o nosso sistema nervoso, não é possível para as máquinas mecânicas imitá-lo. Alguns computadores digitais reproduzem as atividades das máquinas de estado discreto, quando passam subitamente de um estado para o outro. Todavia, verdadeiras máquinas efetivas agem continuamente.

As máquinas simples de estado discreto podem ter os seus movimentos previstos, como no caso dos interruptores. As máquinas de estado discreto possuem um número finito e previsível de estados possíveis. Quando as máquinas se unem, as capacidades gerais de ambas as máquinas unidas são compartilhadas e aumentam. Os computadores digitais são equivalentes pela sua utilidade. Os processos de computação podem ser concluídos pelos computadores digitais e, sendo estes capazes de imitarem as máquinas de estado discreto, são máquinas universais por excelência digital.

Contudo e com tudo, para o futuro, Turing não descartou a hipótese de as máquinas serem aperfeiçoadas a ponto de poderem jogar bem o jogo da imitação – porém não tão perfeitamente quanto se esperaria. Enquanto não considerava relevante perguntar se as máquinas podem pensar, Turing concebeu que para o final do seu século isso poderia ocorrer. Contra tanto, existem nove importantes argumentos que se objetam ao caráter dessa perspectiva teórica de Turing, diante dos quais ele advoga o que defende, e são eles: a objeção teológica, a objeção das “cabeças na areia”, a objeção matemática, o argumento da consciência, o argumento das várias incapacidades, a objeção de Lady Lovelace, o argumento da continuidade do sistema nervoso, o argumento da informalidade do comportamento e o argumento da percepção extra-sensorial.

A teologia se opõe à cibernética quando tenta argumentar que as almas dos homens são a condição do seu pensamento e que por isso, como deus não deu alma para mais ninguém além do homem, ninguém além de deus pode dar almas para alguém. Assim, as máquinas não podem pensar, e se puderem, somente será se assim deus quiser, ou seja, nunca. É ululante que este argumento é um dos mais ultrapassados.

Desde Bacon, conhecer é poder, e é com base nesse argumento que se fundamenta a segunda objeção ao pensamento cibernético. Para os partidários dessa ideologia, as máquinas poderiam se rebelar contra os seus criadores e, por conseqüência, acabar lhes superando e exigindo o seu domínio sobre eles como espólios da conquista dos humanos dominados que não querem por em risco o seu poder sobre as espécies na cadeia predatória. Conforme Turing, da mesma forma que essa teoria está para a prática, está uma ficção para a realidade no cotidiano.

Para os matemáticos, o teorema de Gödel demonstra que alguns enunciados não carecem de demonstrações para que sejam considerados consistentes para a lógica, de forma que para as máquinas disporem de meios para se expressarem em termos de sistemas lógicos, será necessário também que os sistemas lógicos sejam capazes de serem descritos em termos de máquinas, e vice-versa, de modo que isso implica na existência de coisas que as máquinas não serão capazes de realizar, o que não quer dizer que outras máquinas não sejam. Esse argumento demonstra que, mediante o intelecto humano, algumas máquinas são incapazes de ser como ele. No entanto, não podemos nos sentir superiores porque não nos copiaram, pois somos falhos em aspectos diversos.

O argumento da consciência postula que as máquinas não são capazes de ter noção do que estão fazendo, pois são programadas para procederem como prosseguem nas suas funções, sem questionar ou saberem os porquês de estarem agindo, apenas fazendo e seguindo o que foi ordenado. Para os defensores desse ponto de vista, as máquinas não se aborrecem, não sentem, não choram, não comemoram, não amam, não gozam, não querem, não riem, não nada. Nessa perspectiva, a única exceção de consciência numa máquina, é quando o homem for de fato a própria máquina, visto que todo mundo pensa.

O argumento das múltiplas incapacidades se assemelha muito à objeção da consciência. Nele se explana que as máquinas que forem construídas estarão limitadas a serem sempre como máquinas, ou seja, estarão presas às próprias funções. Não farão amizades, não escreverão romances, não saborearão pratos exóticos, não se apaixonarão, não aprenderão com os erros, não pensarão por conta própria e de modos variados, não terão senso de humor e muitas coisas não terão. Dizer isso significa afirmar que a capacidade de memória dessas máquinas é baixa.

Lady Lovelace se opõe às capacidades das máquinas argumentando que se as mesmas não possuem – ao serem criadas – a intenção de produzir o que quer que seja o aprendizado para elas não será condicionado. A condessa afirma que as máquinas não podem nos mostrar nada de novo, ou seja, não podem realizar por conta própria alguma ação inovadora que não seja antes prevista. Surpreender significa demonstrar algum ato mental criativo. Isso quer dizer, que para Lovelace, as máquinas jamais nos surpreendem – o que para Turing é muito improvável.


O sistema nervoso, pela sua complexidade, não pode ser comparado a uma máquina de estado discreto porque é contínuo. Podemos prever que se uma lâmpada está acesa e nós apertarmos o interruptor ela irá apagar. Da mesma forma, se uma lâmpada está apagada e nós apertamos o interruptor, então ela irá acender. Isso é uma máquina de estado discreto em ação. Em contrapartida, não podemos anteceder para escapar das intenções nefastas de um psicopata que nos espreita. Isso porque o sistema nervoso é tão imprevisível quanto os próprios psicopatas.


O comportamento informal não nos permite sermos máquinas, pois não possuímos um conjunto de regras que seguimos para todas as circunstâncias que se apresentam. As leis ou regras ou normas de comportamento mecanizam os seres humanos e por isso devem ser consideradas como fados para serem dispensados. De acordo com a existência dessas leis, os comportamentos maquinais poderão mui facilmente ser previstos sem problema – o que nos deixa vulneráveis quanto a nossa discrição, pois muitas máquinas simplórias são também imprevisíveis tendo poucos movimentos.

A percepção extra-sensorial é dividida em quatro categorias: a clarividência, a pré-cognição, a psicocinética e a telepatia. A existência catalogada desses fenômenos é de muita relevância. Isso significa que muitos dos estados mentais que nós temos, podemos prever entre nós todos eles. De acordo com Turing, se as máquinas puderem assumir esses estados, estarão muito mais próximas dos seres humanos – o que é fruto do futuro.

Para Turing, se quisermos produzir máquinas capazes de imitar comportamentos humanos, deveremos fazer com que no seu programa elas reproduzam os caprichos das crianças, pois é muito mais fácil para todos assim proceder, posto que as crianças sejam menos complexas em termos de movimentos do que os adultos, como se fossem um papel em branco esperando a caneta. Nesse contexto, considerando o processo de educação e a receptividade de um programa infantil, pode-se tentar ensinar essa máquina a ser como a gente. Máquinas capazes de pensar seria um salto quantitativo de amplas proporções na teoria da evolução. A comunicação entre as máquinas, de qualquer modo, poderia ser limitada pelo seu próprio programa e, por conseqüência, as informações obtidas pelo ensino poderiam ser limitadas.

Para mim tornou-se possível poder imaginar que as máquinas possam pensar e também imitar no futuro o que somos. De acordo com Turing, as máquinas são subcríticas e não críticas, pois só agem de acordo com o que designamos. As mentes humanas são super críticas, pois as idéias únicas que tem, são seguidas de outras idéias ou muitos momentos diversos da mesma primeira. Estudos recentes comprovam que existem partes artificiais neurais cerebrais sendo testadas com sucesso e isto significa que poderá ser possível que a mente humana seja substituída aos poucos por um cérebro cibernético, de modo a tornar-se tão efetiva quanto o mesmo. E se o cérebro, que é o mais complexo de todos os orgãos que temos puder ser substituído, o que dizer dos outros orgãos que nós temos? Nessa prospectiva, a ficção lúdica dos cyberpunks é possível: perderemos aos poucos a nossa humanidade e nos tornaremos ciborgues, colonizaremos os planetas no espaço sideral pela falta de lugares na terra, como os andróides em combate desbravando o universo e andaremos para a imortalidade pelo menos no contexto de não mais apodrecer com esse corpo que nós temos. 
 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário