Castoriadis busca, nas suas Encruzilhadas do labirinto, através de um mundo fragmentado, entender como por si mesmo dá-se o desenvolvimento do “imaginário radical” como instituição social e ao mesmo tempo histórica. O espaço compreendido por ele como base dessa fundamentação é o do que institui e o do que é instituído, onde os indivíduos constituem diferentes unidades de instituições humanóides singulares, cada qual com as suas particularidades, assim como atributos diferentes, de tal forma que não há sociedade sem haja o indivíduo (ou vários deles).
Para o filósofo-político, existe a subjetividade no terreno de um projeto social-histórico, cuja origem se percebe de maneiras variadas, sendo as atribuições mais precisas aquelas que remontam da Europa ocidental, assim como da Grécia. Quer o anatomista da autonomia nos mostrar, depois de aberto um corpo dissecado, os órgãos que ainda pulsam pela liberdade, considerando ainda que a tomada de invasores dos construtos sociais é a única forma capaz de extrair das instituições aquilo que elas podem e tem a oferecer.
Quando em sociedade, o indivíduo vivencia a autonomia no instante em que estiver munido dos meios que o possibilitem de sensatamente decidir por conta própria o seu trajeto em atitudes, ou seja, tornando-se o sujeito apto a possuir o discurso das instituições sem se deixar escravizar, poderá ele certamente utilizar em prol de si os seus discursos e tirar proveito disso, o que mostra a ocorrência do que é independência sobre aquilo que nos causa dependência, pois as engrenagens que se movem muitas vezes são os ciclos viciosos repetentes, sustentáculos de máquinas complexas, centros de forças que são emanadas por forças de centros, e que permitem a permanência unificada (porém sujeita a descentralização) das instituições privadas, assim como daquilo que se pauta sendo significado sobre os domínios do imaginário da sociedade.
Percorrendo estreitos, Castoriadis afirma que embora o aspecto intersubjetivo tenha a reconhecida importância para o contexto do social-histórico, não se pode cometer o equívoco de reduzir a totalidade ao particular. Assim, nos diz ele que as transformações sociais podem ser feitas não apenas por um indivíduo, mas por vários, dando formas modeladas a um corpo social autônomo. Em poucas palavras, aquele que mastiga os cacos e pregos do seu mundo, desassocia de um espelho o seu reflexo, para poder realizar-se plenamente. Com as suas próprias palavras, argumenta o pensador que discutimos sobre o conhecimento dos possíveis pontos em que se encontram estabelecidos na sociedade os atos do sujeito, percebendo entre os atenienses um exemplo de possível referência sendo feita em relação ao que foi feito no lugar de que se fala. E ainda mencionando a relevância de uma vista vida própria que se mostra na esfera da vivência coletiva, aquele que instituiu a sociedade no imaginário nos dirá, pelos intrincados caminhos já trilhados sem saída, que as mudanças irão sempre acontecer.
Constantemente a psique necessita de contato com sentido, e em função disso acaba sempre encontrando razões para ter as respostas que procura oferecer-se. Com isso, a socialização é concluída quando as instituições estão interiorizadas, e estas só passam por isso no instante em que, definitivamente, o indivíduo encontra-se inserido na esfera social, ou seja, quando está habilitado a fazer uso do que dispuser no momento e com isso adquirir os benefícios que puder através desses mecanismos, sem precisar sobrepujar outros demais, incentivando a prática da autonomia como construção diária, que é feita em concordância com as nossas formações.
O processo de fusão e de recepção do conteúdo dessas instituições no organismo faz com que os indivíduos se transformem ao sofrer esta influência, que em contrapartida ocasiona um efeito de resposta ao imaginário social instituído, e os argumentos utilizados pelas suas estruturas, são radicais quando elas tomam direções determinadas pelos fatos, quer dizer, a independência do indivíduo é alcançada, no momento em que ele fornecer respostas às questões que estão surgindo o tempo todo. Assim sendo, o sentido encontrado supera todas as ausências de sentido, pois achou não somente um significado distinto para o vazio que o constituía, mas também encontrou com a falta daqueles complementos que o dignificavam.
Para Castoriadis, a psique é a matéria-prima que dá corpo aos indivíduos, sendo modelada pela sociedade de acordo com as suas exigências. Como fruto articulado da consciência, é o indivíduo responsável pelas mudanças que esta sofre. A sociedade exerce uma influência de grande relevância sobre os indivíduos, pois embora estes sejam partes dela, não quer dizer que outras partes inexistam. Pelo contrário, as variedades ampliam as concepções, na mesma medida em que a reflexão aprimora os pensamentos e os questionamentos fomentam tanto o despertar da consciência, quanto as formulações iluminam o mais escondido entre todos. Assim, o isolamento é possível para aquele que faz parte dessa instituição, ou seja, mesmo alguém no coletivo estará só quando estiver sem mais ninguém.
A sociedade ainda é feita, como todas as coisas duais que nos cercam, de pontos fortes e fracos. Da fraqueza é retirada a força que sustenta a liberdade, pois o que nos torna mais fortes é potencialmente aquilo que nos deixa mais fracos. Em outras palavras, também nos servimos para a instituição da autonomia nas nossas existências, de coisas que um dia puderam causar comoção ou fizeram conosco aquilo que nós semelhantemente associamos ao poder instituído, quer dizer, se pudermos conceder para nós mesmos liberdade de ação, nós poderemos estar certos de que todos os projetos de mudança que tivermos serão feitos para isso.
Castoriadis compreende a prática política como uma atividade que fomenta a utilização de uma ferramenta de contestação ao discurso institucional, possuidor do poder de tanto alienar quanto libertar quem quer que seja, ou de beneficiar ao mesmo tempo em que perverte os que recebem qualquer coisa que lhe seja alguma parte. A política dirige questionamentos coerentes sobre os domínios institucionais, se convertendo em uma série de profundas incisões sobre estes campos que verdejam entre as cercas de arame perfurante da cultura, o que a torna em seu escopo uma maneira de fazer autonomia ao questionar as divergências que existem sobre aquilo que nos pode emancipar.
A autonomia vai ganhando espaço ao estabelecer-se, e para que isso aconteça é preciso que a liberdade seja conduzida com intensidade em direção ao verdadeiro, e para que a sociedade se mantenha é necessário que sempre esteja se fortalecendo a sua própria autonomia, o que expõe diretamente todas as instituições à contestação e as torna sujeitas de serem questionadas nos sentidos mais inóspitos possíveis. Isso faz da institucionalização um aprimoramento completo do corpo social em formação que procura estabelecer o seu lugar sob o sol como totalidade múltipla de seres complicados, juntos simplesmente sob aspectos de pura independência e liberdade de escolha, sem que medidas dominadoras sejam tomadas como forma de poderem controlar as periódicas motivações espontâneas que lá são mantidas e que pouco tem aqui acontecido.
Vivenciar a continuidade da autonomia era para Castoriadis a nossa inclusão nos movimentos das articulações discrepantes, diferentes, dos discursos instituídos e por nós interpretados, utilizados de maneira coerente ao obtermos benefícios destes meios. A socialização, para ele, acontece nas conexões, e tem a propriedade de criar a inclusão, pois quanto mais fazemos parte nos mantemos como somos. A política possui os seus instrumentos de luta, sem que sejam todos eles perniciosos como a guerra, e a sua prática consiste em acionar dispositivos que permitam novas elucidações sobre os costumes instaurados pelas instituições, nos permitindo não ser condensados pelos compressores do aparato ideológico, ao decidirmos sem demora nos fazermos validar.
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