quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A potência subterrânea de libertação contra a ideologia da servidão voluntária

A insurgência espontânea ou organizada das massas é a expressão máxima e indignada da sua revolta. As causas que movimentam as ações políticas são fatos sociais que agregam e guiam as massas, visto que os movimentos como expressão dos anseios coletivos, para Durkheim em As regras do método sociológico, constituem os fatos sociais.

É natural que as más gestões – as que não trazem benefícios para a coletividade – sejam deixadas para trás ou descartadas e que aqueles que escolheram os governantes possam se desgovernar, mediante a insatisfação com os mesmos, pois se escolher é necessário para haverem representantes, também podemos como homens e mulheres livres, vir a nos representar.

A organização corporal dos indivíduos humanos era, para Marx em A ideologia alemã, a base para todos os movimentos de todos os processos de mudança e transformação da sociedade, causados pelos homens e mulheres na História que, linear por ser dialética, é cíclica como o sistema econômico em suas crises e reestruturações periódicas.

A revolta das massas é a potência subterrânea de libertação que emerge de um desconforto generalizado, para desconstruir a visão de mundo proporcionada pelo discurso ideológico das autoridades econômicas, jurídicas, pedagógicas, políticas e sociais, na medida da subversão contra a subserviência que se desenvolve no processo revolucionário em contestação ao sistema vigente. Ora, é necessário que mediante o uso abusivo, desmedido, injusto e insatisfatório do poder, na perspectiva platônica de A república, onde o seu uso correto e justo é uma conveniência de quem o possui, as massas se mobilizem, ataquem, resistam ao mesmo e, por conseguinte, façam a revolução através de um esforço coletivo mediado por relações de reciprocidade e apoio mútuo, rememorando Proudhon em A propriedade é um roubo ou Bakunin em seus Textos anarquistas.

A consciência da falsa realidade propagada pela disseminação da ideologia permite as classes oprimidas (como mencionou José Oiticica em seu livro A doutrina anarquista ao alcance de todos), o reconhecimento do seu maior e mais odioso inimigo, explorador parasitário da força de trabalho, fantasma que assombra a satisfação das nossas necessidades vitais, oportunista que exerce o monopólio – aliado a poderosos magnatas – dos meios de produção: o político profissional. Este, de acordo de Etienne La Boetie no Discurso da servidão voluntária, devido à posse do poder, pode agir como quiser e também quando desejar; de modo que a escolha desses vis representantes constitui uma fraqueza para o homem em seu sistema.

Se não houver rebelião, não haverá sobrevivência; assim bradou José Oiticica mostrando que, e em concordância com La Boetie, o segredo para dar força de realização e sustento às revoltas populares é a insubmissão àquilo que controla, desfavorece, limita e obstrui a consciência humana, ou seja, a ideologia da servidão voluntária que mantém o interesse da classe dominante, desconstruindo-se ao abandonar o jugo dos – como gostava Bakunin de mencionar – queridos filhos do capital.

A palavra de ordem contra a ordem nos levantes e revoluções deve ser transgressão, pois os oprimidos, quando conscientes da realidade que os escraviza e subjuga, deixam de ser submissos e dóceis alienados a viver de ilusões e fantasias pueris, para subverter a dominação instaurada a partir do momento em que se aglomeram e a ela combatem.

Direito à verdade é poder. Verdade é poder ao direito. Poder é direito à verdade. Verdade é direito ao poder. Para Focault, em A microfísica do poder, o rei era o personagem central de todo edifício jurídico ocidental, e na medida em que o judiciário determina através do legislativo as atuações do executivo ou que este determina através daquele as atuações do outro, de cima para baixo, do centro para a circunferência e não ao contrário, a sua autoridade deve ser enfraquecida quando não está trazendo benefícios aos seus súditos.

La Boetie sugere como arma desestabilizadora do tirano, a restrição dos poderes cedidos pelo povo à sua causa, considerando o fato de que se este o escolheu ou permitiu como regente, podem também lhe expulsar e assim devem proceder, quando o poder legitimado pelo voto ou pela força de ameaça ao governante não for útil ao benefício que procuram, as melhorias que almejam e as mudanças que anseiam ou aos desejos que cativam em sua coletividade.

As autoridades só existem pelo desmerecimento de quem quer ser governado, prostituído pelo grande rufião que é o Estado, em seus bordéis institucionais feitos da corrupção social, de onde emanam os poderes oriundos do poder instituído, impregnando as massas com a ignorância a respeito de si, com o ócio cognitivo, com a alienação decorrente do esquecimento do lúdico em prol do trabalho, com a dependência de um miserário (salário de fome) e – acrescentando mais muitas outras coisas – com a legitimação do uso da força física em detrimento da contestação se assim for preciso.

O Estado é um, ou ainda, vários estados distintos: estado de demência, estado de mentira, estado de domínio, estado de alienação, estado de torpeza, estado de exploração, estado de injustiça, estado de miséria, estado de doença, estado de abandono, estado de barbárie, estado de incerteza, estado de calúnia, estado de repúdio, estado de preconceito, estado de intolerância, estado de terror, estado de repressão, estado detestado!

A ideologia é o Estado manifesto em consciências, quer através da religião ou da política, seja a partir da sofística dos demagogos e hipócritas, ou nas atitudes de calhordas e pelegos, em suma: é a construção social da realidade objetiva em um âmbito falso, é a institucionalização distorcida, aparente e irreal, sendo as suas principais e destrutivas consequências, a submissão, o desconhecimento das experiências que podem ser decorrentes da liberdade existencial, a alienação e o conformismo com a situação que deve ser combatida, repelida, subvertida, transformada e transtornada, para que dessa maneira não exista a coerção impositiva feita pelos mecanismos repressores do aparelho estatal e que, mesmo com estes existindo depois do processo, não influam com excessiva violência coercitiva sobre os homens e mulheres conscientes.

Portanto os privilegiados vivenciam a liberdade quanto mais fazem cativas as dos desfavorecidos, que necessitam de melhores condições em suas vidas, sendo impedidos de lutar para obtê-las, com opressões e ameaças repetidas, intimidados pelo medo da miséria, são coagidos pelos manipuladores, que os barbarizam e escravizam como posses, lhes utilizam para ter prosperidade, em detrimento do que é bom para estes mesmos, considerando o que a eles trás vantagens, sem importar-se em causar desigualdades, ou limitar a existência do indivíduo.

Os oprimidos cansarão da opressão e do controle, juntar-se-ão contra o poder para melhores resultados, organizados e sem medo exigirão que as coisas mudem, farão protestos e caminharão nas ruas, trarão problemas até vê-los resolvidos, procurarão mais condições de igualdade, terão vivências coletivas e marcantes, aprenderão a serem fortes uns com os outros, sem esconderem suas cabeças contra os chutes, reagirão com toda a força aos mesmos golpes, chegando todos juntos sobre aquilo que buscaram.

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